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Ciência

Uma cratera gigantesca pode esconder a resposta para um dos maiores mistérios de Marte

Uma pequena lua condenada a desaparecer guarda uma cicatriz colossal em sua superfície. Agora, cientistas acreditam que o que existe abaixo dela pode solucionar um mistério de bilhões de anos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há bilhões de anos, alguma coisa atingiu violentamente uma pequena lua de Marte e deixou uma cicatriz tão grande que é surpreendente que o objeto tenha sobrevivido. Agora, essa cratera voltou ao centro das atenções. Cientistas suspeitam que o impacto tenha modificado o interior da lua e deixado uma assinatura gravitacional capaz de responder a uma pergunta que permanece aberta há décadas: de onde ela realmente veio?

Uma cicatriz enorme em uma lua minúscula

Uma cratera gigantesca pode esconder a resposta para um dos maiores mistérios de Marte
© Por NASA / JPL-Caltech / University of Arizona https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5191977

O objeto em questão é Fobos, a maior e mais próxima das duas luas de Marte. Apesar dessa descrição, ela está longe de ser grande: seu diâmetro médio é de apenas 22,2 quilômetros. Além disso, completa uma volta ao redor do planeta em somente 7 horas e 39 minutos.

Mas o que realmente chama atenção é uma enorme depressão em sua superfície.

Conhecida como cratera Stickney, ela possui aproximadamente 9 quilômetros de diâmetro. Em comparação com o tamanho total de Fobos, é uma cicatriz colossal. O impacto responsável por sua formação foi tão violento que levanta uma pergunta inevitável: como uma lua tão pequena não foi destruída?

Responder a isso pode ajudar a solucionar outro mistério ainda maior.

Existem atualmente duas grandes hipóteses para explicar a origem de Fobos. Uma delas sugere que a lua era originalmente um asteroide que passou perto demais de Marte e acabou capturado pela gravidade do planeta.

A segunda apresenta uma história completamente diferente. Um enorme objeto teria colidido com Marte bilhões de anos atrás, lançando material para o espaço. Esses detritos formariam um disco ao redor do planeta e, posteriormente, dariam origem a Fobos e Deimos.

O problema é que as evidências disponíveis ainda não permitem escolher definitivamente entre os dois cenários.

E é justamente aí que Stickney pode se tornar fundamental.

O segredo pode estar escondido debaixo da cratera

A idade da cratera pode mudar bastante dependendo da história de Fobos.

Caso a lua tenha se formado a partir dos destroços de uma colisão gigantesca em Marte, Stickney poderia ter surgido aproximadamente 4,2 bilhões de anos atrás. Se Fobos for um asteroide capturado, o impacto poderia ser muito mais recente, com cerca de 2,6 bilhões de anos.

Benjamin Haser e Thomas Andert estão investigando o problema analisando características geofísicas da lua, especialmente sua gravidade, distribuição de massa e pequenas oscilações durante o movimento orbital.

A ideia é descobrir o que existe abaixo da gigantesca cratera.

O impacto que formou Stickney deve ter produzido temperaturas extremamente altas. Parte do material localizado abaixo da região poderia ter derretido e sido comprimido pela colisão.

Se isso aconteceu, pode existir atualmente uma concentração de material mais denso sob a cratera.

Essa diferença seria pequena, mas suficiente para alterar discretamente o campo gravitacional de Fobos e até a maneira como a lua oscila enquanto orbita Marte.

Em outras palavras, cientistas não precisam necessariamente abrir um buraco na superfície para descobrir o que existe ali. A própria gravidade pode denunciar a estrutura escondida no interior.

Modelos atuais também indicam que Fobos provavelmente é bastante porosa e pode até conter gelo de água.

Essa estrutura ajudaria a explicar como ela conseguiu sobreviver ao impacto que produziu uma cratera proporcionalmente tão gigantesca.

Fobos pode funcionar como uma enorme esponja espacial

Uma cratera gigantesca pode esconder a resposta para um dos maiores mistérios de Marte
© Unsplash

Uma possibilidade particularmente interessante é que Fobos tenha uma densidade relativamente baixa e homogênea.

Nesse cenário, sua estrutura teria conseguido absorver parte da energia do impacto de forma semelhante a uma esponja, evitando que a lua simplesmente se despedaçasse.

Sua aparência irregular também oferece pistas.

Fobos lembra alguns asteroides conhecidos como “pilhas de escombros”, objetos formados por inúmeros fragmentos de rocha mantidos unidos de maneira relativamente frouxa pela gravidade.

Essa característica favorece, em parte, a hipótese de que a lua possa ser um antigo asteroide capturado. Porém, explicar sua origem exige combinar várias informações: formato, densidade, composição, campo gravitacional, órbita e comportamento dinâmico.

Nenhuma pista isolada resolve o quebra-cabeça.

Há ainda outro detalhe curioso: Fobos não permanecerá onde está para sempre.

A lua orbita extremamente perto de Marte e está lentamente se aproximando do planeta. No futuro distante, deverá acabar destruída pelas forças gravitacionais marcianas ou atingir a superfície.

Isso transforma Fobos em algo bastante incomum. Ao mesmo tempo em que preserva evidências de acontecimentos ocorridos bilhões de anos atrás, ela continua passando por um processo que determinará seu próprio fim.

Mas antes que isso aconteça, cientistas terão uma oportunidade inédita de investigá-la.

Uma missão japonesa pode finalmente resolver o mistério

A resposta pode chegar com a missão Martian Moons Exploration, conhecida como MMX, da agência espacial japonesa JAXA.

Com lançamento planejado para o fim de 2026, a missão pretende estudar Fobos detalhadamente e, principalmente, coletar amostras de sua superfície para trazê-las à Terra.

A tarefa será complicada. A gravidade da pequena lua é extremamente fraca e sofre forte influência de Marte, tornando difícil manter uma espaçonave em uma trajetória estável nas proximidades.

Mesmo assim, a MMX deverá utilizar dois sistemas diferentes para obter material.

Um deles coletará amostras a até cerca de dois centímetros de profundidade. Outro utilizará gás pressurizado para levantar partículas da superfície e direcioná-las para um recipiente.

Se tudo ocorrer como planejado, essas amostras chegarão à Terra por volta de 2031.

A análise poderá fornecer evidências físicas capazes de distinguir entre os principais cenários para a formação de Fobos.

Enquanto isso, o estudo da gravidade e da estrutura escondida sob Stickney pode antecipar parte dessa resposta.

A enorme cratera que quase parece grande demais para existir naquela pequena lua pode ser justamente a cicatriz que faltava para reconstruir uma história iniciada bilhões de anos atrás.

[Fonte: SD]

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