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Ciência

Um bonobo que “serve chá imaginário” está mudando a ciência: estudo revela que a imaginação não é exclusiva dos humanos — e pode ter surgido há milhões de anos

Pesquisadores observaram um bonobo simulando objetos inexistentes e respondendo corretamente a testes cognitivos. O resultado desafia décadas de suposições científicas e sugere que a capacidade de imaginar pode ter raízes profundas na evolução dos primatas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante muito tempo, a imaginação foi considerada uma habilidade exclusivamente humana — um traço que nos diferenciaria de outros animais. Mas um novo estudo conduzido por cientistas da Universidade Johns Hopkins está mudando essa visão.

Os pesquisadores demonstraram que grandes primatas, como os bonobos, também são capazes de imaginar e simular situações inexistentes. A descoberta, publicada na revista Science, sugere que essa habilidade pode ter surgido muito antes do que se pensava — possivelmente entre 6 e 9 milhões de anos atrás, em ancestrais comuns entre humanos e outros primatas.

Um experimento simples com resultados surpreendentes

Primate
© Francesco Ungaro – Unsplash

O protagonista do estudo é Kanzi, um bonobo de 43 anos que vive em um centro de pesquisa nos Estados Unidos. Para testar sua capacidade de imaginar, os cientistas criaram uma situação curiosa: uma espécie de “festa do chá” com objetos invisíveis.

Em um dos experimentos, um pesquisador fingiu servir suco em copos vazios e depois simulou esvaziar um deles. Quando perguntado onde estava o líquido, Kanzi apontou corretamente para o copo que ainda “continha” o suco imaginário.

O mais impressionante é que o bonobo conseguiu acompanhar a lógica da situação, mesmo sem qualquer estímulo físico real.

Diferenciar o real do imaginário

Para garantir que não se tratava de um acaso, os cientistas realizaram novos testes.

Em um deles, colocaram um copo com suco real ao lado de outro com líquido imaginário. Quando teve que escolher, Kanzi apontou quase sempre para o copo verdadeiro — mostrando que conseguia distinguir claramente entre realidade e simulação.

Em outro experimento, o mesmo conceito foi aplicado com uvas invisíveis. Mais uma vez, o bonobo conseguiu rastrear corretamente a “localização” do objeto imaginário.

A imaginação pode ser mais antiga do que pensávamos

Os resultados sugerem que a capacidade de imaginar — ou seja, pensar em coisas que não estão presentes — não é exclusiva da mente humana.

Isso implica que essa habilidade pode ter surgido muito antes na evolução, compartilhada com outros primatas.

Segundo os pesquisadores, essa descoberta amplia nossa compreensão sobre a cognição animal e levanta novas questões sobre a vida mental de outras espécies.

Um novo capítulo iniciado décadas atrás

Morre Jane Goodall, A Mulher Que Mudou Para Sempre A Forma Como Entendemos Os Chimpanzés E A Natureza P
© X-@AndreiaPrate

Essa não é a primeira vez que a ciência precisa rever o que considera “exclusivo” dos humanos.

Na década de 1960, a primatóloga Jane Goodall revolucionou o campo ao demonstrar que chimpanzés fabricam e utilizam ferramentas — algo que, até então, era visto como uma característica exclusivamente humana.

Agora, a possibilidade de que primatas também possuam imaginação segue a mesma linha: expandir os limites do que entendemos como inteligência.

O que vem pela frente

Os cientistas pretendem ampliar os estudos para outros animais e investigar se essa capacidade está mais disseminada do que se imagina.

Também querem explorar outras dimensões da cognição, como a habilidade de prever o futuro ou compreender o que outros indivíduos estão pensando.

Essas linhas de pesquisa podem redefinir não apenas a biologia, mas também nossa relação com outras espécies.

Repensando o que significa ser humano

A descoberta levanta uma reflexão profunda: talvez aquilo que consideramos mais humano — imaginar, simular, criar cenários mentais — não seja tão exclusivo assim.

Se outros primatas também compartilham essa capacidade, a fronteira entre humanos e animais se torna mais tênue.

E isso reforça uma ideia que a ciência vem construindo há décadas: a mente animal pode ser muito mais complexa, rica e próxima da nossa do que jamais imaginamos.

 

[ Fonte: Diario Ok ]

 

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