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Uma autora de “livros de IA” resolveu se revelar — e explicou como transforma romances gerados por algoritmos em um negócio lucrativo

Sob o pseudônimo de Coral Hart, uma escritora baseada na África do Sul contou ao New York Times como usa inteligência artificial para produzir centenas de romances em tempo recorde e vendê-los na Amazon sem avisar os leitores. Ao expor seus métodos, ela reacendeu o debate sobre ética, transparência e o futuro da escrita na era da IA.

Durante anos, a explosão de livros produzidos por inteligência artificial foi atribuída a autores anônimos e operações difíceis de rastrear. Agora, uma dessas pessoas decidiu sair parcialmente das sombras. Em uma reportagem reveladora, uma escritora conhecida como Coral Hart descreveu, sem rodeios, como consegue gerar romances inteiros em poucas horas usando IA — e viver disso.

Quem é Coral Hart e por que ela resolveu falar

“Se eu consigo gerar um livro em um dia e você precisa de seis meses, quem ganha a corrida?” A frase resume a lógica de Coral Hart, pseudônimo de uma escritora que vive na Cidade do Cabo, na África do Sul, e que concedeu uma entrevista ao The New York Times sob condição de anonimato quanto ao seu nome real.

Segundo a reportagem, Hart já publicou mais de 200 romances, principalmente do gênero romântico, vendidos na Amazon. Nenhum deles informa ao leitor que o texto foi gerado com apoio de modelos de inteligência artificial como Claude e Grok. Ainda assim, ela afirma ter faturado valores de seis dígitos com cerca de 50 mil vendas.

Anonimato relativo e um rosto público

Embora tenha pedido anonimato ao jornal, Hart autorizou a publicação de uma foto sua, sorridente, algo que levantou questionamentos óbvios: até que ponto esse anonimato se sustenta? A justificativa apresentada é pragmática. Ela atua como coach e mantém vínculos profissionais com o setor editorial usando seu nome verdadeiro, e teme que a associação direta com IA prejudique esse trabalho.

Ao mesmo tempo, Hart não se esconde completamente. Ela comercializa cursos e mentorias ensinando outras pessoas a replicar seu método de produção em massa, usando o nome “Hart” como marca.

Livros em menos de uma hora

Durante uma conversa por Zoom com a jornalista Alexandra Alter, do Times, Hart demonstrou seu processo: um sistema de IA gerou um romance completo em cerca de 45 minutos, a partir de instruções e um esboço básico. Segundo a reportagem, ela também está desenvolvendo um software próprio capaz de gerar um livro quase pronto em menos de uma hora, mediante assinatura mensal.

Esse sistema faz parte de seu negócio educacional, chamado PlotProse. O site promete romances “90% completos e prontos para publicação”, além de programas de mentoria que custam centenas de dólares e ensinam a criar um catálogo de livros em escala industrial.

Escalar conteúdo, não criatividade

O discurso de Hart é claro: a estratégia não é escrever melhor, mas publicar mais. Em entrevistas e vídeos, ela explica que testou dezenas de pseudônimos ao mesmo tempo, apostando no volume em vez de investir pesado em publicidade.

Em uma participação no podcast Brave New Bookshelf, ela chega a se referir a si mesma no plural, como se fosse uma equipe inteira. “Quando digo ‘nós’, sou eu e minhas personalidades de nomes fictícios”, brincou, antes de admitir que todo o processo é conduzido por ela, com ajuda da IA.

Por que não avisar os leitores?

Hart afirma que não revela o uso de inteligência artificial porque ainda existe um forte estigma em torno da tecnologia. Para ela, a qualidade do produto final deveria importar mais do que o processo de criação. Essa posição, no entanto, é justamente o que mais incomoda críticos, que veem a prática como enganosa, mesmo que tecnicamente permitida pelas plataformas.

Muito esforço para pouco dinheiro?

Um detalhe curioso é que, apesar do faturamento considerável, o modelo de Hart não parece buscar ganhos exorbitantes. Produzir, revisar minimamente, subir e gerenciar centenas de livros ainda exige tempo e atenção constantes. Para alguns observadores, trata-se de um caso peculiar de alguém que não quer enriquecer rapidamente, mas sim garantir uma renda estável “girando a manivela” de uma enorme máquina de texto.

Um sintoma do futuro editorial

O caso de Coral Hart não é apenas uma curiosidade. Ele escancara uma transformação profunda no mercado editorial digital, onde plataformas de autopublicação, algoritmos de recomendação e modelos de IA tornam possível produzir conteúdo em escala sem precedentes.

Se isso representa democratização da escrita, degradação cultural ou apenas mais uma etapa da automação criativa, ainda é cedo para dizer. Mas uma coisa já ficou clara: a pergunta deixou de ser se a IA vai mudar a literatura — e passou a ser quanto e quão rápido isso vai acontecer.

 

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