Levar astronautas ao espaço deixou de ser uma tarefa realizada exclusivamente pela NASA. Nos últimos anos, empresas privadas assumiram uma parte fundamental dessa operação, e uma delas acaba de ganhar ainda mais espaço nos planos da agência americana. Um novo acordo de US$ 946 milhões garante três missões adicionais à Estação Espacial Internacional e revela como a NASA pretende manter o acesso ao laboratório orbital durante seus últimos anos de atividade.
Três novas missões entram no calendário
A empresa escolhida é a SpaceX. A NASA anunciou em 18 de setembro uma modificação de US$ 946 milhões no contrato Commercial Crew Transportation Capability, conhecido como CCtCap.
O acordo adiciona três voos: Crew-15, Crew-16 e Crew-17. Com isso, o número total de missões contratadas pela NASA com a SpaceX nesse programa sobe para 17, enquanto o valor acumulado do contrato chega a US$ 5,92 bilhões.
Não se trata apenas de pagar pelo lançamento de um foguete.
O valor inclui operações em solo, lançamento, atividades em órbita, retorno e recuperação da cápsula, além do transporte de carga em cada missão. A Crew Dragon também permanece conectada à estação e pode funcionar como veículo de emergência para os astronautas.
O período de execução do novo acordo vai até 2030, com datas de prontidão das missões previstas para 2027 e 2028.
Para realizar esses voos, a SpaceX continuará utilizando uma combinação que se tornou familiar: o foguete Falcon 9 e a cápsula Crew Dragon.
Mas há um detalhe importante por trás da expansão do contrato. Quando a NASA iniciou sua estratégia de transporte comercial de astronautas, a ideia nunca foi depender de uma única empresa.
A NASA queria duas opções para chegar à estação

Em 2014, NASA escolheu SpaceX e Boeing para desenvolver sistemas comerciais capazes de transportar astronautas.
A estratégia buscava devolver aos Estados Unidos uma capacidade própria de enviar tripulações à órbita baixa após a aposentadoria dos ônibus espaciais em 2011. Durante anos, astronautas americanos dependeram das cápsulas russas Soyuz para chegar à ISS.
A SpaceX avançou rapidamente.
A Crew Dragon levou astronautas pela primeira vez à estação na missão Demo-2, em maio de 2020. Em novembro daquele ano, a NASA certificou oficialmente o sistema para missões operacionais.
Desde então, a nave se transformou em uma peça central na rotação das tripulações.
No momento do anúncio do novo contrato, a Crew-12 estava acoplada à ISS, enquanto a Crew-13 era preparada para lançamento. As três novas missões estendem essa sequência até a Crew-17.
A história da segunda empresa escolhida pela NASA, porém, seguiu outro caminho.
A Starliner, da Boeing, ainda não recebeu certificação para realizar missões operacionais regulares com astronautas.
E os problemas enfrentados pela cápsula ajudam a explicar por que manter os voos da Dragon se tornou tão importante.
O problema da Starliner deixou a SpaceX em uma posição decisiva

O primeiro teste tripulado da Starliner chegou à Estação Espacial Internacional em junho de 2024, mas problemas técnicos mudaram completamente o planejamento da missão.
Falhas envolvendo propulsores e outros sistemas fizeram a NASA decidir que a cápsula retornaria à Terra sem seus dois astronautas, Butch Wilmore e Suni Williams.
A dupla acabou permanecendo na estação muito mais tempo do que o previsto e voltou à Terra em uma Crew Dragon em março de 2025.
Apesar das dificuldades, a NASA continua defendendo a estratégia de manter dois fornecedores comerciais.
Existe uma razão prática para isso: redundância.
Caso um foguete ou cápsula enfrente um problema grave e precise ficar temporariamente sem voar, a existência de um segundo sistema certificado evita que os Estados Unidos percam sua capacidade de transportar astronautas.
O novo contrato com a SpaceX não elimina a Boeing dos planos. A própria NASA destacou que a modificação atual não impede futuras compras de serviços adicionais de transporte.
Mas há outro relógio correndo.
A estação para a qual esses astronautas estão viajando também se aproxima do final de sua história.
O contrato vai praticamente até o fim da ISS
NASA e seus parceiros internacionais trabalham atualmente com a perspectiva de encerrar as operações da Estação Espacial Internacional por volta de 2030, embora discussões políticas possam alterar esse cronograma.
Isso significa que Crew-15, Crew-16 e Crew-17 podem estar entre as últimas missões americanas regulares da longa história do laboratório orbital.
O fim da ISS, porém, não significará o fim das viagens de astronautas da NASA à órbita baixa.
A agência está incentivando empresas privadas a desenvolver estações espaciais comerciais que possam receber astronautas, pesquisadores e clientes privados no futuro.
É aí que surge outra transformação.
A própria Crew Dragon pode estar se aproximando de seus últimos anos de operação. A SpaceX vem desenvolvendo a Starship como seu sistema espacial de próxima geração e já indicou planos de concentrar progressivamente suas atividades nessa plataforma.
O contrato de US$ 946 milhões, portanto, não representa apenas três novos lançamentos.
Ele ajuda a garantir a continuidade das viagens de astronautas em uma fase de transição: a ISS caminha para seus últimos anos, a Boeing ainda tenta colocar sua alternativa em operação regular e uma nova geração de veículos e estações espaciais começa a aparecer no horizonte.
Depois de mais de uma década apostando no transporte comercial, a NASA está garantindo que, enquanto essa próxima fase não chega, ainda haverá uma nave pronta para levar seus astronautas ao espaço.
[Fonte: space]