O contato ocorreu em um momento de forte tensão diplomática, marcado por críticas de Lula à atuação recente dos Estados Unidos na Venezuela e por preocupações crescentes na América Latina sobre intervenções externas. Para Xi, Brasil e China devem atuar juntos para defender interesses comuns, reforçar a cooperação entre países em desenvolvimento e preservar o papel central das Nações Unidas.
Apoio político em meio a tensões globais

Segundo a Xinhua, Xi Jinping destacou que China e Brasil precisam “salvaguardar conjuntamente os interesses do Sul Global” e manter o papel da ONU na atual conjuntura internacional. A fala sinaliza um alinhamento político mais explícito entre Pequim e Brasília em temas sensíveis da agenda internacional, como soberania nacional, multilateralismo e equilíbrio de poder global.
O posicionamento chinês veio poucos dias depois de Lula publicar um artigo de opinião no jornal The New York Times, no qual criticou duramente a ação dos Estados Unidos contra a Venezuela. No texto, o presidente brasileiro defendeu que o futuro de qualquer país deve ser decidido exclusivamente por seu próprio povo, sem interferência externa.
Para o governo chinês, a defesa do multilateralismo e das instituições internacionais é uma resposta direta ao que Pequim vê como atitudes unilaterais de grandes potências, especialmente em regiões consideradas estratégicas para o Sul Global.
Operação dos EUA na Venezuela gera reação regional
O contexto imediato das declarações envolve a detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças norte-americanas, para que ele fosse processado nos Estados Unidos sob acusações de tráfico de drogas. A operação mergulhou a Venezuela em nova fase de incerteza política e acendeu alertas em diversos países latino-americanos.
Governos da região passaram a temer que ações semelhantes possam ser repetidas em outros territórios, abrindo precedentes para intervenções diretas. O episódio também provocou críticas no âmbito das Nações Unidas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em entrevista à BBC Radio 4 que os princípios fundadores da organização, como a igualdade entre os Estados-membros, estariam sendo ameaçados. Para ele, a percepção de que grandes potências podem agir com impunidade corrói a credibilidade do sistema internacional.
Lula critica uso da força e alerta para riscos globais
No artigo publicado em 18 de janeiro, Lula afirmou que, em mais de dois séculos de história independente, esta teria sido a primeira vez que a América do Sul sofreu um ataque militar direto dos Estados Unidos, ainda que intervenções indiretas tenham ocorrido no passado.
O presidente brasileiro também alertou para os riscos de um mundo baseado na coerção e no medo. Segundo Lula, mesmo as grandes potências não conseguem sustentar uma ordem internacional marcada por hostilidade permanente.
A posição do Brasil tem sido a de buscar uma saída diplomática para crises regionais, evitando alinhamentos automáticos e defendendo soluções negociadas no âmbito internacional.
Groenlândia e o desgaste com aliados
As tensões não se limitam à América Latina. A ameaça do ex-presidente Donald Trump de usar a força para anexar a Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca, também abriu fissuras entre os Estados Unidos e aliados europeus.
Esse tipo de discurso ampliou a percepção de instabilidade e reforçou, para países como China e Brasil, a necessidade de fortalecer fóruns multilaterais e alianças alternativas às estruturas tradicionais lideradas por Washington.
China busca ampliar influência na América Latina

A ofensiva dos EUA na Venezuela também desafia a influência chinesa na América Latina e no Caribe, regiões onde Pequim vem expandindo sua presença econômica nos últimos anos. Xi Jinping reafirmou a Lula que a China pretende continuar sendo “uma boa amiga e parceira” dos países latino-americanos e caribenhos.
Nesse contexto, ganha destaque a parceria estratégica anunciada para 2024, que busca alinhar a Iniciativa Cinturão e Rota, principal projeto global de infraestrutura da China, aos planos brasileiros para agricultura, obras de infraestrutura e transição energética.
Para Xi, essa cooperação exemplifica a solidariedade entre países do Sul Global e contribui para a construção de uma comunidade China–América Latina com um futuro compartilhado, baseada em desenvolvimento econômico, investimento e coordenação política em fóruns internacionais.
[ Fonte: CNN Brasil ]