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Ciência

Um computador quântico poderia quebrar o RSA em três dias. O desafio é construir a máquina que faria isso

Estudo estima um ataque com cerca de 23 mil qubits especializados e reforça a urgência de atualizar a criptografia usada na infraestrutura digital.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Um cálculo de pouco mais de três dias colocou novamente a segurança digital no centro da discussão sobre computação quântica. Pesquisadores estimam que uma máquina com 22.593 qubits de uma arquitetura específica poderia fatorar um número RSA de 2.048 bits em 3,14 dias. O resultado descreve os recursos necessários para um ataque futuro. Ainda depende, porém, de condições técnicas exigentes e da construção de um computador capaz de sustentá-las.

O que significa quebrar o RSA

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© Unsplash

O RSA integra a família dos sistemas de criptografia de chave pública, utilizados para proteger informações e autenticar comunicações digitais. Sua segurança depende da dificuldade de fatorar números muito grandes: descobrir os fatores primos que, multiplicados, produzem determinado número.

Para computadores convencionais, essa tarefa se torna impraticável quando os parâmetros são suficientemente grandes. Já o algoritmo de Shor oferece um caminho para realizá-la com um computador quântico adequado.

É por isso que a evolução dessas máquinas interessa a bancos, governos e empresas de tecnologia. Parte da confiança na infraestrutura digital depende de problemas matemáticos que um computador quântico suficientemente poderoso poderia resolver. O risco também alcança sistemas baseados em curvas elípticas, outra família importante da criptografia de chave pública.

Nesse contexto, a expressão “quebrar a criptografia bancária” exige cuidado. O estudo examina um problema criptográfico específico. Transformar essa capacidade em uma invasão de um serviço dependeria de como ele utiliza os algoritmos vulneráveis e de outras camadas de proteção.

De onde saiu a estimativa de três dias

O trabalho envolve pesquisadores da empresa francesa Alice & Bob e apresenta uma estimativa detalhada dos recursos necessários para executar o algoritmo de Shor em qubits supercondutores do tipo “gato”.

O estudo disponível no arXiv, submetido em 27 de outubro de 2026, descreve operações, organização dos qubits e sequências de execução. Trata-se de um preprint, apresentado antes de uma publicação revisada por pares.

Para chegar aos 3,14 dias, os autores assumem ciclos de correção de erros de um microssegundo, tempo de reação de dez microssegundos e uma taxa específica de erros de fase. O cenário principal também pressupõe a ausência de erros de inversão de bit durante a execução.

Essa última condição tem grande peso. Quando os pesquisadores relaxam a hipótese para admitir inversões de bit em uma escala de aproximadamente uma hora, precisam acrescentar uma camada de proteção. Nesse cenário, a quantidade estimada sobe para cerca de 45 mil qubits.

Os próprios cálculos mostram, portanto, que o número de qubits depende da qualidade do hardware e da proteção necessária para manter o processamento confiável.

Por que esses qubits são diferentes

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© UNSW – YouTube

Os chamados qubits gato recebem o nome de uma referência aos estados quânticos associados ao experimento mental do gato de Schrödinger. Na arquitetura da Alice & Bob, eles procuram suprimir um tipo de erro diretamente no hardware.

Isso permite concentrar parte do esforço de correção em outro tipo de falha, os erros de fase. A vantagem pretendida é reduzir a quantidade de componentes físicos necessária para sustentar operações lógicas confiáveis.

Segundo a empresa, o novo cálculo também incorpora códigos de correção mais eficientes e uma reformulação de operações de adição, muito frequentes na execução do algoritmo de Shor. A combinação dessas mudanças reduz a necessidade de qubits na arquitetura analisada.

Há ainda uma diferença importante na metodologia. Em vez de apenas calcular quantos qubits lógicos seriam necessários e aplicar um fator médio de conversão, o trabalho detalha as operações físicas das partes que mais consomem recursos. Isso permite estimar a organização do chip e a programação das tarefas com maior precisão. Ainda assim, continua sendo uma projeção do funcionamento de uma máquina futura.

As estimativas estão diminuindo, mas as comparações exigem contexto

O novo resultado faz parte de uma sequência de pesquisas que procuram reduzir o custo de executar ataques quânticos contra sistemas criptográficos.

Em 2025, Craig Gidney, do Google Quantum AI, estimou que seria possível fatorar um número RSA de 2.048 bits em menos de uma semana com menos de um milhão de qubits sujeitos a ruído. O trabalho atribuía a redução de recursos a melhorias na aritmética, no armazenamento de qubits lógicos e na preparação de estados necessários às operações.

Esses estudos mostram que a ameaça depende de duas corridas simultâneas. Uma busca construir máquinas maiores e mais confiáveis. A outra tenta fazer os algoritmos consumirem menos recursos.

Entretanto, números produzidos para arquiteturas diferentes não formam uma comparação direta de desempenho. Um qubit de determinada tecnologia pode ter propriedades, erros e exigências de controle diferentes dos de outra. A estimativa mais baixa ajuda a explorar possibilidades, mas não funciona como um prazo para o primeiro ataque real.

O próprio NIST, instituto americano responsável por padrões tecnológicos, afirma que ninguém sabe quando surgirá um computador quântico capaz de ameaçar os sistemas criptográficos atuais. As previsões variam de alguns anos a décadas, e ainda existem obstáculos técnicos relevantes.

O risco de guardar dados hoje para abri-los no futuro

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© Google – YouTube

A ausência de uma data confiável não elimina um problema que já orienta a preparação das organizações: informações interceptadas agora podem continuar valiosas quando computadores quânticos mais poderosos estiverem disponíveis.

Essa estratégia recebe o nome de “coletar agora, descriptografar depois”. Um adversário armazena dados protegidos, mesmo sem conseguir lê-los, na expectativa de quebrar sua proteção futuramente.

Segundo a explicação do NIST sobre criptografia pós-quântica, esse risco é uma das razões para iniciar a transição antes da chegada das máquinas capazes de executar o ataque.

Em um relatório publicado em outubro de 2026, a Europol e a Universidade Carlos III de Madri também analisaram a viabilidade técnica e as implicações criminais dessa estratégia. O documento examina quais dados e organizações podem ficar expostos e como esse tipo de ameaça pode aparecer em investigações ao longo do tempo.

A resposta já começou a sair dos laboratórios

A criptografia pós-quântica utiliza problemas matemáticos diferentes, escolhidos por sua resistência aos ataques conhecidos de computadores convencionais e quânticos. Ela pode funcionar em sistemas tradicionais, sem exigir que bancos ou usuários tenham um computador quântico.

Em agosto de 2024, o NIST publicou seus três primeiros padrões finalizados dessa nova geração. O ML-KEM trata do estabelecimento de chaves, enquanto ML-DSA e SLH-DSA atendem a assinaturas digitais. Os padrões resultaram de um processo internacional de avaliação e foram disponibilizados para implementação.

A dificuldade agora envolve localizar os algoritmos vulneráveis espalhados por produtos, serviços e infraestrutura, estabelecer prioridades e substituir os componentes de forma coordenada.

O programa de criptografia pós-quântica do NIST recomenda que as organizações iniciem essa migração. A transição inclui atualizações de protocolos, serviços e produtos, além de atenção especial aos sistemas de maior risco.

O cálculo dos três dias acrescenta uma medida concreta a essa discussão: determinadas melhorias podem tornar um ataque futuro menos exigente do que estimativas anteriores sugeriam. A tarefa das instituições é aproveitar o tempo disponível para atualizar suas defesas, enquanto pesquisadores verificam se o hardware conseguirá cumprir as condições previstas no papel.

 

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