Acreditar que os sonhos só acontecem durante o sono REM foi, por décadas, quase um dogma científico. No entanto, estudos recentes mostram que a imaginação noturna não é exclusiva dessa fase. O cérebro, ao que tudo indica, possui mais de um “palco” para encenar suas histórias, e cada um deles produz sonhos com nuances próprias. Essa nova perspectiva está mudando o que pensávamos saber sobre o ato de sonhar.
Um mito que a ciência começa a derrubar
O sono REM, descoberto na década de 1950, chamou a atenção por apresentar intensa atividade cerebral, movimentos rápidos dos olhos e paralisia muscular. Essas características levaram os cientistas a associar quase exclusivamente esse estágio aos sonhos, partindo da lógica de que o corpo ficava imóvel enquanto a mente “assistia” a suas próprias histórias.
Hoje, essa visão está sendo revista. Isabelle Arnulf, neurologista do sono na Sorbonne, afirma que a crença de que os sonhos ocorrem apenas no REM vem de um entendimento desatualizado do tema. Experimentos em que o sono REM foi suprimido por medicamentos mostraram que os participantes continuaram a relatar experiências oníricas — embora mais curtas e com estrutura diferente.

As particularidades de sonhar fora do REM
De acordo com Francesca Siclari, pesquisadora do Netherlands Institute for Neuroscience, os sonhos nas fases não REM tendem a ser menos frequentes, menos vívidos e geralmente sem uma narrativa bem definida. Já os sonhos REM costumam apresentar histórias complexas, cheias de imagens e sensações intensas.
Pesquisas com eletroencefalografia mostram que, apesar das diferenças gerais entre REM e não REM, existem padrões cerebrais semelhantes durante os sonhos. Quando a atividade cerebral diminui, a chance de lembrar o que foi sonhado também cai, o que explicaria por que recordamos apenas uma fração do que acontece em nossas mentes durante o sono.
Perguntas que ainda não têm resposta
Mesmo com esses avanços, a neurociência ainda não sabe ao certo como os sonhos se formam, por que se apagam tão rapidamente da memória ou qual é sua função exata. O que parece claro, segundo Siclari, é que sonhar “é muito mais frequente e diverso do que a maioria das pessoas imagina”. Explorar esses estados pode ajudar a desvendar segredos profundos sobre a forma como pensamos quando estamos desligados do mundo externo.