Depois de duas longas temporadas na Estação Espacial Internacional, Thomas Pesquet está prestes a retornar ao espaço. Desta vez, porém, a viagem terá um significado diferente. Não será apenas mais uma missão científica em órbita: o voo acontecerá em meio à rápida expansão das estações espaciais comerciais e a uma mudança na forma como os países utilizam a infraestrutura orbital.
Uma nova missão está tomando forma
A NASA selecionou a Vast para organizar a sexta missão privada de astronautas à Estação Espacial Internacional, com lançamento previsto para não antes do verão de 2027 no Hemisfério Norte. A viagem deve durar aproximadamente duas semanas e será realizada por uma cápsula Dragon da SpaceX, lançada por um foguete Falcon 9.
Para Pesquet, será a terceira ida ao espaço. O francês já participou de duas missões à ISS e acumulou longos períodos vivendo e trabalhando em órbita. Agora, entretanto, ele terá uma função especialmente importante: está previsto que seja o comandante da missão.
A indicação ainda depende da aprovação definitiva do comitê internacional responsável pelas operações de tripulação da estação. Se for confirmada, a missão também terá um detalhe histórico: Pesquet poderá se tornar o primeiro astronauta não estadunidense a comandar uma nave espacial estadunidense.
A tripulação prevista reúne profissionais de diferentes países. O piloto deverá ser Aleš Svoboda, piloto de combate tcheco e integrante da reserva de astronautas da Agência Espacial Europeia (ESA). Também está previsto que Adrianos Golemis, médico especializado em medicina espacial que poderá se tornar o primeiro astronauta da Grécia. O quarto integrante ainda será anunciado.
Mas o retorno de Pesquet é apenas uma parte de uma estratégia muito maior.
A empresa que quer construir a próxima geração de estações
A missão será realizada pela Vast, uma empresa estadunidense criada em 2021 pelo empresário de tecnologia Jed McCaleb, conhecido por sua participação em projetos como eDonkey, Ripple e Stellar.
O objetivo da companhia vai muito além de levar astronautas até a ISS. A Vast pretende desenvolver habitats espaciais comerciais e, no futuro, explorar conceitos como a criação de ambientes com gravidade artificial.
O primeiro passo dessa estratégia é o Haven-1, uma pequena estação espacial de módulo único que a empresa pretende colocar em órbita em 2027. Com cerca de 45 metros cúbicos de volume habitável e capacidade para quatro pessoas, ela será muito menor que a ISS.
A estação funcionará principalmente como laboratório de microgravidade e plataforma para testar tecnologias que poderão ser utilizadas em projetos posteriores.
E há uma conexão direta com a França. Enquanto Pesquet deverá comandar a missão privada à ISS, o astronauta francês de reserva Arnaud Prost está previsto para participar da primeira missão tripulada do Haven-1 como engenheiro de ensaios de voo.
Ou seja, dois astronautas franceses poderão estar envolvidos em diferentes etapas da mesma aposta: testar hoje a infraestrutura que poderá sustentar a atividade espacial comercial de amanhã.
O que pode acontecer depois da ISS
A Vast já pensa em uma estrutura muito maior. A empresa desenvolve o Haven-2, uma estação modular concebida como possível sucessora comercial da ISS.
Segundo o planejamento divulgado pela companhia, o primeiro módulo poderia entrar em operação em 2028, enquanto a configuração completa seria construída ao longo da década seguinte.
A mudança ocorre justamente quando a NASA se prepara para uma transição histórica. A agência pretende manter a Estação Espacial Internacional em operação até 2030 e, depois disso, transferir progressivamente atividades em órbita baixa para instalações administradas por empresas privadas.
Nesse modelo, a NASA não precisaria necessariamente ser proprietária da estação. Em vez disso, poderia comprar espaço, experimentos e outros serviços de empresas comerciais, compartilhando a infraestrutura com diferentes clientes.
É nesse contexto que o próximo voo de Thomas Pesquet ganha uma dimensão diferente. Sua terceira viagem ao espaço não será apenas mais uma missão de duas semanas em órbita. Ela também poderá funcionar como uma espécie de ponte entre dois momentos da exploração espacial: a era dominada pela ISS e um futuro no qual estações privadas terão papel cada vez maior.
Para Pesquet, o destino continua sendo o espaço. A grande diferença é que, desta vez, ele poderá estar ajudando a testar quem ocupará a órbita baixa da Terra quando a ISS finalmente deixar de ser o centro dessa história.