Dormir mal afeta o humor, a disposição e a concentração, mas os impactos podem ir muito além do cansaço do dia seguinte. Um novo estudo sugere que um problema frequente durante o sono pode estar associado ao funcionamento do cérebro anos antes do aparecimento de doenças neurodegenerativas. Os resultados reforçam a importância do diagnóstico precoce e mostram que tratar essa condição pode ajudar a preservar a memória ao longo da vida.
O que o estudo descobriu sobre sono e memória
Pesquisadores da Monash University, na Austrália, analisaram a saúde de 2.795 adultos entre 40 e 70 anos que participam do Australian Healthy Brain Project. Todos eram considerados cognitivamente saudáveis no início da pesquisa.
Os resultados, publicados na revista científica Alzheimer’s & Dementia, revelaram que participantes com apneia obstrutiva do sono apresentavam desempenho inferior em testes de memória quando comparados àqueles que não sofriam com o distúrbio.
Além disso, esse grupo concentrava uma frequência maior de fatores conhecidos por aumentar o risco de demência, como obesidade, hipertensão arterial e níveis elevados de colesterol.
Entretanto, um detalhe chamou a atenção dos pesquisadores.
As alterações de memória apareceram principalmente entre pessoas que conviviam com a apneia sem receber tratamento adequado.
Já os participantes que tratavam regularmente o problema tiveram resultados cognitivos semelhantes aos de indivíduos que não apresentavam a doença.
Essa diferença sugere que controlar a apneia pode contribuir para preservar o funcionamento cerebral durante o envelhecimento.
Como a apneia interfere na saúde do cérebro

A apneia obstrutiva do sono provoca interrupções repetidas da respiração ao longo da noite.
Cada pausa reduz temporariamente a oxigenação do organismo e fragmenta o sono, mesmo que a pessoa nem sempre perceba esses despertares.
Com isso, o cérebro deixa de passar por etapas fundamentais para a consolidação da memória, recuperação das funções cognitivas e manutenção da saúde neuronal.
Entre os sintomas mais comuns estão roncos intensos, episódios de engasgo durante o sono, sonolência excessiva durante o dia, dificuldade de concentração e dores de cabeça ao acordar.
Segundo os pesquisadores, embora fatores cardiovasculares como pressão alta, colesterol elevado e excesso de peso contribuam para o risco de declínio cognitivo, eles não explicam completamente a associação encontrada entre apneia e pior desempenho da memória.
Isso indica que outros mecanismos biológicos ainda estão sendo investigados.
O tratamento pode fazer diferença
Os autores do estudo destacam que a apneia obstrutiva do sono é uma condição muito frequente e, ao mesmo tempo, bastante subdiagnosticada.
Muitas pessoas convivem durante anos com os sintomas sem procurar avaliação médica.
O principal exame utilizado para confirmar o diagnóstico é a polissonografia, realizada durante uma noite de sono para registrar diversos parâmetros fisiológicos, incluindo respiração, atividade cerebral e níveis de oxigênio.
O tratamento mais utilizado é o CPAP, aparelho que fornece pressão positiva contínua nas vias respiratórias para evitar o fechamento da garganta durante o sono.
Segundo o estudo, os participantes que utilizavam esse tratamento apresentaram desempenho cognitivo significativamente melhor do que aqueles que permaneciam sem tratamento.
Embora a pesquisa não prove uma relação direta de causa e efeito, os resultados sugerem que tratar precocemente a apneia pode representar uma estratégia importante para proteger o cérebro.
Hábitos saudáveis também ajudam a reduzir os riscos
Além do uso do CPAP quando indicado, especialistas recomendam mudanças no estilo de vida que podem melhorar a qualidade do sono e reduzir a gravidade da apneia.
Perder peso, limitar o consumo de bebidas alcoólicas, adotar horários regulares para dormir e praticar atividade física estão entre as principais orientações.
Em algumas situações, dispositivos orais ou procedimentos cirúrgicos também podem ser considerados, especialmente quando alterações anatômicas favorecem a obstrução das vias respiratórias.
Os pesquisadores pretendem agora investigar se o tratamento simultâneo da apneia e dos fatores de risco cardiovasculares pode reduzir as chances de desenvolvimento de demência ao longo dos anos.
Enquanto novas respostas não chegam, o estudo reforça uma mensagem importante: alterações persistentes no sono não devem ser encaradas como parte natural do envelhecimento. Identificar e tratar a apneia precocemente pode não apenas melhorar a qualidade de vida, mas também contribuir para preservar funções cognitivas essenciais, como a memória, por muito mais tempo.
[Fonte: Tiempo de San Juan]