Desde cedo, somos ensinados que nunca desistir é um dos caminhos mais seguros para alcançar o sucesso. A perseverança costuma aparecer como uma virtude indispensável em histórias de superação, esportes, carreira e desenvolvimento pessoal. No entanto, pesquisadores começaram a questionar essa ideia e chegaram a uma conclusão surpreendente: insistir o tempo todo nem sempre faz bem. Em determinadas situações, a mesma característica que ajuda alguém a avançar também pode aumentar o estresse, comprometer a saúde e dificultar a tomada de decisões.
Nem toda perseverança produz resultados positivos
Durante décadas, a perseverança foi tratada como uma qualidade quase universalmente positiva. A capacidade de enfrentar obstáculos, suportar dificuldades e continuar avançando costuma ser associada ao sucesso profissional, ao crescimento pessoal e à resiliência.
Na Finlândia, essa ideia é representada pela palavra sisu, um conceito cultural que simboliza coragem, determinação e força para seguir em frente mesmo diante do medo, do cansaço e das adversidades.
Mas pesquisadores decidiram investigar se essa característica realmente beneficia todas as pessoas em qualquer contexto. Em um estudo conduzido por Pentti Henttonen, Ilmari Määttänen e Emilia Lahti, publicado em 2022, os cientistas desenvolveram uma forma de medir esse traço psicológico para entender como ele influencia o bem-estar.
Os resultados mostraram que a perseverança não é um comportamento único. Na prática, ela pode se manifestar de duas maneiras bastante diferentes.
A primeira foi considerada uma forma saudável de persistência. Pessoas com esse perfil demonstram disposição para enfrentar desafios mantendo equilíbrio emocional, confiança nos próprios recursos e capacidade de adaptar estratégias quando necessário.
Já a segunda forma revelou um lado muito menos conhecido da perseverança. Nesse caso, continuar insistindo deixa de ser uma atitude produtiva e passa a gerar desgaste psicológico, prejudicar o raciocínio e aumentar a tensão tanto para a própria pessoa quanto para aqueles que convivem com ela.
Essa descoberta desafia uma crença bastante difundida: a de que quanto maior o esforço, maiores serão necessariamente as recompensas. Segundo os pesquisadores, suportar sofrimento por si só não garante crescimento, sucesso ou desenvolvimento pessoal.
Novas pesquisas reforçaram que existe um limite saudável
Dois anos depois, uma nova investigação voltou a analisar o mesmo fenômeno utilizando a mesma metodologia de avaliação.
Os resultados confirmaram as conclusões iniciais. Pessoas que apresentavam uma perseverança equilibrada também demonstravam melhores indicadores de saúde física, maior bem-estar emocional, níveis mais elevados de satisfação com a vida e maior facilidade para atingir objetivos de longo prazo.
Em contrapartida, participantes classificados com o perfil de perseverança considerada prejudicial registraram níveis significativamente maiores de estresse ocupacional, desgaste emocional e redução da qualidade de vida.
Essas evidências reforçam que o fator decisivo não é simplesmente continuar tentando, mas a maneira como cada pessoa reage às dificuldades. Persistir com flexibilidade e capacidade de adaptação produz efeitos muito diferentes de insistir cegamente, ignorando sinais de esgotamento físico ou mental.
Para aprofundar essa análise, os pesquisadores realizaram outro experimento envolvendo mais de 3.100 voluntários submetidos à imersão em águas extremamente frias, próximas do congelamento.
Após a experiência, foram avaliados diversos indicadores fisiológicos, incluindo inflamação, níveis de estresse, humor e qualidade do sono.
Os resultados mostraram um aumento temporário dos marcadores inflamatórios logo após a exposição ao frio, indicando um custo fisiológico imediato para o organismo. Já benefícios frequentemente atribuídos a esse tipo de prática, como melhora do humor, do sono ou da sensação geral de bem-estar, não apareceram de forma consistente entre os participantes.
Os próprios autores destacaram que muitos estudos existentes analisam apenas uma única exposição ao frio. Segundo eles, futuras pesquisas precisarão investigar os efeitos de uma prática repetida ao longo do tempo para compreender melhor seus possíveis impactos.
A principal lição talvez seja saber quando continuar e quando parar
As pesquisas realizadas nos últimos anos apontam para uma mudança importante na forma de compreender a perseverança.
Em vez de enxergá-la como uma qualidade sempre positiva, os cientistas defendem que ela deve ser entendida como uma habilidade que precisa ser administrada com equilíbrio. Continuar avançando diante de obstáculos pode ser extremamente benéfico quando existe capacidade de adaptação e consciência dos próprios limites.
Por outro lado, transformar a persistência em uma obrigação permanente pode produzir exatamente o efeito oposto ao desejado, aumentando o desgaste físico e emocional sem melhorar os resultados alcançados.
Essa conclusão também ajuda a explicar por que algumas pessoas conseguem manter desempenho elevado durante longos períodos enquanto outras acabam enfrentando esgotamento, ansiedade ou perda de motivação mesmo dedicando enorme esforço aos mesmos objetivos.
A mensagem deixada pelos pesquisadores é clara: perseverar continua sendo importante, mas saber identificar o momento de mudar de estratégia, descansar ou até abandonar um caminho pouco saudável pode representar uma demonstração de inteligência — e não de fraqueza. Em muitos casos, o verdadeiro progresso depende menos de insistir a qualquer custo e mais da capacidade de reconhecer quando seguir em frente realmente faz sentido.