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Tecnologia

Uma startup russa diz ter “hackeado” o cérebro de pombos para transformá-los em drones vivos — e isso levanta alertas científicos e éticos

Implantes neurais, eletrodos no cérebro e controle remoto de rotas de voo: uma empresa da Rússia afirma ter dado um passo além dos drones tradicionais ao usar pombos como plataformas biológicas de vigilância. A proposta impressiona pela engenharia, mas provoca desconforto sobre até onde a tecnologia pode ir.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pombos já foram mensageiros, símbolos urbanos e até ferramentas militares rudimentares. Agora, segundo uma startup russa, eles podem se tornar algo muito mais controverso: drones vivos controlados por estímulos cerebrais. A empresa afirma ter concluído voos de teste com aves equipadas com implantes neurais capazes de influenciar suas rotas de voo, reacendendo debates sobre biotecnologia, vigilância e ética animal.

Como funcionam os “bio-drones”

A responsável pela iniciativa é a Neiry, que anunciou ter realizado testes com pombos dotados de implantes neurais desenvolvidos internamente. Segundo a empresa, pequenos eletrodos são inseridos no crânio das aves e conectados a um estimulador fixado na cabeça.

O sistema aplica estímulos leves em regiões específicas do cérebro, induzindo o animal a preferir determinadas direções de voo. A Neiry afirma que, fora essas interferências pontuais, o pombo “se comporta de forma natural”. Durante os testes, as aves carregavam um pequeno controlador, painéis solares e uma câmera, permitindo a coleta de imagens e dados em tempo real.

Por que usar pombos em vez de drones comuns?

A empresa defende que pombos oferecem vantagens naturais em relação a drones mecânicos. São voadores experientes, capazes de navegar por ambientes complexos, acessar espaços estreitos e resistir a condições climáticas adversas. Além disso, podem percorrer até 300 milhas por dia — cerca de 480 quilômetros — sem a necessidade de recarregar baterias.

Para o CEO da Neiry, Alexander Panov, essas características tornam os chamados bio-drones ideais para tarefas como monitoramento ambiental, inspeção de infraestrutura e apoio a operações de busca e resgate, conforme declarou à Bloomberg.

Cirurgia rápida, uso imediato

Outro ponto que chama atenção é a rapidez do processo. Segundo a startup, os pombos podem ser utilizados quase imediatamente após a cirurgia de implantação dos eletrodos. A empresa afirma que o procedimento apresenta baixo risco à sobrevivência das aves e que, fora dos testes, elas mantêm rotinas normais sob cuidados da equipe.

A Neiry diz contar com bioeticistas internos para avaliar seus experimentos. No entanto, até o momento, não apresentou revisões independentes ou avaliações de terceiros que confirmem a segurança e o bem-estar animal envolvidos no projeto.

As preocupações éticas

É justamente nesse ponto que surgem as críticas mais contundentes. Para Nita Farahany, bioeticista da Duke University, a ideia de usar implantes neurais para “controlar e manipular” qualquer espécie é profundamente problemática.

Em entrevista à Bloomberg, ela afirmou que há preocupações éticas claras quando animais são subjugados e tratados como produtos tecnológicos, e não como seres vivos. A ausência de avaliações externas e de transparência científica amplia essas inquietações.

Uso civil — por enquanto

A Neiry insiste que a tecnologia, batizada de PJN-1, é restrita a usos civis. Em declaração ao jornal The Telegraph, um porta-voz afirmou que a empresa faz “todo esforço possível” para garantir que os bio-drones não tenham aplicações militares ou ocultas.

Questionada sobre o envolvimento de investidores ligados ao governo russo, a startup respondeu que o apoio estatal a tecnologias emergentes é uma prática comum em países que buscam liderar setores estratégicos de inovação.

Apenas o começo?

Apesar das controvérsias, a empresa não demonstra intenção de recuar. Em comunicados recentes, a Neiry afirmou que a tecnologia já estaria pronta para aplicações práticas em setores como serviços públicos, logística, agricultura e resposta a emergências.

Panov vai além e sugere que, no futuro, implantes semelhantes poderiam ser aplicados a outras espécies, cada uma adaptada a tarefas específicas. Caso a empresa avance para mercados internacionais, no entanto, é provável que enfrente resistência regulatória, questionamentos éticos mais rigorosos e pressão de organizações de direitos animais.

Tecnologia no limite do aceitável

A proposta da Neiry exemplifica um dilema cada vez mais comum na ciência contemporânea: o que é tecnicamente possível nem sempre é socialmente aceitável. Transformar seres vivos em plataformas de coleta de dados pode parecer eficiente, mas coloca em xeque princípios básicos sobre autonomia animal e os limites do controle tecnológico.

Se os “pombos ciborgues” representam o futuro da vigilância ou apenas um experimento controverso fadado à rejeição pública, ainda é cedo para dizer. O que já está claro é que essa não é uma inovação neutra — e o debate sobre seus limites está apenas começando.

 

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