Durante décadas, a fibra óptica foi uma das principais apostas para transportar grandes quantidades de informação com velocidade e estabilidade. Mas uma nova geração de redes pode exigir algo ainda mais sofisticado: preservar estados quânticos enquanto eles atravessam grandes distâncias. Agora, pesquisadores fizeram uma demonstração que aponta para uma alternativa curiosa, especialmente para cidades onde instalar novos cabos é caro, demorado e complicado.
O experimento que levou a informação para o ar
Pesquisadores do Laboratório Nacional de Brookhaven e da Universidade Stony Brook conseguiram distribuir sinais quânticos por aproximadamente 21 quilômetros, utilizando um enlace óptico em espaço aberto, sem uma fibra conectando diretamente os dois pontos.
O resultado chama atenção porque construir uma futura internet quântica envolve um desafio diferente daquele enfrentado pelas redes tradicionais. Não basta transportar luz: é necessário preservar propriedades extremamente delicadas dos estados quânticos durante o percurso.
Nesse experimento, os pesquisadores trabalharam com fótons entrelaçados, partículas que podem apresentar correlações quânticas mesmo quando estão separadas fisicamente. Manter essas propriedades intactas durante uma transmissão de longa distância é uma das grandes dificuldades para transformar conceitos de laboratório em redes reais.
A demonstração em uma distância de cerca de 21 quilômetros mostra que o espaço livre pode ser utilizado como parte dessa infraestrutura. Em vez de depender exclusivamente de cabos, determinados pontos de uma futura rede poderiam se comunicar por enlaces ópticos instalados em locais elevados e com visibilidade direta.
The nation’s longest quantum network is one step closer to becoming wireless.
Researchers at Brookhaven Lab and @stonybrooku have successfully transmitted light particles containing quantum information through open air between the two institutions. https://t.co/Wp3pZyPJzM
— Brookhaven Lab (@BrookhavenLab) August 21, 2026
Tirar a fibra do caminho não elimina os obstáculos
A transmissão pelo ar, porém, não transforma o problema em algo simples. A atmosfera é extremamente dinâmica e pode interferir no comportamento da luz. Temperatura, umidade, partículas suspensas e turbulência podem alterar a trajetória do feixe, reduzir sua intensidade ou dificultar que ele alcance exatamente o receptor.
Em uma área urbana, a situação fica ainda mais complicada. Edifícios, fontes de calor e mudanças constantes nas condições atmosféricas podem afetar um enlace óptico. Por isso, demonstrar que os sinais conseguem percorrer a distância não significa que já exista uma rede quântica pronta para uso cotidiano.
Ainda assim, a tecnologia pode abrir possibilidades importantes. Uma das aplicações mais promissoras está na distribuição quântica de chaves, conhecida como QKD, que utiliza propriedades da física quântica para criar mecanismos de comunicação capazes de revelar determinadas tentativas de interceptação.
No futuro, enlaces desse tipo poderiam ajudar a conectar universidades, centros de pesquisa, instituições governamentais, bancos e outros locais que precisam proteger informações especialmente sensíveis.
O próximo passo pode ser muito maior
Existe ainda uma possibilidade mais ambiciosa: usar redes quânticas para conectar computadores quânticos fisicamente separados. Em vez de concentrar toda a capacidade em uma única máquina, diferentes processadores poderiam compartilhar estados quânticos e trabalhar de forma distribuída.
Para chegar a esse cenário, entretanto, será necessário muito mais do que um enlace de 21 quilômetros. Os sistemas precisam funcionar de maneira confiável em condições climáticas variadas, manter o alinhamento entre transmissores e receptores e operar com vários nós simultaneamente.
A fibra óptica também continuará desempenhando um papel importante. Uma futura infraestrutura provavelmente combinará fibra, enlaces ópticos pelo ar e até conexões via satélite, escolhendo a tecnologia mais adequada para cada distância e ambiente.
O experimento realizado na região de Nova York não significa, portanto, que os cabos estejam com os dias contados. A verdadeira novidade é outra: ele mostra que o ar pode se tornar mais uma estrada para a informação quântica, inclusive dentro de grandes cidades. Se a tecnologia conseguir ganhar estabilidade e escala, alguns dos links mais sofisticados das redes do futuro poderão atravessar o espaço entre edifícios sem precisar de um cabo físico ligando os dois lados.