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Ciência

O céu também está contaminado: microplásticos já foram encontrados dentro de nuvens

Microplásticos já foram encontrados no interior de nuvens e experimentos indicam que algumas partículas podem interferir em processos ligados à formação de gelo e precipitação.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, os microplásticos foram tratados principalmente como um problema dos oceanos, dos alimentos e dos solos. Mas essas partículas são pequenas o suficiente para viajar muito além de onde foram descartadas. Algumas conseguem chegar à atmosfera, subir milhares de metros e acabar exatamente onde a água começa a se transformar. Agora, cientistas estão tentando entender o que acontece quando plástico e nuvens se encontram.

A viagem do plástico pode ser muito maior do que imaginávamos

Os microplásticos já apareceram em praticamente todos os ambientes analisados pela ciência, e a atmosfera não é uma exceção. Fragmentos liberados pelo desgaste de pneus, tecidos sintéticos, resíduos plásticos e superfícies degradadas podem ser levantados pelo vento e transportados por grandes distâncias.

O oceano também pode participar desse ciclo. Ondas e aerossóis marinhos conseguem devolver partículas presentes na superfície da água para a atmosfera, permitindo que elas voltem a circular pelo ambiente.

Em determinadas condições, parte desse material consegue alcançar altitudes onde as nuvens se formam.

E isso já deixou de ser apenas uma possibilidade teórica. Pesquisadores encontraram microplásticos na água de nuvens coletada no monte Tai, na China, com uma concentração média de 463 partículas por litro. Outros trabalhos identificaram partículas semelhantes em nuvens sobre montanhas do Japão, em altitudes próximas de 3.800 metros.

O problema, portanto, não é apenas descobrir como o plástico chegou até lá. A pergunta seguinte é muito mais interessante: o que ele faz quando entra em uma nuvem?

Uma partícula minúscula pode mudar o destino de uma gota

Uma nuvem não é simplesmente uma grande quantidade de vapor de água suspenso no céu. Para formar gotas e cristais de gelo, a água frequentemente precisa interagir com pequenas partículas presentes na atmosfera.

Poeira mineral, sais marinhos, fuligem e partículas de origem biológica já são conhecidos por desempenhar esse papel. Agora, os microplásticos começam a aparecer como mais um possível participante desse processo.

Experimentos publicados na Nature Communications indicaram que partículas de polietileno, polipropileno, poliestireno e PET podem favorecer a condensação da água e atuar como núcleos para a formação de gelo em determinadas condições atmosféricas.

Outro estudo observou que alguns microplásticos permitiam o início do congelamento de gotas em temperaturas entre aproximadamente −20 e −23 °C. Isso é importante porque a água extremamente pura normalmente precisa atingir temperaturas ainda mais baixas para congelar espontaneamente.

Mas existe um detalhe que torna tudo ainda mais complicado: o plástico não permanece igual depois de passar meses ou anos exposto ao ambiente.

O tempo pode transformar completamente o comportamento do plástico

A luz solar, o ozônio e outros processos atmosféricos modificam a superfície das partículas. Podem surgir rachaduras, poros e alterações químicas capazes de mudar a maneira como a água interage com elas.

E os resultados não apontam todos na mesma direção.

Alguns experimentos indicam que o envelhecimento atmosférico pode diminuir a capacidade de determinados plásticos de formar gelo. Outros mostram que fragmentação, nanoporos e transformações químicas podem aumentar significativamente esse potencial.

Um estudo publicado em 2025 no Journal of the American Chemical Society estimou, por meio de modelagem, que a fragmentação dos microplásticos poderia elevar em até uma ordem de magnitude a concentração de cristais de gelo associada a essas partículas em determinadas condições.

Isso não significa, porém, que cada pedaço de plástico esteja transformando nuvens em tempestades.

O plástico está provocando mais chuva?

É justamente aqui que a ciência precisa colocar um freio nas conclusões mais dramáticas.

Alterar a quantidade de cristais de gelo dentro de uma nuvem pode, em princípio, influenciar sua duração, a formação de precipitação e a quantidade de radiação solar refletida para o espaço. Todos esses processos estão relacionados ao funcionamento da atmosfera e ao clima.

Mas ainda não foi demonstrado que os microplásticos estejam causando mais tempestades, chuvas extremas ou inundações em escala global.

A concentração dessas partículas na atmosfera também é muito menor do que a de diversos outros aerossóis naturais produzidos pelas atividades humanas. Por isso, ainda é necessário determinar qual é realmente a contribuição dos microplásticos diante de partículas de poeira, sal marinho, fuligem e material biológico.

A descoberta mais importante, por enquanto, é outra: o plástico não está apenas circulando pelo ar. Ele já chegou ao interior das nuvens e pode participar de processos microscópicos ligados à formação de gelo.

Descobrir quanto isso realmente altera a chuva, as nuvens e o equilíbrio energético da atmosfera pode ser uma das próximas peças do complexo quebra-cabeça dos microplásticos.

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