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Ciência

Um pulso misterioso da Via Láctea pode inaugurar nova era da radioastronomia

A cada quase três horas, algo estranho acontece no céu. Um pulso de rádio vindo da borda da Via Láctea atinge a Terra por até um minuto — de forma precisa, repetitiva e intrigante. O mais curioso: esse sinal ficou “escondido” por anos em dados de arquivo e só foi descoberto graças à combinação de pesquisadores experientes e a genialidade de um estudante universitário. Agora, ele pode ajudar a resolver um mistério antigo da astronomia.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um sinal que desafia tudo o que se conhecia

Batizado de GLEAM-X J0704-37, o pulso de rádio aparece rigorosamente a cada 174 minutos. Isso o coloca como o recordista entre os chamados transientes de rádio de longo período — sinais raros que piscam no céu em intervalos muito maiores do que os pulsares tradicionais.

O fenômeno foi descrito em um estudo publicado no The Astrophysical Journal Letters por uma equipe liderada pela astrônoma Natasha Hurley-Walker, do Centro Internacional de Pesquisa em Radioastronomia (ICRAR). E ele não é apenas curioso: pode ser a primeira pista concreta sobre a origem desse tipo específico de emissão cósmica.

Por que a borda da Via Láctea muda tudo

Um pulso misterioso da Via Láctea pode inaugurar nova era da radioastronomia
© https://x.com/salvaratos_/

Até agora, todos os sinais semelhantes haviam sido detectados na direção do centro da Via Láctea — uma região extremamente densa, cheia de estrelas, poeira e ruído astronômico. Isso tornava quase impossível identificar exatamente quem estava “emitindo” o sinal.

O GLEAM-X J0704-37 é diferente. Ele vem da constelação de Puppis, a cerca de 5 mil anos-luz de distância, numa área periférica da galáxia. Menos estrelas, menos confusão. Resultado: pela primeira vez, os cientistas conseguiram apontar um suspeito muito convincente.

Um sistema estelar improvável entra em cena

Usando o radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul, e o Telescópio de Pesquisa Astrofísica do Sul, no Chile, a equipe identificou um sistema binário exatamente na região do sinal.

Ele é formado por uma anã vermelha — estrelas pequenas e frias que representam cerca de 70% de todas as estrelas da Via Láctea — e uma anã branca, o núcleo remanescente de uma estrela como o Sol. Separadas por uma distância pequena, elas interagem magneticamente.

Sozinha, a anã vermelha jamais teria energia para gerar um pulso desses. Mas a presença da anã branca muda tudo. A interação entre os campos magnéticos das duas cria as condições ideais para produzir emissões de rádio intensas e regulares, como esse “batimento cardíaco” galáctico.

A peça-chave veio de um estudante

A descoberta só foi possível porque alguém resolveu olhar para os dados antigos de um jeito novo. Esse alguém foi Csanád Horváth, estudante universitário que desenvolveu os algoritmos capazes de vasculhar o gigantesco arquivo do Murchison Widefield Array (MWA), na Austrália.

O MWA acumula mais de 55 mil terabytes de dados desde o início da década de 2010. É um verdadeiro tesouro científico — e, até agora, subexplorado. Foi ali que Horváth encontrou a assinatura clara do GLEAM-X J0704-37, enterrada entre anos de observações.

Um alerta: pode haver muito mais escondido por aí

Para os astrônomos, essa descoberta é só o começo. Se um sinal tão marcante passou despercebido por tanto tempo, quantos outros ainda estão escondidos em arquivos semelhantes?

Novas observações direcionadas devem confirmar definitivamente a origem do pulso e ajudar a entender se esse tipo de sistema estelar é mais comum do que se imaginava. Se for, a radioastronomia pode estar prestes a entrar em uma nova fase — não olhando apenas para o céu em tempo real, mas revisitando o passado com ferramentas mais inteligentes.

Às vezes, as maiores descobertas não vêm de novos telescópios, mas de novas perguntas feitas aos dados que já temos.

[Fonte: Xataka]

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