Um sinal que desafia tudo o que se conhecia
Batizado de GLEAM-X J0704-37, o pulso de rádio aparece rigorosamente a cada 174 minutos. Isso o coloca como o recordista entre os chamados transientes de rádio de longo período — sinais raros que piscam no céu em intervalos muito maiores do que os pulsares tradicionais.
O fenômeno foi descrito em um estudo publicado no The Astrophysical Journal Letters por uma equipe liderada pela astrônoma Natasha Hurley-Walker, do Centro Internacional de Pesquisa em Radioastronomia (ICRAR). E ele não é apenas curioso: pode ser a primeira pista concreta sobre a origem desse tipo específico de emissão cósmica.
Por que a borda da Via Láctea muda tudo

Até agora, todos os sinais semelhantes haviam sido detectados na direção do centro da Via Láctea — uma região extremamente densa, cheia de estrelas, poeira e ruído astronômico. Isso tornava quase impossível identificar exatamente quem estava “emitindo” o sinal.
O GLEAM-X J0704-37 é diferente. Ele vem da constelação de Puppis, a cerca de 5 mil anos-luz de distância, numa área periférica da galáxia. Menos estrelas, menos confusão. Resultado: pela primeira vez, os cientistas conseguiram apontar um suspeito muito convincente.
Um sistema estelar improvável entra em cena
Usando o radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul, e o Telescópio de Pesquisa Astrofísica do Sul, no Chile, a equipe identificou um sistema binário exatamente na região do sinal.
Ele é formado por uma anã vermelha — estrelas pequenas e frias que representam cerca de 70% de todas as estrelas da Via Láctea — e uma anã branca, o núcleo remanescente de uma estrela como o Sol. Separadas por uma distância pequena, elas interagem magneticamente.
Sozinha, a anã vermelha jamais teria energia para gerar um pulso desses. Mas a presença da anã branca muda tudo. A interação entre os campos magnéticos das duas cria as condições ideais para produzir emissões de rádio intensas e regulares, como esse “batimento cardíaco” galáctico.
A peça-chave veio de um estudante
A descoberta só foi possível porque alguém resolveu olhar para os dados antigos de um jeito novo. Esse alguém foi Csanád Horváth, estudante universitário que desenvolveu os algoritmos capazes de vasculhar o gigantesco arquivo do Murchison Widefield Array (MWA), na Austrália.
O MWA acumula mais de 55 mil terabytes de dados desde o início da década de 2010. É um verdadeiro tesouro científico — e, até agora, subexplorado. Foi ali que Horváth encontrou a assinatura clara do GLEAM-X J0704-37, enterrada entre anos de observações.
Um alerta: pode haver muito mais escondido por aí
Para os astrônomos, essa descoberta é só o começo. Se um sinal tão marcante passou despercebido por tanto tempo, quantos outros ainda estão escondidos em arquivos semelhantes?
Novas observações direcionadas devem confirmar definitivamente a origem do pulso e ajudar a entender se esse tipo de sistema estelar é mais comum do que se imaginava. Se for, a radioastronomia pode estar prestes a entrar em uma nova fase — não olhando apenas para o céu em tempo real, mas revisitando o passado com ferramentas mais inteligentes.
Às vezes, as maiores descobertas não vêm de novos telescópios, mas de novas perguntas feitas aos dados que já temos.
[Fonte: Xataka]