O sucesso das canetas emagrecedoras abriu uma nova disputa na indústria farmacêutica. Agora, reduzir o número na balança é apenas parte do desafio. Os próximos medicamentos precisam melhorar a composição corporal, provocar menos efeitos adversos e ajudar a manter os resultados. Entre as estratégias em estudo estão moléculas que atuam sobre três receptores hormonais e combinações que procuram preservar a massa magra durante o emagrecimento.
Uma molécula, três alvos

Um dos candidatos mais avançados é a retatrutida, da Eli Lilly. O medicamento experimental ativa os receptores de três hormônios: GLP-1, GIP e glucagon. Essa combinação procura ampliar os efeitos sobre os mecanismos que regulam o apetite e o metabolismo.
No estudo de fase 3 TRIUMPH-1, a dose mais alta levou a uma redução média de 28,3% do peso em 80 semanas, em uma análise que estima o efeito com adesão ao tratamento. Quando os pesquisadores consideraram também interrupções e outras situações ocorridas durante o ensaio, a redução foi de 25%. Os dados ajudam a dimensionar o potencial do medicamento, mas também mostram por que os percentuais precisam vir acompanhados de contexto. Os resultados estão detalhados no estudo publicado no New England Journal of Medicine. Eli Lilly and Company
A maior potência, porém, não elimina as dificuldades do tratamento. Náusea, diarreia, constipação e vômitos apareceram entre os efeitos adversos mais comuns. Na dose de 12 miligramas, 11,3% dos participantes interromperam o uso por efeitos adversos, contra 4,9% no grupo placebo. A retatrutida continua sendo uma molécula experimental.
O peso perdido também pode incluir massa magra
Outra frente tenta responder a uma pergunta essencial: o que exatamente o paciente perde ao emagrecer?
O estudo BELIEVE avaliou o bimagrumabe, um anticorpo experimental que bloqueia receptores envolvidos na regulação dos músculos e do tecido adiposo. Os pesquisadores testaram seu uso isolado e em combinação com a semaglutida em 507 adultos com obesidade ou sobrepeso acompanhado de complicações.
Após 72 semanas, a combinação em doses altas apresentou redução média de 22,1% do peso e de 45,7% da massa de gordura, na análise de eficácia. Os dois números medem coisas diferentes: a queda de 45,7% corresponde à gordura corporal inicial, e não ao peso total do participante.
A associação também reduziu a perda de massa magra. Nesse grupo, ela caiu 2,9%, enquanto a semaglutida isolada registrou redução de 7,4%. Portanto, houve maior preservação, mas a combinação não eliminou completamente essa perda.
Além disso, massa magra inclui músculos e outros componentes do corpo. O resultado oferece uma pista promissora sobre a composição corporal, sem demonstrar, por si só, preservação completa da força ou da capacidade física. Os dados constam no ensaio de fase 2 publicado na Nature Medicine. Nature Medicine
Por que o corpo parece “lembrar” da obesidade

Manter o peso perdido exige enfrentar mecanismos que continuam ativos depois do emagrecimento. Uma pesquisa publicada na Nature encontrou alterações persistentes na atividade dos genes do tecido adiposo de pessoas e camundongos após uma perda expressiva de peso.
Nos animais, os cientistas também identificaram mudanças epigenéticas duradouras — marcas que influenciam o funcionamento dos genes sem alterar a sequência do DNA. Quando voltaram a receber uma alimentação rica em gordura, os camundongos com histórico de obesidade recuperaram peso mais rapidamente.
Essa espécie de memória celular pode ajudar a explicar o efeito sanfona. Entretanto, os resultados em animais não demonstram que o mesmo mecanismo determine, sozinho, a recuperação de peso em humanos.
O estudo sobre a memória do tecido adiposo aponta um possível alvo para tratamentos futuros: modificar as alterações que permanecem nas células depois do emagrecimento. A pesquisa ainda não oferece um medicamento capaz de apagar essa memória.
A próxima geração de tratamentos terá, portanto, de responder a perguntas que a balança não resolve. Quanto da perda corresponde à gordura? Quanta massa magra permanece? O paciente consegue tolerar o medicamento? E por quanto tempo os benefícios persistem? Os estudos atuais começam a oferecer respostas, mas preservar os resultados continua sendo uma das principais fronteiras dessa corrida.