Pular para o conteúdo
Ciência

Um novo visitante interestelar chega ao Sistema Solar — e os astrônomos acham que sabem de onde ele veio

Um objeto misterioso vindo de fora do Sistema Solar acaba de ser confirmado por astrônomos. Trata-se apenas do terceiro corpo interestelar já registrado pela humanidade — e sua origem pode estar entre as estrelas mais antigas da galáxia.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Na manhã do dia 1º de julho, um telescópio chileno detectou algo incomum no céu: um objeto em altíssima velocidade, vindo de fora do Sistema Solar. Em menos de 48 horas, a União Astronômica Internacional confirmou: estamos diante do terceiro visitante interestelar já observado pela ciência. Batizado de 3I/ATLAS, o corpo celeste pode ter mais de 7 bilhões de anos — e, segundo os astrônomos, já se sabe de onde ele veio.

 

A surpresa após o doutorado

Matthew Hopkins, recém-doutorado em Oxford e especialista em objetos interestelares, havia acabado de defender sua tese sobre o tema. Mas, no dia seguinte, seus conhecimentos se tornaram urgentemente relevantes. O telescópio ATLAS, no Chile, identificou o objeto, e logo o mundo astronômico estava mobilizado.

Segundo Hopkins, “foi emocionante poder aplicar, em tempo real, modelos que desenvolvi durante quatro anos de pesquisa”. E o objeto 3I/ATLAS já está rendendo insights importantes.

 

O maior e mais rápido até agora

3I/ATLAS é o maior e mais brilhante dos três objetos interestelares já observados — superando o famoso ‘Oumuamua (2017) e o cometa 2I/Borisov (2019). Ele foi visto se deslocando a mais de 221 mil km/h e pode chegar a medir de 10 a 30 quilômetros de diâmetro.

A boa notícia: não há risco de colisão com a Terra. O ponto de maior aproximação acontecerá no dia 30 de outubro, mas em uma distância segura.

 

Uma cor incomum — e pistas sobre a origem

As análises iniciais mostram que 3I/ATLAS é mais avermelhado do que cometas do Sistema Solar, lembrando objetos transnetunianos e centauros (corpos gelados localizados entre Júpiter e Netuno). Outro estudo fotométrico aponta que ele é mais azul do que os visitantes anteriores, mas ainda assim com características únicas.

Essas diferenças sugerem que ele pode ter se formado em condições muito diferentes das que conhecemos. E isso nos leva à pergunta central: de onde ele veio?

 

Um cometa ancestral vindo do disco espesso da Via Láctea

Hopkins e colegas utilizaram um modelo inovador, o Otautahi-Oxford, que combina dados da sonda Gaia da ESA com modelos químicos e dinâmicos da galáxia. A hipótese: 3I/ATLAS veio do disco espesso da Via Láctea, uma região onde residem estrelas mais antigas, formadas há mais de 7 bilhões de anos.

Chris Lintott, astrofísico da Universidade de Oxford e coautor do estudo, diz que “há 2 em 3 chances de o objeto ser mais velho que o Sistema Solar” — o que explicaria sua coloração e composição distintas.

Esses cometas antigos costumam ter mais água e compostos voláteis. Se isso se confirmar nas próximas semanas, reforçará a tese de que ele foi lançado ao espaço interestelar por um sistema planetário antigo, talvez ainda durante a formação de planetas em sua estrela original.

 

O que vem agora?

À medida que 3I/ATLAS se aproxima do Sol, os astrônomos observarão com atenção se ele libera gases — um sinal de atividade cometária. Isso indicaria a presença de gelo sob a superfície, típico de cometas ricos em água.

Essas observações permitirão testar se ele realmente veio do disco espesso da galáxia — um local que, até hoje, nunca havia “enviado” nenhum objeto diretamente até nós.

 

Um vislumbre de outros sistemas planetários

Objetos como 3I/ATLAS são fragmentos primordiais de outros sistemas solares, e estudá-los é uma forma direta de entender como planetas e cometas se formam em outras partes da galáxia.

Se os dados forem confirmados, este será o primeiro corpo interestelar conhecido originado no disco espesso da Via Láctea. Em outras palavras: um visitante antigo, vindo de um tempo anterior ao nosso próprio Sistema Solar.

A missão dos astrônomos agora é simples — e grandiosa: aprender o máximo possível antes que o visitante desapareça para sempre no espaço profundo.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados