O céu de Marte, antes conhecido por seu tom avermelhado e aparência árida, revelou uma surpresa: uma aurora visível. O fenômeno, documentado em março do ano passado, representa um marco para a ciência planetária. Usando instrumentos do rover Perseverance, pesquisadores conseguiram captar, pela primeira vez, o brilho de uma aurora marciana, resultado de uma poderosa tempestade solar. O feito muda o modo como observamos a interação entre o Sol e os planetas do Sistema Solar.
O que causa auroras e por que elas são tão especiais

As auroras são fenômenos luminosos causados por partículas carregadas do Sol que interagem com a atmosfera de um planeta. Na Terra, são conhecidas como auroras boreais e austrais, e ocorrem principalmente nas regiões polares, onde o campo magnético desvia o vento solar. Essas partículas colidem com moléculas de oxigênio e nitrogênio, produzindo luz em diferentes cores — geralmente verdes e violetas.
Em Marte, o processo é semelhante, embora mais sutil. O planeta possui uma magnetosfera fraca e fragmentada, formada a partir da crosta antiga e de uma ionosfera condutora. Até então, as auroras observadas por lá apareciam apenas em comprimentos de onda ultravioleta, invisíveis ao olho humano.
Mas tudo mudou com uma ejeção de massa coronal — uma explosão solar que lançou partículas altamente energéticas em direção ao planeta vermelho. A tempestade ocorreu em 15 de março, e três dias depois, os instrumentos do Perseverance captaram um brilho suave no céu marciano, marcando o primeiro registro de uma aurora visível em Marte.
A tecnologia por trás da descoberta inédita
A equipe liderada pela cientista Elise Knutsen usou duas ferramentas essenciais: a SuperCam, um espectrômetro que identifica os comprimentos de onda da luz, e a Mastcam-Z, uma câmera de alta precisão que capturou imagens do fenômeno. A aurora foi registrada em áreas afastadas de campos magnéticos intensos, o que surpreendeu os cientistas.
Segundo Knutsen, a estratégia de observação visava detectar a chamada aurora difusa — um tipo de aurora que se espalha de forma uniforme por regiões extensas, em vez de se concentrar em zonas específicas. Essa abordagem se mostrou acertada, já que o rover está localizado longe dos campos magnéticos remanescentes da crosta marciana.
A confirmação de que o brilho observado estava ligado à tempestade solar veio após a análise de dados de partículas energéticas, que chegaram a Marte entre os dias 17 e 18 de março, coincidindo com as imagens captadas.
O que a aurora revela sobre Marte e o Sol
Para Knutsen e sua equipe, a observação da aurora visível é muito mais do que um espetáculo visual. Ela oferece pistas valiosas sobre a forma como o Sol influencia a atmosfera de Marte, especialmente em termos de aquecimento localizado e possível perda atmosférica.
A cientista explica que o aquecimento causado por auroras pode acelerar a dispersão dos gases da atmosfera para o espaço — um fator crucial para entender a evolução climática de Marte. Por isso, estudar a frequência e intensidade das auroras é essencial para reconstruir a história do planeta e prever sua futura dinâmica atmosférica.
Colaborações e próximos passos na exploração
Com essa descoberta, os pesquisadores planejam ampliar os estudos, colaborando com especialistas em medições de plasma, dados de magnetômetro, partículas energéticas e observações em diferentes espectros de luz. O objetivo é traçar um panorama mais completo dos eventos climáticos espaciais em Marte.
Como destaca Knutsen, a presença de auroras visíveis não apenas encanta os olhos, mas abre novas possibilidades para estudar as interações entre o Sol e a atmosfera marciana. Uma descoberta que, certamente, mudará para sempre a forma como vemos o céu do planeta vermelho.
[Fonte: Super interessante]