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Ciência

Um gigante da Antártida entra em colapso

Um dos icebergs mais antigos do planeta mudou de cor, acumulou lagos de água doce e entrou em colapso acelerado. Cientistas acompanham seus últimos dias a partir do espaço.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante quase quatro décadas, ele cruzou os mares como um colosso silencioso. Agora, imagens de satélite mostram que algo mudou drasticamente em sua superfície. Tons de azul intenso, rachaduras internas e grandes piscinas de água indicam que esse gigante de gelo pode estar vivendo seus momentos finais. O que está acontecendo com ele revela muito mais do que apenas o fim de um iceberg.

Um sobrevivente de outra era

Um gigante da Antártida entra em colapso
© https://x.com/LeonSimons8

O iceberg conhecido como A-23A se desprendeu da Antártida em 1986, quando ainda fazia parte da imensa Plataforma de Gelo Filchner. Na época, sua área ultrapassava 4.000 km² — maior que muitas capitais ao redor do mundo. Desde então, ele passou por décadas de deriva lenta, resistindo ao desgaste natural do oceano.

Por mais de 30 anos, ficou praticamente estacionado no mar de Weddell, preso por correntes e formações de gelo. Somente em 2020 ele conseguiu se soltar, iniciando uma jornada gradual rumo ao norte. A partir daí, começou a enfrentar águas mais quentes e condições menos favoráveis à sua sobrevivência.

Ao longo de 2025, o A-23A sofreu sucessivas quebras. No início de 2026, sua área já havia encolhido para cerca de 1.182 km² — menos de um terço do tamanho original. Mesmo assim, ainda figurava entre os maiores icebergs do planeta.

Agora, novas imagens da NASA indicam que o processo de deterioração entrou em uma fase crítica.

O azul que indica perigo

Um gigante da Antártida entra em colapso
© https://x.com/LeonSimons8

As fotografias captadas pelo satélite Terra mostram algo incomum: grandes áreas azuladas espalhadas pela superfície do iceberg. Longe de ser um fenômeno estético, essa coloração revela a presença de lagos de água de degelo acumulados sobre o gelo.

Essas piscinas se formam quando o calor derrete a camada superior do iceberg, criando depressões naturais onde a água se acumula. O problema é que essa água exerce peso sobre fissuras internas, forçando a abertura de rachaduras já existentes.

Segundo especialistas, esse processo acelera a fragmentação da estrutura. Quanto mais água se acumula, maior a pressão. Com isso, o gelo começa a se romper por dentro, enfraquecendo rapidamente.

Além disso, um fenômeno conhecido como “rampa-fosso” passou a se formar nas bordas do A-23A. À medida que o gelo derrete na linha d’água, suas extremidades se curvam para cima, criando uma espécie de barreira natural. O resultado? A água de degelo fica ainda mais retida sobre a superfície.

Marcas antigas, efeitos atuais

Um gigante da Antártida entra em colapso
© https://x.com/LeonSimons8

Outro detalhe chamou a atenção dos cientistas: padrões lineares em tons de azul e branco cruzando o iceberg. Essas faixas não são recentes. Elas se formaram há centenas de anos, quando o gelo ainda fazia parte de uma geleira que se movia lentamente sobre o solo rochoso da Antártida.

O atrito com a rocha criou sulcos e elevações no gelo, como cicatrizes do passado. Hoje, essas marcas funcionam como canais naturais que direcionam o fluxo da água de degelo.

Em vez de se espalhar de forma uniforme, a água segue esses “trilhos”, concentrando o desgaste em pontos específicos. Isso cria áreas de fragilidade estrutural e aumenta o risco de colapso.

Ou seja, a história geológica do iceberg está influenciando diretamente sua forma de morrer.

Vazamentos que anunciam o fim

As imagens de satélite também sugerem que o A-23A já começou a liberar água doce para o oceano. Uma área esbranquiçada próxima à sua lateral pode indicar um fenômeno conhecido como “blowout”.

Esse tipo de vazamento ocorre quando a pressão interna rompe uma parte do iceberg, fazendo com que a água acumulada seja expelida violentamente. Em alguns casos, a descarga despenca dezenas de metros até o mar.

Para os cientistas, esse é um dos sinais mais claros de que o iceberg entrou em sua fase final de desintegração. A estrutura não consegue mais conter o peso da própria água de degelo.

A partir desse ponto, o processo tende a se acelerar.

Um verão decisivo

O A-23A agora se encontra em águas próximas de 3 °C — relativamente quentes para padrões antárticos. Além disso, as correntes oceânicas o empurram para regiões conhecidas como um “cemitério de icebergs”, onde grandes blocos de gelo costumam se desfazer rapidamente.

Durante meses, ele girou em um vórtice oceânico antes de seguir para o norte, passando perto da ilha da Geórgia do Sul. Ao alcançar o oceano aberto, ficou mais exposto ao calor, às ondas e à ação constante da água salgada.

Os cientistas acreditam que ele dificilmente sobreviverá ao verão do hemisfério sul. O acúmulo de água, as rachaduras internas e o ambiente cada vez mais hostil indicam que sua fragmentação completa pode ocorrer em dias ou semanas.

Um fim esperado, mas simbólico

Embora o desaparecimento do A-23A fosse apenas uma questão de tempo, sua trajetória teve grande importância científica. Ao longo de quase 40 anos, ele ajudou pesquisadores a entender melhor o comportamento dos chamados “megabergs” — icebergs gigantes que se desprendem periodicamente da Antártida.

Seu percurso revelou como essas estruturas interagem com correntes oceânicas, como se fragmentam e quais fatores aceleram seu colapso.

Mesmo enquanto o A-23A se aproxima do fim, outros grandes icebergs continuam estacionados ou à deriva ao redor do continente antártico, aguardando o momento de iniciar jornadas semelhantes.

O ciclo continua — mas cada despedida traz novos dados e novas perguntas sobre o futuro do gelo no planeta.

[Fonte: G1 – Globo]

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