A creatina ganhou espaço nas academias por ajudar em esforços intensos e de curta duração. Agora, o interesse científico avança para outra parte do corpo que também depende de energia constante: o cérebro. Pesquisadores investigam se o suplemento pode favorecer a memória, reduzir a queda de desempenho após noites mal dormidas e apoiar a saúde cognitiva. Os resultados oferecem pistas promissoras, embora ainda estejam longe de justificar todas as promessas que circulam nas redes sociais.
Por que um suplemento esportivo interessa à neurociência

A conexão começa no funcionamento das células. O organismo produz creatina a partir de aminoácidos e também a obtém por alimentos de origem animal, como carne e peixe. Parte dela se transforma em fosfocreatina, que participa de um sistema de reposição rápida de energia.
Esse sistema ajuda a regenerar o ATP, molécula que as células utilizam para realizar suas atividades. Nos músculos, ele tem especial importância durante esforços como uma arrancada ou uma série de levantamento de peso. A suplementação pode ampliar as reservas disponíveis e favorecer a capacidade de repetir essas ações.
O cérebro também utiliza creatina em seu metabolismo energético. Por isso, pesquisadores querem entender se aumentar sua disponibilidade pode ajudar em situações nas quais a demanda de energia cresce ou o funcionamento cerebral enfrenta algum tipo de estresse.
Richard Kreider, pesquisador da Universidade Texas A&M citado pela Xataka, está entre os cientistas que defendem uma investigação mais ampla dessas aplicações. Em um artigo de opinião científica publicado em 2025, ele e outros especialistas discutem usos da creatina além do esporte, incluindo possíveis efeitos sobre cognição e envelhecimento. Esse tipo de publicação reúne argumentos e estudos anteriores; não equivale, por si só, a um novo ensaio clínico que comprove todos esses benefícios.
A memória aparece entre os resultados mais promissores
Uma revisão com metanálise publicada na Frontiers in Nutrition, em 2024, reuniu ensaios clínicos randomizados para avaliar os efeitos da creatina sobre diferentes aspectos da cognição em adultos.
A análise encontrou resultados favoráveis para a memória e para algumas medidas de tempo de atenção e velocidade de processamento. Entretanto, a confiança nas evidências variou conforme a habilidade avaliada. Para atenção, velocidade de processamento, função executiva e cognição global, os autores classificaram a certeza das evidências como baixa.
Essa diferença importa porque “melhorar o cérebro” é uma expressão ampla demais. Lembrar informações, responder rapidamente a um estímulo e planejar uma tarefa são capacidades distintas. Um resultado positivo em um teste não demonstra melhora automática em todas as outras.
Além disso, um benefício médio observado em estudos não permite prever o efeito em cada pessoa. Os ensaios utilizam doses, durações e participantes diferentes. Isso dificulta transformar os resultados em uma recomendação única para estudantes, trabalhadores ou idosos interessados em melhorar o desempenho mental.
A falta de sono oferece uma pista importante
Uma das linhas de pesquisa mais interessantes envolve a privação de sono. Nesse cenário, a pergunta é se a creatina consegue atenuar parte da piora cognitiva provocada pelo cansaço.
Em um ensaio publicado na Scientific Reports, em 2024, pesquisadores compararam uma dose única de creatina com placebo durante um período de aproximadamente 21 horas de privação de sono. Além dos testes cognitivos, eles utilizaram exames para acompanhar mudanças no metabolismo energético cerebral.
O estudo encontrou alterações em compostos relacionados à energia e melhora em medidas de desempenho cognitivo e velocidade de processamento. Os autores interpretaram os resultados como sinal de que a creatina poderia reverter parcialmente algumas alterações metabólicas e cognitivas associadas à falta de sono.
O protocolo, porém, utilizou uma dose elevada: 0,35 grama por quilo de peso corporal. Para uma pessoa de 70 quilos, isso corresponderia a 24,5 gramas de uma só vez. Trata-se de uma condição experimental, que não deve virar uma sugestão de consumo por conta própria.
O contexto também limita a interpretação. Atenuar a queda de desempenho durante uma noite sem dormir não demonstra que alguém descansado ficará mais atento ou terá memória melhor ao tomar o suplemento. Tampouco demonstra que a creatina possa substituir o sono.
Por que ainda existe cautela com as promessas

As conclusões científicas não são uniformes. Em uma avaliação publicada em 2024, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, a EFSA, examinou uma alegação de que a creatina melhoraria a função cognitiva.
O painel concluiu que os dados apresentados não permitiam estabelecer uma relação de causa e efeito entre a suplementação e essa melhora. A avaliação considerou limitações e inconsistências nos resultados disponíveis.
Isso ajuda a entender por que estudos promissores e uma conclusão regulatória cautelosa podem coexistir. Uma pesquisa pode encontrar um efeito em determinada tarefa, população ou situação. Já uma alegação geral de benefício exige evidências suficientemente consistentes para sustentar uma afirmação mais abrangente.
A mesma cautela vale para a ideia de neuroproteção. Investigar mecanismos ligados à energia celular não equivale a demonstrar prevenção de Alzheimer, tratamento de lesões cerebrais ou redução do declínio cognitivo. Essas aplicações precisam de ensaios específicos, com desfechos clínicos relevantes e acompanhamento adequado.
O programa americano Operation Supplement Safety também considera que ainda são necessárias mais pesquisas para esclarecer os efeitos da creatina sobre o desempenho cognitivo e a saúde cerebral.
A dose usada na academia resolve a questão cerebral?
Ainda não existe um protocolo de suplementação amplamente estabelecido para melhorar a cognição de adultos saudáveis.
No esporte, a creatina monohidratada é a forma mais estudada. Protocolos comuns utilizam de 3 a 5 gramas por dia na manutenção. Alguns incluem uma etapa inicial de doses maiores, distribuídas ao longo do dia, enquanto outros começam diretamente com doses menores e levam mais tempo para elevar as reservas musculares.
Essas estratégias foram estudadas principalmente para objetivos físicos. Portanto, não se pode assumir que a dose utilizada para apoiar o treino seja também a dose ideal para a memória ou a atenção.
Também é preciso distinguir a importância da creatina para o organismo da necessidade de suplementação. O corpo produz a substância. Assim, consumir pouca creatina pela alimentação não significa automaticamente apresentar uma deficiência clínica ou precisar de um suplemento.
Segurança não significa ausência de efeitos adversos
A creatina apresenta um histórico de segurança favorável em adultos saudáveis nas condições estudadas. Mesmo assim, pode causar aumento de peso associado à retenção de água e desconfortos gastrointestinais em algumas pessoas.
A qualidade do produto também merece atenção. O Operation Supplement Safety recomenda produtos com certificação independente e orientação profissional para avaliar o uso. Isso se torna especialmente relevante quando alguém pretende reproduzir doses elevadas de experimentos, tem uma condição de saúde ou utiliza medicamentos.
A creatina tem motivos para continuar no radar da neurociência: participa do metabolismo energético cerebral e apresentou resultados interessantes em algumas pesquisas. O próximo desafio é descobrir em quais pessoas, doses e circunstâncias esses efeitos se traduzem em benefícios perceptíveis e duradouros. Até lá, o entusiasmo com seu potencial precisa acompanhar a qualidade das evidências.