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Uma execução marcada para 30 de setembro reacende um dos casos mais controversos do Tennessee

Condenada por um assassinato que chocou os Estados Unidos, uma mulher pode protagonizar um episódio raríssimo após três décadas de recursos, controvérsias e pedidos de clemência.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Mais de três décadas se passaram desde um crime que abalou o Tennessee e ganhou repercussão por sua extrema violência. Agora, o caso voltou ao centro das atenções por uma circunstância extraordinária. De um lado está a família da vítima, que espera pelo cumprimento da sentença. Do outro, advogados apontam para a idade da condenada na época, sua infância marcada por abusos e diagnósticos posteriores para tentar impedir o desfecho.

Um assassinato que chocou o Tennessee

Christa Pike tem hoje 50 anos, mas tinha apenas 18 quando participou de um dos crimes mais conhecidos da história recente de Knoxville, no Tennessee. Em janeiro de 1995, ela e seu então namorado, Tadaryl Shipp, atacaram Colleen Slemmer, de 19 anos.

As jovens haviam se conhecido em um programa de formação profissional destinado a adolescentes que enfrentavam dificuldades. Segundo o processo, Pike acreditava que Colleen a havia insultado e tentava conquistar seu namorado.

O confronto terminou de forma brutal. Colleen foi espancada, torturada e assassinada. O caso provocou ainda mais comoção quando seu corpo foi encontrado com um pentagrama gravado no peito.

Testemunhas disseram posteriormente que Pike havia falado sobre o assassinato antes e depois de cometê-lo. Segundo depoimentos apresentados no processo, ela chegou a mostrar a outras pessoas um fragmento do crânio da vítima.

Em 1996, Pike foi condenada à morte. Shipp, que tinha 17 anos na época do crime, recebeu prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional.

Trinta anos depois, a diferença entre as sentenças e a idade dos envolvidos voltaria ao centro de uma longa disputa judicial.

Uma execução que pode entrar para a história

Depois de décadas de recursos, a execução de Pike foi marcada para 30 de setembro por meio de injeção letal. Caso seja realizada, ela será a primeira mulher executada pelo Tennessee em mais de 200 anos.

O episódio também chama atenção pelo contexto nacional. Desde a retomada da pena capital nos Estados Unidos na década de 1970, apenas 18 mulheres foram executadas, diante de mais de 1.600 homens.

A defesa apresentou um pedido de clemência de 226 páginas para tentar substituir a pena de morte por prisão perpétua. Especialistas em direitos humanos das Nações Unidas também solicitaram que a execução fosse interrompida.

O governador do Tennessee, Bill Lee, entretanto, decidiu não intervir. Após analisar o pedido, afirmou que manteria a sentença determinada pelo estado.

Os advogados recorreram então à Suprema Corte dos Estados Unidos em busca de uma suspensão de última hora. A Suprema Corte do Tennessee já havia rejeitado uma tentativa de impedir a execução.

A discussão, porém, não envolve apenas o crime cometido por Pike. Parte importante da batalha jurídica passou a se concentrar no que aconteceu muito antes daquela noite de 1995.

Uma infância marcada por violência que voltou ao centro do caso

Documentos e avaliações psicológicas apontam que Pike cresceu em um ambiente de negligência, abandono e violência.

Uma avaliação realizada pela psicóloga forense Diana McCoy concluiu que ela sofreu abusos físicos e sexuais durante a infância e adolescência. Segundo os registros apresentados posteriormente, Pike teria sido vítima de diferentes homens ligados à sua família e relatou episódios de estupro aos 11 e aos 17 anos.

A defesa atual argumenta que informações importantes sobre esse histórico não foram apresentadas adequadamente ao júri responsável pela condenação.

Em 2021, Pike recebeu diagnóstico de transtorno bipolar na prisão e passou a receber medicação. Outra psicóloga que a avaliou em 2023 também apontou transtorno de estresse pós-traumático e afirmou que os traumas acumulados teriam influenciado sua capacidade de controlar as emoções.

Os tribunais, contudo, não aceitaram que essas informações fossem suficientes para alterar a sentença. Uma corte federal de apelações considerou que o júri já havia recebido informações sobre a infância difícil de Pike e concluiu que as novas evidências provavelmente não modificariam o resultado do julgamento.

A família de Colleen espera por um encerramento

Para May Martínez, mãe de Colleen Slemmer, a longa discussão jurídica não muda o ponto central: sua filha foi brutalmente assassinada e a sentença deve ser cumprida.

Martínez afirma pensar diariamente na filha e espera que a execução finalmente encerre um processo que atravessou três décadas. Um grupo dedicado aos direitos das vítimas chegou a arrecadar recursos para ajudá-la a viajar ao Tennessee e acompanhar o procedimento.

Do outro lado está Ashlee Sellars, amiga de Pike, que a conheceu quando também estava presa. Hoje defensora de reformas no sistema de Justiça, Sellars descreve uma mulher muito diferente daquela retratada nos relatos do assassinato.

Segundo ela, Pike pediu que seus amigos não acompanhem presencialmente sua execução porque não quer submetê-los à experiência.

Pike também solicitou que, no dia marcado, seja atendida exclusivamente por mulheres. Ela argumenta que ser imobilizada por homens poderia intensificar traumas relacionados aos abusos que sofreu. O Tennessee indicou que pretende utilizar agentes mulheres em parte do procedimento, mas não garantiu que toda a equipe será feminina.

Enquanto os últimos recursos avançam, o caso mantém frente a frente duas questões difíceis de separar: a violência sofrida por Colleen Slemmer e a discussão sobre como idade, trauma e representação jurídica devem ser considerados na aplicação da pena de morte.

[Fonte: bbc]

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