Com um celular na mão e acesso às redes sociais, muitos migrantes começaram a compartilhar suas próprias experiências diretamente com o público. O resultado é uma nova forma de narrativa digital que mistura rotina, denúncia, humor e apoio entre comunidades espalhadas pelo mundo.
Histórias pessoais que desafiam estereótipos
Entre as vozes que ganharam destaque nas redes está a de Suyapa Orellana, uma criadora de conteúdo hondurenha que vive na Espanha.
Ela chegou ao país em dezembro de 2021 e, alguns anos depois, decidiu começar a publicar vídeos sobre sua vida cotidiana como migrante. Com poucos recursos — basicamente um celular, um tripé com luz e o pequeno quarto onde vive com a família — passou a mostrar sua rotina nas redes sociais.
Esse mesmo espaço funciona como sala, cozinha e, agora, também como seu estúdio de gravação.
Nos vídeos, Orellana convida os seguidores a acompanharem seu dia de trabalho. As gravações mostram desde o momento em que prepara café pela manhã até suas jornadas de limpeza de casas e cuidados com idosos.
Essas atividades são as que garantem sua renda mensal, próxima do salário mínimo espanhol.
Entre cenas da rotina, a criadora também compartilha reflexões sobre o cansaço do trabalho, seus sonhos e o processo burocrático para conseguir regularizar sua situação migratória.
Em pouco tempo, esse formato começou a atrair público. Em menos de um ano produzindo conteúdo, ela acumulou dezenas de milhares de seguidores em plataformas como Instagram e TikTok.
Para manter o projeto, dedica cerca de duas horas por dia à produção de vídeos.
Redes sociais como espaço de resposta

A presença digital de Orellana ganhou ainda mais atenção depois de uma entrevista em um programa de televisão espanhol que a descreveu como “influenciadora da pobreza”.
Segundo ela, a reportagem apresentou imagens de pessoas recebendo ajuda de organizações de caridade enquanto falava sobre seu conteúdo, sugerindo que ela dependia desse tipo de apoio.
A criadora afirma que a edição não refletia sua realidade e que seus próprios vídeos não foram exibidos na reportagem.
Depois desse episódio, decidiu usar ainda mais as redes sociais para explicar sua história e responder diretamente ao público.
Em seus vídeos, ela critica a forma como migrantes muitas vezes são retratados de maneira negativa.
Segundo Orellana, muitas pessoas acreditam que migrantes se mudam para outros países apenas para receber benefícios sociais.
Ela afirma que sua experiência mostra o contrário: a maioria busca oportunidades de trabalho e melhores condições de vida.
Um coro crescente de vozes migrantes
Orellana não é a única a usar as redes sociais para contar esse tipo de história.
Outros criadores de conteúdo latino-americanos também estão construindo narrativas próprias sobre a experiência de viver fora de seus países de origem.
Na Espanha, por exemplo, a colombiana Ana María Pulido compartilha vídeos que chama de “diários de uma migrante”. Neles, fala sobre os desafios emocionais da adaptação e sobre as dificuldades para encontrar moradia.
Pulido também mostra seu trabalho em um pequeno negócio de comida colombiana, combinando relatos pessoais com mensagens motivacionais.
Mais ao norte da Europa, o colombiano Juan Correa utiliza uma abordagem diferente.
Com centenas de milhares de seguidores, ele produz vídeos que misturam humor e cotidiano para retratar os choques culturais de viver em outro país, aprender um novo idioma e criar uma filha em um ambiente diferente.
Além das publicações humorísticas, também aborda de forma crítica alguns estereótipos associados aos colombianos na Europa.
Na América Latina, outro exemplo é o da cubana Anarelys Abascal, que vive na Costa Rica.
Ela produz vídeos sobre a construção de sua nova vida no país, mostrando desde receitas de comida tradicional até detalhes do cotidiano em sua nova cidade.
Redes sociais também criam comunidades
Pesquisas recentes indicam que conteúdos produzidos por migrantes nas redes sociais têm forte capacidade de gerar interação e apoio.
Um estudo do Mixed Migration Center analisou grupos online voltados a pessoas em processo migratório e observou que relatos pessoais costumam gerar maior engajamento.
Publicações que compartilham experiências de viagem, desafios enfrentados ou palavras de incentivo tendem a atrair mais comentários e interações.
Outro estudo, realizado por pesquisadores da Universidade Católica do Chile, mostrou que plataformas como TikTok também são usadas para preservar cultura, identidade e construir redes de apoio entre comunidades da diáspora.
Isso significa que as redes sociais não servem apenas para contar histórias individuais.
Elas também funcionam como espaços de troca de informações, solidariedade e orientação.
Recentemente, por exemplo, algumas criadoras de conteúdo passaram a produzir vídeos explicativos sobre processos de regularização migratória na Espanha.
Esses conteúdos ajudam seguidores a entender os passos necessários para conseguir autorização de trabalho ou residência.
Para muitos migrantes, essas informações podem representar não apenas um novo documento, mas também a possibilidade de conquistar algo que simboliza estabilidade: um lar próprio.
[Fonte: El País]