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Ciência

Um telescópio da NASA vai mergulhar no coração da Via Láctea — e promete revelar como nascem planetas, estrelas e a própria galáxia

O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman está prestes a iniciar uma das investigações mais ambiciosas já feitas do centro da Via Láctea. Com observações contínuas e técnicas avançadas, a missão vai mapear centenas de milhões de estrelas, descobrir milhares de exoplanetas e ajudar a responder perguntas antigas sobre a origem e a evolução da nossa galáxia.
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Tempo de leitura: 3 minutos

No centro da Via Láctea existe uma região extrema: estrelas comprimidas em densidade recorde, campos gravitacionais intensos e um buraco negro supermassivo dominando o cenário. É ali que a NASA pretende apontar o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, em uma missão que promete transformar a astronomia galáctica. Ao longo de cinco anos, o observatório vai registrar variações de brilho, movimentos estelares e sinais de planetas em uma escala sem precedentes.

Um levantamento sem igual do núcleo galáctico

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© https://x.com/ScienceMagazine

Cerca de 75% da missão principal do Roman será dedicada a três grandes estudos, com destaque para o Galactic Bulge Time-Domain Survey. Esse programa vai observar diretamente o bojo galáctico — a região superpovoada de estrelas que envolve o centro da Via Láctea — em busca de pistas sobre formação estelar, evolução galáctica e sistemas planetários.

A estratégia é inédita: durante 438 dias distribuídos ao longo da missão, o telescópio revisará seis áreas específicas do núcleo galáctico a cada 12 minutos. Uma delas cobre o centro propriamente dito, enquanto as demais monitoram regiões vizinhas. Essa cadência permitirá construir o registro temporal mais detalhado já feito das mudanças de brilho e posição de centenas de milhões de estrelas.

Segundo Jessie Christiansen, do Caltech/IPAC e uma das líderes científicas do projeto, trata-se do levantamento contínuo mais preciso, mais rápido e mais longo já planejado para o bojo da Via Láctea — justamente onde está a maior concentração estelar da galáxia.

Microlentes gravitacionais e a caça a mundos invisíveis

Além do monitoramento contínuo, o Roman vai explorar com força total uma técnica pouco usada até hoje: a microlente gravitacional. O fenômeno ocorre quando a gravidade de uma estrela ou planeta curva o espaço ao seu redor, amplificando temporariamente a luz de um astro mais distante, como se fosse uma lupa cósmica.

Esse método é especialmente poderoso porque permite detectar planetas que não transitam na frente de suas estrelas e até objetos solitários, conhecidos como planetas errantes. Enquanto o método de trânsito já revelou mais de 4 mil exoplanetas, a microlente respondeu por pouco mais de 200 descobertas até agora.

Com a cobertura contínua do Roman, os cientistas esperam identificar mais de mil novos exoplanetas por microlente, multiplicando várias vezes o total atual. A missão poderá encontrar mundos com massas menores que Marte até gigantes semelhantes a Júpiter e Saturno, incluindo planetas em órbitas distantes e fora do alcance das técnicas tradicionais.

Um laboratório para entender estrelas, buracos negros e a história da galáxia

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O volume de dados também abrirá portas para muito além dos exoplanetas. O levantamento vai permitir estudar estrelas gigantes vermelhas, sistemas binários eclipsantes, remanescentes estelares e buracos negros de massa estelar.

Dan Huber, da Universidade do Havaí e copresidente do estudo, destaca que um conjunto de observações com alta precisão e alta frequência cria oportunidades para uma diversidade enorme de pesquisas. Entre elas, medir a idade das estrelas do bojo galáctico e relacioná-las à história de formação da Via Láctea.

Essas informações ajudarão a montar um censo detalhado da população estelar do centro galáctico, oferecendo pistas sobre quando diferentes gerações de estrelas surgiram e como a galáxia construiu sua estrutura atual.

Dados abertos e uma nova era de descobertas colaborativas

A cada 12 minutos, centenas de milhões de estrelas serão monitoradas automaticamente. O processamento ficará a cargo do Centro de Apoio Científico Roman, no Caltech/IPAC, que identificará variações de brilho, eventos de microlente e sinais de objetos em trânsito.

Os dados serão disponibilizados publicamente pouco depois do processamento inicial, incentivando descobertas colaborativas em todo o mundo. Além do estudo do bojo galáctico, as observações também alimentarão outros grandes programas do Roman, como levantamentos de alta latitude voltados ao estudo da matéria escura e da energia escura.

O lançamento da missão está previsto para maio de 2027, com possibilidade de antecipação para o fim de 2026, dependendo do andamento técnico. Para Christiansen, o impacto será profundo: pela primeira vez, será possível situar a Terra e o Sistema Solar dentro do panorama completo da população de exoplanetas da Via Láctea.

Ao observar continuamente uma das regiões mais complexas do céu, o Nancy Grace Roman promete preencher lacunas históricas da astronomia — e transformar o centro da nossa galáxia em um dos campos mais férteis de descoberta científica das próximas décadas.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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