Em praticamente todos os países do mundo, as mulheres vivem mais do que os homens. A diferença aparece de forma consistente nas estatísticas e costuma ser atribuída a hábitos mais saudáveis ou à menor exposição a situações de risco. Embora esses fatores realmente influenciem, a ciência descobriu que a resposta é muito mais complexa e envolve genética, hormônios, evolução e até o funcionamento das células.
O segundo cromossomo X pode fazer mais diferença do que se imaginava

Os dados do Banco Mundial mostram um padrão que se repete em quase todo o planeta: a expectativa de vida feminina supera a masculina. Essa vantagem não pode ser explicada apenas por fatores sociais ou comportamentais.
Uma das principais respostas está no material genético. Mulheres possuem dois cromossomos X, enquanto homens têm um cromossomo X e um cromossomo Y. Essa diferença aparentemente simples oferece uma vantagem biológica importante.
Como as mulheres contam com duas cópias do cromossomo X, um gene alterado ou defeituoso em uma delas pode ser compensado pela outra. Nos homens, essa possibilidade praticamente não existe. Se um gene localizado no único cromossomo X apresentar uma alteração relevante, não há uma segunda cópia para desempenhar a mesma função.
Além disso, o cromossomo X concentra diversos genes ligados ao sistema imunológico. Isso ajuda a explicar por que, em média, as mulheres apresentam respostas mais eficientes contra diferentes infecções e determinadas doenças ao longo da vida.
Mas a genética não é a única responsável por essa diferença de longevidade.
Mitocôndrias e hormônios também influenciam o envelhecimento
Outro elemento importante está nas mitocôndrias, estruturas presentes dentro das células responsáveis pela produção de energia.
Essas pequenas “usinas” celulares são herdadas exclusivamente da mãe. Algumas pesquisas sugerem que esse padrão de herança pode favorecer um funcionamento mais eficiente do metabolismo feminino ao longo da vida, reduzindo parte do desgaste celular associado ao envelhecimento.
Ao mesmo tempo, os hormônios sexuais também exercem um papel significativo.
Os estrogênios, predominantes nas mulheres antes da menopausa, não participam apenas da regulação do sistema reprodutivo. Eles também ajudam a proteger o organismo contra processos inflamatórios e o estresse oxidativo, além de contribuir para manter a elasticidade dos vasos sanguíneos e favorecer níveis mais equilibrados de colesterol.
Esses efeitos ajudam a explicar por que doenças cardiovasculares costumam surgir mais tarde nas mulheres do que nos homens.
Já a testosterona, principal hormônio sexual masculino, desempenha funções essenciais no desenvolvimento muscular e ósseo. No entanto, níveis elevados também estão associados, em alguns estudos, a maior predisposição para doenças cardiovasculares precoces e a alterações no funcionamento do sistema imunológico ao longo do tempo.
Nenhum desses fatores, isoladamente, determina quanto uma pessoa viverá. Mas juntos, eles ajudam a construir um cenário biológico favorável à maior longevidade feminina.
A evolução reforça essa diferença entre machos e fêmeas
A vantagem feminina na expectativa de vida não é exclusiva dos seres humanos.
Um estudo publicado em 2025 analisou informações de 1.176 espécies e encontrou um padrão semelhante em diversos mamíferos. Em média, as fêmeas vivem cerca de 13% mais do que os machos.
Os pesquisadores associam esse resultado às estratégias evolutivas. Em muitas espécies, os machos enfrentam disputas frequentes por território e reprodução, sofrem mais lesões e gastam mais energia ao longo da vida, fatores que aceleram o desgaste do organismo.
Curiosamente, o cenário muda entre as aves. Nesses animais, os machos costumam viver aproximadamente 5% mais que as fêmeas. A explicação envolve diferenças na composição dos cromossomos sexuais e também no comportamento reprodutivo, já que em diversas espécies o cuidado com os filhotes é dividido ou recai principalmente sobre os machos.
Comportamento e estilo de vida continuam tendo peso
Apesar da forte influência da biologia, especialistas ressaltam que genética não determina sozinha a expectativa de vida.
Fatores comportamentais continuam exercendo enorme impacto. Em média, homens apresentam maior consumo de álcool, tabaco e outras substâncias associadas ao desenvolvimento de câncer, doenças respiratórias e problemas hepáticos.
Também existe maior tendência à adoção de comportamentos de risco, o que contribui para índices mais elevados de mortes em acidentes de trânsito, violência e outras causas externas.
Outro aspecto frequentemente observado é a relação com os cuidados médicos. As mulheres costumam procurar atendimento preventivo com mais frequência, facilitando o diagnóstico precoce de diversas doenças.
Já muitos homens adiam consultas e exames de rotina, chegando aos serviços de saúde quando o problema já está em estágio mais avançado, o que reduz as chances de tratamento bem-sucedido.
Pesquisas também apontam que mulheres tendem a construir redes sociais e de apoio emocional mais sólidas ao longo da vida. Esse fator está associado a melhor qualidade de vida na velhice e pode contribuir para aumentar a sobrevivência em idades mais avançadas.
No fim das contas, a maior longevidade feminina não depende de um único motivo. Ela resulta da combinação entre genética, funcionamento celular, hormônios, evolução biológica e escolhas feitas ao longo da vida. É justamente essa interação entre diversos fatores que explica por que a diferença continua aparecendo de forma consistente em praticamente todas as populações estudadas.
[Fonte: Xataka]