Na manhã do dia 1º de julho, um telescópio chileno detectou algo incomum no céu: um objeto em altíssima velocidade, vindo de fora do Sistema Solar. Em menos de 48 horas, a União Astronômica Internacional confirmou: estamos diante do terceiro visitante interestelar já observado pela ciência. Batizado de 3I/ATLAS, o corpo celeste pode ter mais de 7 bilhões de anos — e, segundo os astrônomos, já se sabe de onde ele veio.
A surpresa após o doutorado
Matthew Hopkins, recém-doutorado em Oxford e especialista em objetos interestelares, havia acabado de defender sua tese sobre o tema. Mas, no dia seguinte, seus conhecimentos se tornaram urgentemente relevantes. O telescópio ATLAS, no Chile, identificou o objeto, e logo o mundo astronômico estava mobilizado.
Segundo Hopkins, “foi emocionante poder aplicar, em tempo real, modelos que desenvolvi durante quatro anos de pesquisa”. E o objeto 3I/ATLAS já está rendendo insights importantes.
O maior e mais rápido até agora
3I/ATLAS é o maior e mais brilhante dos três objetos interestelares já observados — superando o famoso ‘Oumuamua (2017) e o cometa 2I/Borisov (2019). Ele foi visto se deslocando a mais de 221 mil km/h e pode chegar a medir de 10 a 30 quilômetros de diâmetro.
A boa notícia: não há risco de colisão com a Terra. O ponto de maior aproximação acontecerá no dia 30 de outubro, mas em uma distância segura.
Uma cor incomum — e pistas sobre a origem
As análises iniciais mostram que 3I/ATLAS é mais avermelhado do que cometas do Sistema Solar, lembrando objetos transnetunianos e centauros (corpos gelados localizados entre Júpiter e Netuno). Outro estudo fotométrico aponta que ele é mais azul do que os visitantes anteriores, mas ainda assim com características únicas.
Essas diferenças sugerem que ele pode ter se formado em condições muito diferentes das que conhecemos. E isso nos leva à pergunta central: de onde ele veio?
Um cometa ancestral vindo do disco espesso da Via Láctea
Hopkins e colegas utilizaram um modelo inovador, o Otautahi-Oxford, que combina dados da sonda Gaia da ESA com modelos químicos e dinâmicos da galáxia. A hipótese: 3I/ATLAS veio do disco espesso da Via Láctea, uma região onde residem estrelas mais antigas, formadas há mais de 7 bilhões de anos.
Chris Lintott, astrofísico da Universidade de Oxford e coautor do estudo, diz que “há 2 em 3 chances de o objeto ser mais velho que o Sistema Solar” — o que explicaria sua coloração e composição distintas.
Esses cometas antigos costumam ter mais água e compostos voláteis. Se isso se confirmar nas próximas semanas, reforçará a tese de que ele foi lançado ao espaço interestelar por um sistema planetário antigo, talvez ainda durante a formação de planetas em sua estrela original.
O que vem agora?
À medida que 3I/ATLAS se aproxima do Sol, os astrônomos observarão com atenção se ele libera gases — um sinal de atividade cometária. Isso indicaria a presença de gelo sob a superfície, típico de cometas ricos em água.
Essas observações permitirão testar se ele realmente veio do disco espesso da galáxia — um local que, até hoje, nunca havia “enviado” nenhum objeto diretamente até nós.
Um vislumbre de outros sistemas planetários
Objetos como 3I/ATLAS são fragmentos primordiais de outros sistemas solares, e estudá-los é uma forma direta de entender como planetas e cometas se formam em outras partes da galáxia.
Se os dados forem confirmados, este será o primeiro corpo interestelar conhecido originado no disco espesso da Via Láctea. Em outras palavras: um visitante antigo, vindo de um tempo anterior ao nosso próprio Sistema Solar.
A missão dos astrônomos agora é simples — e grandiosa: aprender o máximo possível antes que o visitante desapareça para sempre no espaço profundo.