A decisão europeia de suavizar a proibição de novos carros a combustão, tomada em dezembro sob pressão da indústria automotiva, reacendeu uma discussão que mistura política, economia e ciência. Fabricantes buscam manter híbridos plug-in no mercado enquanto enfrentam concorrentes elétricos como Tesla e BYD. Mas, para Johannes Kückens, físico e divulgador científico alemão, esse movimento ignora um fato básico: do ponto de vista físico, motores de combustão já chegaram ao seu limite.
Em entrevista ao jornal austríaco Der Standard, Kückens classificou a expressão “motor de combustão altamente eficiente” como um slogan político. Segundo ele, gasolina e diesel são máquinas térmicas submetidas à segunda lei da termodinâmica — o que significa que uma grande parte da energia gerada na queima vira calor perdido, não movimento.
Por que motores a combustão desperdiçam tanta energia

Em laboratório, motores modernos podem alcançar picos de eficiência de cerca de 40% (gasolina) e 45% (diesel). Na estrada, porém, esses números raramente aparecem. Em uso real, um carro a diesel costuma converter apenas cerca de 25% da energia do combustível em deslocamento.
Para Kückens, não há margem para saltos tecnológicos nesse campo. A arquitetura do motor a combustão impõe limites rígidos: chegar a 80% ou 90% de eficiência simplesmente não é possível com esse princípio de funcionamento.
Já os motores elétricos partem de outra lógica. Eles não dependem de calor para gerar movimento. Em condições reais de condução, conseguem aproveitar em torno de 70% da energia recebida — quase três vezes mais do que um diesel típico.
E-combustíveis: solução ou desvio caro?
Alguns governos apostam nos chamados e-combustíveis como forma de preservar motores tradicionais. O processo, porém, é longo e ineficiente: usa eletricidade renovável para separar água em hidrogênio e oxigênio, captura CO₂ do ar e depois recombina tudo para criar um combustível sintético.
Nesse caminho, perde-se até metade da energia elétrica inicial. O problema maior vem depois: esse combustível “limpo” é queimado em um motor estruturalmente ineficiente. O resultado é duro: pouco mais de 10% da energia original chega às rodas.
Na prática, afirma Kückens, com a mesma quantidade de eletricidade um carro elétrico pode rodar cerca de três vezes mais que um veículo a combustão fóssil — e até seis vezes mais que um abastecido com e-combustíveis.
Simplicidade mecânica e menos peças
Além da eficiência energética, há diferenças estruturais importantes. Um motor elétrico tem algo em torno de 250 componentes. Um motor a combustão pode ultrapassar 1.500 peças. Menos partes significam menos atrito, menor necessidade de manutenção e maior confiabilidade.
Também há o aspecto local: veículos elétricos não emitem poluentes no ponto de uso, o que impacta diretamente a qualidade do ar nas cidades.
Baterias, matérias-primas e reciclagem
Críticos frequentemente apontam a extração de lítio, níquel e cobalto como obstáculo. Kückens rebate com uma comparação simples: carros a combustão exigem extração contínua de petróleo, que é queimado e desaparece. Já os materiais das baterias permanecem e podem ser reciclados.
Segundo ele, a Europa já começa a estruturar plantas especializadas para recuperar esses metais, fechando o ciclo produtivo — algo impossível com combustíveis fósseis.
O custo de adiar a transição

Para o físico, postergar o fim dos motores a combustão além de 2035 teria dois efeitos diretos: agravaria o aquecimento global e ampliaria a distância tecnológica entre a indústria europeia e fabricantes asiáticos, especialmente chineses.
Isso não seria apenas um problema ambiental, mas também econômico. Manter tecnologias menos eficientes significa perder competitividade em um mercado que avança rapidamente rumo à eletrificação.
A conclusão de Kückens é direta: para automóveis de passageiros, o motor elétrico é superior em eficiência, simplicidade, impacto ambiental e potencial de inovação. Em um momento em que decisões políticas moldam o futuro da mobilidade, a física deixa pouco espaço para dúvidas.
[ Fonte: La Nación ]