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Ciência

Do oceano ao prato: a viagem invisível de contaminantes que preocupa cientistas

Metais presentes no ambiente conseguem percorrer um caminho surpreendente até nossa alimentação. O problema não costuma estar em uma refeição isolada, mas no que acontece ao longo dos anos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em poluição, imaginamos fumaça saindo de fábricas, escapamentos ou toneladas de plástico no oceano. Existe, porém, uma rota muito menos visível. Certos contaminantes liberados ou concentrados pela atividade humana passam pelo solo e pela água, entram em plantas e animais e podem terminar justamente onde menos esperamos: no prato. O ponto central, alertam especialistas, está na quantidade e principalmente na exposição acumulada.

O caminho invisível entre a poluição e a comida

Do oceano ao prato: a viagem invisível de contaminantes que preocupa cientistas
© Logan Voss – Unsplash

Mercúrio, arsênio, chumbo e cádmio existem naturalmente na crosta terrestre. O problema surge quando atividades industriais, agrícolas e de mineração aumentam suas concentrações no ambiente.

A partir daí, esses elementos podem contaminar solos e ambientes aquáticos e chegar aos organismos que posteriormente consumimos. Estudos epidemiológicos já relacionaram a exposição a alguns desses metais a alterações neurológicas, cardiovasculares e renais.

Um dos exemplos mais conhecidos é o mercúrio.

Quando chega aos rios e oceanos, processos envolvendo algas e bactérias podem transformá-lo em metilmercúrio, uma forma particularmente tóxica. Ele entra na cadeia alimentar e se acumula nos tecidos dos peixes.

O fenômeno ajuda a entender por que tamanho importa.

Peixes pequenos começam com concentrações relativamente baixas. Predadores maiores comem muitos desses animais durante a vida e acabam acumulando o contaminante. Por isso, espécies grandes e longevas tendem a apresentar concentrações superiores.

Uma pesquisa liderada pelo Instituto de Diagnóstico Ambiental e Estudos da Água, ligado ao CSIC espanhol, analisou quase 60 espécies de peixes e frutos do mar. Apenas 13 apresentaram de maneira consistente concentrações de mercúrio abaixo dos limites considerados seguros pela União Europeia. Sardinha, anchova, dourada e lula estavam entre elas.

Mas isso não significa que a solução seja abandonar o peixe.

Comer peixe continua sendo recomendado, mas há um detalhe

Do oceano ao prato: a viagem invisível de contaminantes que preocupa cientistas
© Pexels

Os próprios pesquisadores reforçam que peixes possuem grande valor nutricional, oferecendo proteínas de alta qualidade e ácidos graxos importantes para a saúde.

A questão está em escolher e variar.

Espécies menores, como sardinha, anchova e cavala, aparecem como alternativas interessantes porque tendem a acumular menos mercúrio. Já grandes predadores merecem atenção especial em determinados grupos.

Segundo especialistas citados pelo ARA, o risco não está em comer uma lata de atum ou determinado peixe ocasionalmente. A preocupação é a exposição elevada e contínua durante muitos anos.

Esse cuidado se torna especialmente relevante para gestantes, mulheres que amamentam e crianças, porque o metilmercúrio é neurotóxico e pode interferir no desenvolvimento do sistema nervoso.

Há ainda diferenças relacionadas à origem do alimento. O pesquisador Joan Grimalt destaca, por exemplo, que atuns provenientes de diferentes regiões podem apresentar concentrações distintas de mercúrio.

Em outras palavras, dizer simplesmente que “atum tem mercúrio” esconde uma realidade bem mais complexa.

E o problema tampouco termina no oceano.

O mesmo fenômeno pode acontecer com arroz, chocolate e vegetais

Do oceano ao prato: a viagem invisível de contaminantes que preocupa cientistas
© Famery Fialiwan – Unsplash

O arsênio oferece outro exemplo dessa viagem silenciosa.

Arroz e seus derivados conseguem absorver arsênio presente no solo e na água utilizada para irrigação. Já cereais, alguns vegetais, cacau e frutos do mar podem apresentar concentrações variáveis de cádmio dependendo de onde foram cultivados ou capturados.

O cádmio pode chegar ao solo, entre outras fontes, por meio de determinados fertilizantes fosfatados utilizados na agricultura. Depois, pode aparecer em alimentos bastante comuns, incluindo massas, pães e batatas, além de mexilhões, lulas e sépias.

Isso parece assustador, mas existe uma distinção fundamental.

Detectar determinado elemento em um alimento não significa automaticamente que seu consumo representa perigo. A toxicologia depende de fatores como concentração, frequência e duração da exposição.

Além disso, alguns metais são necessários ao funcionamento do organismo quando presentes nas quantidades adequadas. Ferro, zinco, cobre e selênio são exemplos.

Por isso, transformar cada nova análise laboratorial em uma lista de alimentos “proibidos” pode gerar mais confusão do que proteção.

A estratégia recomendada é muito mais simples.

A melhor defesa pode estar justamente na variedade

Especialistas defendem uma alimentação variada e equilibrada.

A lógica é que, ao alternar os alimentos, reduzimos a possibilidade de exposição repetitiva a concentrações elevadas de um mesmo contaminante. Assim, um alimento eventualmente mais carregado não necessariamente domina a exposição total ao longo do tempo.

Também existem medidas específicas relativamente simples. No caso de determinados crustáceos, por exemplo, algumas partes podem concentrar mais cádmio que outras.

Mas há um limite para aquilo que consumidores conseguem resolver individualmente.

Eliminar completamente esses metais da dieta é praticamente impossível porque muitos deles fazem parte naturalmente do ambiente. A diferença está em evitar que atividades humanas façam suas concentrações aumentarem até níveis preocupantes.

É por isso que programas de vigilância analisam alimentos periodicamente e estabelecem limites máximos para determinados contaminantes.

No fim, a comida funciona quase como um arquivo do planeta. Um peixe pode carregar sinais do que aconteceu no oceano; um cereal, do que estava presente no solo e na água.

A poluição que parece distante, portanto, pode completar um percurso muito maior do que imaginamos. E algumas vezes, o último ponto dessa viagem está exatamente diante de nós, na mesa.

[Fonte: a]

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