Durante séculos, o subsolo da região da Cornualha impulsionou a economia britânica graças à mineração de estanho e cobre. Agora, esse mesmo território volta a atrair atenção por um motivo completamente diferente. Em vez de buscar metais tradicionais, engenheiros encontraram uma forma de aproveitar o calor natural da Terra para gerar energia limpa e, ao mesmo tempo, recuperar um dos minerais mais disputados da atualidade.
Uma antiga região mineradora pode voltar a desempenhar um papel estratégico
A Cornualha, no sudoeste do Reino Unido, foi durante muito tempo um dos principais polos de mineração do país. Com o encerramento de diversas minas ao longo do século XX, a região perdeu parte de sua importância econômica. Hoje, porém, um novo projeto está devolvendo protagonismo ao local, desta vez utilizando um recurso que permaneceu escondido durante milhões de anos.
A usina United Downs iniciou, em fevereiro de 2026, o fornecimento da primeira eletricidade geotérmica profunda produzida comercialmente no Reino Unido. O empreendimento, desenvolvido pela empresa Geothermal Engineering Ltd (GEL), foi resultado de quase duas décadas de pesquisas, perfurações e investimentos.
O sistema funciona por meio de dois poços que alcançam mais de cinco quilômetros de profundidade, atravessando formações de granito naturalmente aquecidas pelo interior do planeta. A água mineralizada retorna à superfície com temperaturas superiores a 190 °C, estabelecendo um novo recorde para projetos geotérmicos britânicos.
Esse calor é transferido para um circuito responsável pela geração de eletricidade. Após liberar sua energia térmica, a água resfriada é reinjetada no subsolo por um segundo poço, onde volta a aquecer naturalmente antes de reiniciar todo o processo. Como o fluido permanece circulando em um sistema fechado, praticamente não há consumo contínuo de água, diferentemente do que ocorre em diversas atividades industriais.
A empresa firmou um contrato para fornecer pelo menos 3 megawatts de energia de forma contínua, quantidade suficiente, segundo suas estimativas, para abastecer aproximadamente 10 mil residências. Diferentemente das usinas solares e eólicas, a geração geotérmica permanece constante durante as 24 horas do dia, independentemente das condições climáticas.
O maior diferencial aparece depois da geração de energia
O aspecto mais inovador da planta surge quando a água já cumpriu sua função na produção de eletricidade. Após reduzir sua temperatura para cerca de 50 °C, o fluido segue para uma segunda etapa do processo, onde passa por um sistema de extração direta de lítio.
Em vez de depender de grandes minas a céu aberto ou de enormes tanques de evaporação utilizados em alguns métodos convencionais, essa tecnologia separa seletivamente o lítio dissolvido utilizando processos químicos específicos, como adsorção, troca iônica e extração por solventes. Depois disso, a água retorna novamente ao reservatório subterrâneo.
Segundo a GEL, a concentração de lítio presente no fluido geotérmico supera 340 partes por milhão em equivalente de carbonato de lítio. A capacidade inicial da instalação é de aproximadamente 100 toneladas anuais, mas a empresa pretende ampliar significativamente essa produção ao longo da próxima década, alcançando mais de 18 mil toneladas por ano. De acordo com os cálculos apresentados pelo projeto, esse volume seria suficiente para fornecer matéria-prima para cerca de 250 mil baterias de veículos elétricos.
Apesar do enorme potencial, especialistas lembram que a extração direta de lítio ainda é uma tecnologia relativamente recente. Seu sucesso dependerá da durabilidade dos equipamentos, da eficiência dos materiais utilizados, da estabilidade da concentração de lítio e da capacidade de manter a operação economicamente viável durante muitos anos.
Além disso, as perfurações profundas continuam sendo uma das etapas mais caras e complexas desses empreendimentos, representando um desafio financeiro importante para futuras expansões.
Mesmo assim, o projeto oferece uma demonstração concreta de como uma única infraestrutura pode produzir energia renovável continuamente e, ao mesmo tempo, fornecer um mineral estratégico para a indústria de baterias. A resposta para o título está justamente nessa combinação: o Reino Unido encontrou uma riqueza escondida sob seus pés porque consegue transformar o calor natural da Terra em eletricidade enquanto recupera lítio de forma potencialmente mais sustentável do que diversos métodos tradicionais.