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Ciência

Um transplante de células-tronco permitiu a um paciente interromper o tratamento contra o HIV — e reacende a esperança de eliminar o vírus do organismo

Um caso recente descrito por cientistas europeus mostra que um homem com HIV conseguiu ficar sem medicamentos após um transplante de células-tronco do irmão. Embora não seja uma solução aplicável em larga escala, o resultado abre novas pistas sobre como o vírus pode ser eliminado do corpo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, o HIV deixou de ser uma sentença de morte para se tornar uma condição crônica controlável. Ainda assim, a cura definitiva segue sendo um dos maiores desafios da medicina. Agora, um novo caso publicado na revista Nature Microbiology volta a alimentar essa possibilidade — ainda que com muitas limitações.

Um caso raro que chamou atenção da comunidade científica

Coração Das Células
© FreePik

Um homem de 63 anos conseguiu interromper o uso de medicamentos antirretrovirais após receber, em 2020, um transplante de células-tronco do próprio irmão. O procedimento não foi feito para tratar o HIV diretamente, mas sim uma doença da medula óssea chamada síndrome mielodisplásica.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Hospital Universitário de Oslo, em colaboração com instituições da Suécia, Dinamarca e Espanha, incluindo a Universidade de Aarhus e centros de pesquisa como o Instituto de Investigación Germans Trias i Pujol.

O diferencial do caso está no doador: o irmão possuía uma mutação genética rara, conhecida como CCR5Δ32/Δ32, que impede o vírus de entrar nas células.

Como o vírus desapareceu

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© Pexels

Após o transplante, o sistema imunológico do paciente foi progressivamente substituído pelas células do doador. Com isso, as novas células passaram a ser resistentes ao HIV.

Dois anos depois do procedimento, os médicos decidiram suspender o tratamento antirretroviral para avaliar se o vírus voltaria. O paciente foi monitorado de forma rigorosa, com exames de sangue e análises de tecidos, incluindo o intestino — um dos principais reservatórios do HIV no corpo.

Os resultados foram surpreendentes: não foi detectado material genético do vírus em nenhuma das amostras analisadas. Além disso, os níveis de anticorpos contra o HIV diminuíram ao longo do tempo, indicando ausência de atividade viral.

Os cientistas chegaram a examinar mais de 65 milhões de células imunológicas sem encontrar vírus capazes de se replicar.

O grande desafio: eliminar os reservatórios do HIV

Mesmo com tratamentos eficazes, o HIV consegue “se esconder” em reservatórios celulares espalhados pelo organismo. Esses reservatórios são o principal obstáculo para a cura, já que o vírus pode voltar a se multiplicar se a medicação for interrompida.

Casos como esse são extremamente raros. Antes dele, apenas alguns pacientes — conhecidos como “paciente de Berlim” e “paciente de Londres” — haviam apresentado remissão semelhante após transplantes com a mesma mutação genética.

O novo estudo traz um avanço importante: ele analisou com mais profundidade tecidos difíceis de estudar, como o intestino, ajudando a entender melhor como o vírus pode desaparecer completamente do corpo.

Por que essa técnica não é uma solução para todos

Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores são cautelosos. O transplante de células-tronco é um procedimento complexo, arriscado e reservado para pacientes com doenças graves, como cânceres hematológicos.

Além disso, encontrar um doador compatível com a mutação CCR5Δ32/Δ32 é extremamente raro.

Especialistas, como a pesquisadora Natalia Laufer, do CONICET, destacam que esse tipo de abordagem não pode ser aplicado em larga escala. Segundo ela, o caso segue a mesma lógica de outros já documentados e não representa uma solução viável para a maioria das pessoas que vivem com HIV.

Um caminho para o futuro

Embora não seja uma cura acessível, o caso reforça uma ideia fundamental: eliminar o HIV do organismo é possível.

Os cientistas agora buscam entender quais mecanismos permitiram essa remissão prolongada. O objetivo é identificar estratégias que possam ser replicadas de forma mais segura e ampla, sem a necessidade de um transplante tão agressivo.

Também será necessário acompanhar o paciente por mais tempo para confirmar se se trata de uma cura definitiva ou apenas uma remissão duradoura.

Entre esperança e cautela

O estudo representa mais um passo importante na longa busca pela cura do HIV. Ele não muda a prática clínica atual, mas amplia o conhecimento sobre como o vírus pode ser combatido em nível profundo.

A mensagem da comunidade científica é clara: ainda não estamos diante de uma solução universal, mas cada novo caso como esse aproxima a medicina de um objetivo que, por muito tempo, parecia impossível.

 

[ Fonte: Infobae ]

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