Mercúrio parece um mundo pequeno, rochoso e silencioso, mas sua superfície guarda as marcas de uma transformação que começou há bilhões de anos. À medida que seu interior perde calor, o planeta se contrai e sua crosta precisa acompanhar esse movimento. Durante décadas, essas enormes “rugas” foram usadas para medir quanto Mercúrio havia diminuído. Agora, uma nova análise sugere que parte da história estava escondida à vista de todos.
As rugas de Mercúrio contam uma história incompleta
Mercúrio é o menor planeta do Sistema Solar, mas seu interior é dominado por um enorme núcleo metálico. Desde sua formação, há aproximadamente 4,5 bilhões de anos, o planeta vem perdendo lentamente o calor armazenado durante seus primeiros estágios.
Quando o interior de um planeta esfria, ele tende a se contrair. A superfície precisa acompanhar essa redução de volume, comprimindo-se e formando grandes estruturas tectônicas.
Em Mercúrio, esse processo deixou escarpas e cristas que podem se estender por centenas de quilômetros. São como gigantescas rugas planetárias produzidas pelo resfriamento do interior.
Essas estruturas se tornaram uma espécie de régua para os cientistas. Ao medir seu tamanho e distribuição, era possível estimar quanto o planeta havia diminuído ao longo de sua história.
O problema é que essa régua não mostrava tudo.
Uma nova pesquisa publicada na Geophysical Research Letters indica que algumas das estruturas mais antigas podem ter sido escondidas por outro processo que também moldou violentamente a superfície de Mercúrio.
Os impactos podem ter apagado parte das evidências
O estudo, liderado por Gaku Nishiyama, do Centro Aeroespacial Alemão, comparou os mapas das estruturas tectônicas de Mercúrio com um novo mapa global da rugosidade de sua superfície.
O resultado chamou a atenção dos pesquisadores.
As áreas mais acidentadas apresentavam menos estruturas de contração do que as regiões relativamente lisas. À primeira vista, isso poderia sugerir que essas partes do planeta sofreram menos deformação.
Mas havia outra explicação possível.
Durante bilhões de anos, Mercúrio foi atingido por asteroides e outros corpos. Esses impactos abriram crateras e espalharam enormes quantidades de material pela superfície. Em regiões particularmente marcadas por impactos, antigas escarpas e cristas podem ter ficado parcialmente soterradas ou deformadas.
Isso cria um problema para quem tenta reconstruir a história do planeta olhando apenas para aquilo que ainda pode ser identificado.
É como tentar descobrir quanto uma folha de papel foi amassada depois que parte dela foi coberta por várias camadas de tinta: as marcas continuam existindo, mas algumas já não podem ser vistas com facilidade.
Ao levar esse possível viés em consideração, os pesquisadores chegaram a uma estimativa significativamente diferente.
A diferença pode chegar a 23 quilômetros
Segundo a nova análise, a contração global de Mercúrio pode ter sido entre 10% e 30% maior do que as estimativas anteriores.
Isso coloca o encolhimento total do planeta em até aproximadamente 23 quilômetros de diâmetro desde sua formação.
Em comparação com os cerca de 4.880 quilômetros de diâmetro atuais de Mercúrio, parece uma diferença pequena. Para a ciência planetária, porém, ela é relevante.
A quantidade de contração funciona como uma pista sobre a evolução térmica do planeta. Quanto mais Mercúrio se contraiu, mais informações os cientistas podem obter sobre como seu interior perdeu calor e sobre as características de seu enorme núcleo.
Os dados utilizados na investigação vêm principalmente da missão MESSENGER, da NASA, que entrou na órbita de Mercúrio em 2011 e encerrou sua missão em 2015, quando colidiu de forma controlada com o planeta.
Mesmo com o enorme volume de informações deixado pela sonda, existe uma limitação: estruturas pequenas, especialmente aquelas com apenas alguns quilômetros, podem não ter sido identificadas.
E é justamente aí que a próxima missão pode mudar novamente a história.
BepiColombo pode encontrar as rugas que ainda estão escondidas
A grande oportunidade será a missão BepiColombo, desenvolvida em conjunto pela Agência Espacial Europeia e pela agência espacial japonesa JAXA.
A missão ainda não entrou na órbita de Mercúrio. A inserção orbital está prevista para novembro de 2026, enquanto a fase científica deverá começar em 2027.
Seus instrumentos permitirão estudar a superfície e a topografia do planeta com maior precisão, criando uma oportunidade para procurar estruturas tectônicas que ficaram fora do alcance das observações anteriores.
Se novas escarpas aparecerem entre crateras e depósitos de material, a estimativa atual poderá mudar mais uma vez.
Mercúrio pode realmente ter encolhido muito mais do que se acreditava, porque parte das marcas que revelariam essa contração foi escondida por bilhões de anos de impactos.
O planeta não está simplesmente “encolhendo” agora. A grande transformação aconteceu ao longo de sua história, enquanto seu interior esfriava. O que mudou foi nossa capacidade de enxergar o tamanho real dessa transformação.