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Ciência

Um papiro de 1900 anos revela um caso de fraude fiscal e falsificação na Roma antiga

Poderia ser um episódio de "Lei e Ordem" ao estilo de Roma.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em 2014, um pesquisador notou que o papiro grego mais extenso já encontrado no deserto da Judeia não era o que parecia. A recente tradução do documento revelou detalhes extraordinários de uma audiência judicial onde dois homens eram acusados de crimes, incluindo incitação à rebelião antes de uma grande revolta.

Pesquisadores da Áustria e de Israel traduziram o papiro grego mais longo já encontrado no deserto da Judeia. Ele havia sido desenterrado, identificado erroneamente e depois esquecido, até que Hannah Cotton Paltiel, da Universidade Hebraica de Jerusalém, o redescobriu em 2014. Agora, Paltiel e seus colegas traduziram o texto, que revelou anotações dos promotores em um julgamento na Roma antiga do século II d.C. O texto fornece informações únicas sobre o caso: fraude fiscal, falsificação, venda fraudulenta e libertação ilegal de pessoas escravizadas durante um período de tensão na província romana da Judeia.

“Ofereci-me voluntariamente para organizar papiros documentais no laboratório de rolos da Autoridade de Antiguidades de Israel e, quando vi um marcado como ‘nabateu’, exclamei: ‘Isto é grego para mim!’”, explicou Paltiel em declarações à Universidade de Jerusalém. Os nabateus eram um povo antigo que habitava o norte da Arábia e o sul do Levante já em 312 a.C. Os pesquisadores nomearam esse papiro como “P. Cotton”, em reconhecimento à sua redescoberta.

“É o caso mais bem documentado de um processo judicial em um tribunal romano na Judeia, além do julgamento de Jesus”, afirmou Avner Ecker, também coautor da pesquisa, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Judeia é outra forma de escrever Iudaea.

Detalhes do julgamento

O estudo, publicado em 20 de janeiro na revista Tyche, indica que o papiro contém mais de 133 linhas de texto, incluindo notas dos promotores e uma transcrição da audiência judicial diante de autoridades romanas. Há comentários dos promotores sobre as evidências apresentadas e como previam as refutações. Embora a identidade dos promotores seja desconhecida, os pesquisadores sugerem que eram funcionários da administração fiscal romana.

“Este papiro é extraordinário porque fornece informações sobre a preparação de um julgamento nesta parte do Império Romano”, afirmou Anna Dolganov, da Academia Austríaca de Ciências, que participou do estudo.

Os principais acusados de corrupção eram dois homens: Saulos e Gadalias. O primeiro foi acusado de coordenar a venda falsa e a emancipação de pessoas escravizadas sem pagar os impostos devidos. Seu colaborador, Gadalias, era filho de um tabelião conhecido por sua violência, falsificações, extorsão e incitação à rebelião (parece um sujeito amistoso). Ambos foram acusados de falsificar documentos.

“Segundo a lei romana, falsificação e fraude fiscal eram punidos severamente, incluindo trabalhos forçados e até pena de morte”, explicou Dolganov.

Além disso, Saulos e Gadalias foram acusados de atividades rebeldes durante a visita do imperador Adriano, por volta do ano 129 d.C. Curiosamente, a audiência judicial ocorreu um dia antes do início da Revolta de Bar Kokhba (132-136 d.C.), uma insurreição judaica contra o governo romano na Judeia. O texto menciona Tineius Rufus, governador da Judeia quando a revolta começou. O povo judeu já havia se rebelado contra o Império Romano entre 115 e 117 d.C. (na chamada Revolta da Diáspora Judaica).

“Não sabemos se eles realmente tiveram envolvimento com a revolta, mas há indícios de que a atmosfera estava carregada na época”, disse Dolganov. “E libertar pessoas escravizadas não parece ser um modelo de negócios muito lucrativo”, acrescentou Ecker. Não está claro quem eram as pessoas libertadas.

Embora jamais saibamos o destino final de Saulos e Gadalias, o papiro P. Cotton oferece uma rara e única visão dos processos jurídicos no Oriente Próximo romano de língua grega. Também captura a tensão do período entre revoltas e a frustração universal com os impostos, uma constante ao longo dos séculos.

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