Emagrecer costuma melhorar diferentes indicadores de saúde, mas uma pergunta continua intrigando pesquisadores: importa apenas perder peso ou aquilo que colocamos no prato produz efeitos independentes? Um ensaio clínico colocou três estratégias alimentares frente a frente para investigar justamente essa questão. Os participantes perderam praticamente a mesma proporção de peso, mas os exames revelaram diferenças importantes que podem mudar a conversa sobre carboidratos, gordura e metabolismo.
Três dietas, praticamente a mesma perda de peso

Pesquisadores da Universidade Washington em St. Louis acompanharam adultos com obesidade, pré-diabetes e doença hepática gordurosa, condições frequentemente relacionadas a alterações metabólicas.
O objetivo era comparar três estratégias bastante diferentes: uma dieta cetogênica, uma alimentação baseada no padrão mediterrâneo e uma dieta predominantemente vegetal e com baixo teor de gordura.
Havia, porém, um cuidado fundamental no desenho da pesquisa. Os cientistas queriam separar os benefícios provocados simplesmente pelo emagrecimento daqueles relacionados à composição dos alimentos.
Por isso, os participantes receberam refeições controladas para que os diferentes grupos perdessem aproximadamente 10% do peso corporal ao longo de alguns meses.
O resultado inicial parecia apontar para um empate.
As três estratégias reduziram o peso e a gordura corporal, além de produzirem melhorias na sensibilidade à insulina e no controle da glicose. Isso reforça algo que já é bem estabelecido: para pessoas com excesso de peso e alterações metabólicas, emagrecer pode trazer benefícios importantes.
Quando os pesquisadores observaram mais profundamente o funcionamento do organismo, entretanto, o cenário mudou.
E foi justamente a estratégia mais restritiva em carboidratos que apresentou alguns dos resultados mais marcantes.
O fígado revelou a maior diferença entre as estratégias
Na dieta cetogênica, aproximadamente 73% das calorias eram provenientes de gorduras, enquanto os carboidratos correspondiam a apenas 4%.
Mesmo com essa elevada proporção de gordura alimentar, os participantes desse grupo apresentaram uma redução particularmente expressiva da gordura acumulada no fígado.
A queda chegou a cerca de 67%, enquanto nos outros padrões alimentares ficou próxima de 45%.
A dieta keto também produziu a maior redução dos níveis de insulina circulante e o maior aumento de glucagon, hormônio que participa da mobilização das reservas energéticas do organismo.
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. Apesar do consumo elevado de gordura, não houve o aumento esperado nos níveis sanguíneos de gordura e colesterol durante o período analisado.
Os cientistas sugerem que restringir intensamente os carboidratos pode desencadear alterações metabólicas que não são explicadas exclusivamente pelo emagrecimento. Em outras palavras, duas pessoas poderiam perder quantidades semelhantes de peso, mas experimentar respostas diferentes dependendo da composição da dieta.
Isso não significa, porém, que a alimentação mediterrânea tenha sido “derrotada” de maneira definitiva.
O contexto do estudo é fundamental antes de transformar os resultados em uma recomendação para a população em geral.
O resultado não significa que todo mundo deveria abandonar os carboidratos

O ensaio envolveu um grupo relativamente pequeno de participantes e avaliou pessoas com características bastante específicas: obesidade, pré-diabetes e acúmulo de gordura no fígado.
Além disso, a duração foi limitada a alguns meses.
Esses detalhes impedem concluir que a dieta cetogênica seja superior para qualquer pessoa ou que seus efeitos continuariam iguais depois de vários anos. Especialistas destacam que são necessários estudos maiores e mais longos antes de estabelecer conclusões definitivas.
Existe ainda uma questão prática.
Manter uma dieta com apenas 4% das calorias provenientes de carboidratos exige abandonar ou limitar drasticamente diversos alimentos presentes na rotina, incluindo pães, massas, arroz, algumas frutas e outros produtos ricos nesse nutriente.
A adesão prolongada pode ser difícil, e uma estratégia alimentar só funciona no mundo real quando consegue ser mantida.
Nesse aspecto, a dieta mediterrânea continua carregando uma vantagem importante: existe um volume muito maior de evidências acumuladas ao longo de décadas associando esse padrão alimentar a benefícios cardiovasculares e metabólicos.
A grande descoberta pode estar além da disputa entre keto e mediterrânea
O aspecto mais interessante da pesquisa talvez não seja declarar uma vencedora, mas mostrar que a composição da dieta pode provocar mudanças metabólicas além daquelas obtidas simplesmente pela perda de peso.
Isso pode ser particularmente relevante para pacientes com gordura hepática e pré-diabetes.
Samuel Klein, pesquisador envolvido no estudo, destacou que os resultados sugerem que reduzir carboidratos pode produzir efeitos terapêuticos importantes sobre o metabolismo nesse grupo específico.
Ao mesmo tempo, os próprios resultados precisam ser interpretados dentro dos limites do experimento.
A dieta mediterrânea possui uma extensa trajetória de pesquisas favoráveis, enquanto ainda existem dúvidas sobre os efeitos e a sustentabilidade de uma dieta cetogênica extremamente restritiva durante períodos prolongados.
O novo ensaio, portanto, não encerra a velha disputa sobre qual dieta é melhor. Ele acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça.
Para determinadas pessoas e determinados objetivos metabólicos, talvez não importe apenas quanto peso desaparece da balança. A forma utilizada para chegar até lá também pode deixar uma assinatura diferente dentro do organismo.
[Fonte: La Razón]