As relações entre Washington e Caracas vivem um de seus momentos mais tensos desde a ascensão de Nicolás Maduro ao poder. Ao longo da última década, sucessivas sanções moldaram o ambiente político, econômico e diplomático da Venezuela. Agora, com a recente designação do Cartel de los Soles como grupo terrorista, os Estados Unidos ampliam seu arsenal de pressão. A medida reacende debates sobre legitimidade, impacto social e até onde podem ir as respostas americanas.
O que são as sanções aplicadas pelos EUA

As sanções adotadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA são instrumentos de política externa usados para pressionar governos considerados ameaças à segurança nacional americana. No caso venezuelano, elas combinam medidas setoriais — concentradas em áreas estratégicas como o petróleo — e sanções individuais, direcionadas a figuras centrais do regime.
Diferentemente de países submetidos a embargos totais, como Cuba, Irã e Coreia do Norte, a Venezuela enfrenta sanções específicas. Elas buscam restringir o acesso do governo a financiamento e mercados internacionais, mas tentam evitar impactos diretos em setores não relacionados ao aparato estatal. Ainda assim, Caracas vê essas decisões como “chantagem” e acusa Washington de tentar derrubar Maduro.
Sanções individuais contra Maduro e seu círculo
Nicolás Maduro entrou oficialmente na lista de sancionados em 2017, após a controversa eleição da Assembleia Constituinte, condenada pelo Tesouro dos EUA como tentativa de “usurpar” a Assembleia Nacional então controlada pela oposição. Desde então, cidadãos americanos estão proibidos de realizar transações com ele.
A ofensiva se estendeu a familiares e aliados próximos, incluindo sua esposa, Cilia Flores, e altos funcionários do governo. A intenção declarada de Washington é enfraquecer o núcleo de poder chavista, dificultando o acesso do grupo a recursos financeiros e rotas internacionais.
Pressão sobre o setor petrolífero
O petróleo sempre foi o coração econômico da Venezuela — e, por isso, tornou-se alvo prioritário das sanções. Em 2017, sob Donald Trump, os EUA proibiram bancos americanos de comprar novos títulos do governo venezuelano ou da estatal PDVSA, limitando drasticamente o financiamento externo do país.
A partir de 2019, quando Washington passou a reconhecer Juan Guaidó como presidente interino, as sanções ficaram ainda mais rígidas: qualquer compra de petróleo venezuelano por empresas dos EUA passou a ter fundos bloqueados. Em 2023, parte dessas restrições foi flexibilizada para estimular negociações políticas, mas o alívio durou pouco diante do fracasso dos acordos.
A Chevron, no entanto, manteve uma licença especial desde 2022 que permite operar em parceria com a PDVSA. Essa autorização virou peça de barganha diplomática entre governos americanos e Caracas, sendo renovada e suspensa conforme o cenário político evoluia.
A escalada pós-eleições de 2024
As eleições presidenciais de 2024, marcadas por denúncias de opacidade, provocaram nova rodada de sanções. Em setembro, os EUA penalizaram 16 autoridades que, segundo Washington, minaram o processo eleitoral. No final do ano, novas medidas atingiram integrantes da Guarda Nacional, da Polícia Bolivariana e de outros órgãos de segurança.
Paralelamente, Maduro aprovou uma lei que pune venezuelanos que apoiem sanções estrangeiras, gerando críticas de organizações de direitos humanos.
No início de 2025, o governo Biden aumentou de US$ 15 milhões para US$ 25 milhões a recompensa pela captura de Maduro, e endureceu ainda mais as restrições de visto para figuras chavistas. O Departamento de Estado contabilizava então cerca de duas mil pessoas afetadas por medidas migratórias e mais de 187 autoridades sob sanções diretas.
O impacto da designação do Cartel de los Soles

A recente classificação do Cartel de los Soles como organização terrorista estrangeira ampliou as possibilidades legais para novas sanções patrimoniais e financeiras. Segundo especialistas, porém, essa designação não autoriza o uso de força letal contra Maduro ou instituições venezuelanas, como sugeriram rumores nas redes.
O governo venezuelano rejeitou veementemente a acusação, afirmando que o cartel é uma “invenção” dos EUA e acusando o secretário de Estado Marco Rubio de tentar promover uma mudança de regime. Em comunicado oficial, Caracas classificou a decisão como mais uma “agressão destinada ao fracasso”.
[ Fonte: CNN Brasil ]