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Tecnologia

Segredos escondidos há séculos estão finalmente sendo revelados e a IA encontrou uma maneira de lê-los

Manuscritos indecifráveis, cartas secretas e símbolos esquecidos atravessaram séculos sem revelar seu conteúdo. Agora, uma nova geração de ferramentas começa a abrir essas cápsulas do tempo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante séculos, milhares de documentos permaneceram fechados mesmo estando diante dos olhos de historiadores. Não por estarem trancados em cofres, mas porque ninguém conseguia entender o que estava escrito neles. Símbolos inventados, alfabetos desaparecidos e códigos engenhosos transformaram cartas e manuscritos em verdadeiros enigmas. A inteligência artificial, porém, começa a mudar essa história e algumas descobertas mostram até onde essa tecnologia pode chegar.

Um livro de 408 páginas guardou seu segredo por quatro séculos

Nos arquivos da Biblioteca Vaticana existe um manuscrito que permaneceu praticamente incompreensível por mais de 400 anos. Conhecido como cifra Borg, o documento possui 408 páginas preenchidas com 34 símbolos incomuns, algumas letras romanas e uma capa escrita em árabe.

Uma indicação na contracapa sugeria que aquelas páginas escondiam tratamentos para doenças humanas. O conteúdo, porém, permanecia inacessível porque não existia uma chave conhecida para interpretar o código.

Isso começou a mudar com técnicas de aprendizado de máquina.

Pesquisadores conseguiram descobrir que se tratava de uma cifra de substituição, na qual símbolos diferentes representavam letras. Quando o código finalmente começou a ceder, surgiu uma coleção surpreendente de antigos tratamentos médicos.

Entre eles estavam recomendações como beber várias taças de vinho tinto de boa qualidade ou fermentar noz-moscada em massa para combater a disenteria.

Para Beáta Megyesi, professora de linguística computacional da Universidade de Estocolmo e integrante da equipe, o trabalho se aproxima de uma investigação policial: cada padrão encontrado pode revelar um pouco mais sobre pessoas e sociedades desaparecidas.

E o manuscrito do Vaticano pode ser apenas uma pequena amostra do que ainda está esperando para ser descoberto.

Bibliotecas podem esconder uma quantidade enorme de informações cifradas

Segredos escondidos há séculos estão finalmente sendo revelados e a IA encontrou uma maneira de lê-los
© Unsplash

Estimativas indicam que aproximadamente 1% do material preservado em arquivos e bibliotecas ao redor do planeta pode estar total ou parcialmente cifrado.

Isso representa uma quantidade potencialmente gigantesca de informações ausentes dos livros de história.

Esses documentos podem conter correspondências diplomáticas, conhecimentos médicos, romances proibidos, rituais de sociedades secretas e detalhes da vida cotidiana que seus autores deliberadamente tentaram esconder.

Algumas descobertas já mostraram o impacto histórico desse tipo de material. Cartas codificadas atribuídas a Maria Stuart, por exemplo, ajudaram pesquisadores a compreender melhor seus planos políticos durante o período em que esteve presa na Inglaterra.

Outro caso envolveu uma carta de aproximadamente 500 anos enviada pelo imperador Carlos V. O documento utilizava cerca de 120 símbolos diferentes e levou pesquisadores aproximadamente seis meses para ser decifrado.

Seu conteúdo revelou algo inesperadamente humano sobre um dos homens mais poderosos de sua época: o temor de que estivesse sendo preparado um plano para assassiná-lo.

O grande obstáculo, entretanto, começa antes mesmo da decodificação.

Manuscritos antigos precisam ser transformados em informações digitais. Caligrafia irregular, tinta apagada e símbolos inventados tornam esse processo extremamente lento. Uma carta curta pode exigir horas de transcrição manual.

É justamente aí que a IA começa a ganhar terreno.

A inteligência artificial já consegue acelerar meses de trabalho

Pesquisadores vêm utilizando sistemas como o Transkribus, plataforma treinada para reconhecer idiomas, estilos de escrita e documentos produzidos ao longo de diferentes períodos históricos.

O sistema identifica blocos e linhas de texto em imagens digitalizadas e tenta reconhecer cada caractere antes de transformá-los em conteúdo legível por computador.

Uma experiência recente utilizou a tecnologia em uma carta secreta enviada em 1637 pelo nobre Sigismund Heusner von Wandersleben ao chanceler sueco Axel Oxenstierna, durante a Guerra dos Trinta Anos.

A carta misturava alemão do século XVII com trechos cifrados. A inteligência artificial conseguiu acelerar sua transcrição, embora especialistas ainda precisassem corrigir erros e participar diretamente do processo de decodificação.

O conteúdo revelou alertas sobre conspirações e tensões entre aliados protestantes da Suécia.

O problema é que sistemas atuais ainda enfrentam dificuldades diante de símbolos completamente incomuns.

Por isso, pesquisadores ligados ao projeto internacional Descrypt trabalham em modelos mais flexíveis, capazes de reconhecer diferentes alfabetos, estilos de escrita e repertórios simbólicos.

A ambição é eliminar até mesmo uma etapa considerada fundamental hoje.

O próximo passo é entregar uma fotografia e receber o segredo decifrado

Os pesquisadores querem criar uma inteligência artificial capaz de observar diretamente a fotografia de um manuscrito e realizar simultaneamente a transcrição e a decodificação.

Uma experiência com a chamada cifra Copiale mostrou que isso pode funcionar.

O manuscrito de 105 páginas descreve rituais, regras e ideias de uma sociedade secreta alemã do século XVIII. Depois de receber exemplos de escrita e partes já decifradas, o sistema conseguiu interpretar corretamente trechos que nunca havia analisado.

A equipe também está desenvolvendo uma espécie de chatbot especializado em criptografia histórica. Ele combina reconhecimento de imagens, algoritmos de decodificação e modelos linguísticos treinados com textos antigos.

Quando testado novamente com a cifra Borg, o sistema conseguiu interpretar um trecho de 500 símbolos em pouco mais de 29 minutos, produzindo inclusive uma tradução para o inglês e explicando como havia chegado àquela conclusão.

Essa explicação é fundamental. Pesquisadores precisam verificar se a inteligência artificial realmente encontrou uma solução coerente, em vez de simplesmente produzir uma interpretação aparentemente convincente.

Se essa tecnologia continuar avançando, enigmas ainda maiores poderão entrar na mira.

Entre eles estão o Disco de Festos, encontrado em Creta e com aproximadamente 4 mil anos, e a antiga escrita grega conhecida como Linear A. Ambos continuam sem uma interpretação consensual.

Talvez a maior transformação, portanto, não seja resolver um único mistério medieval. Será criar uma ferramenta capaz de abrir sistematicamente milhares de pequenas janelas para períodos da história que, até agora, permaneceram silenciosos.

[Fonte: BBC]

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