A Copa do Mundo costuma ser celebrada como um momento de união global, capaz de reunir torcedores de diferentes culturas em torno da paixão pelo futebol. Mas a edição de 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, chegou cercada por controvérsias antes mesmo de a bola rolar. Desde restrições de entrada para torcedores até críticas aos preços dos ingressos e ao impacto ambiental do torneio, diversos temas vêm gerando questionamentos sobre os rumos adotados pela FIFA.
A relação entre FIFA e política gerou desconforto antes do torneio
Uma das primeiras polêmicas envolveu a proximidade entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A entidade máxima do futebol mundial mantém oficialmente uma postura de neutralidade política. No entanto, diversas aparições públicas de Infantino ao lado de Trump despertaram críticas entre analistas, dirigentes e torcedores.
A situação ganhou ainda mais atenção porque os Estados Unidos sediaram a competição em um contexto geopolítico delicado. Pela primeira vez na história das Copas do Mundo, um país anfitrião estava envolvido em um conflito militar com uma das seleções classificadas para o torneio.
Críticos argumentam que a proximidade entre a FIFA e líderes políticos pode comprometer a imagem de imparcialidade que a entidade busca manter. Para muitos observadores, a mistura entre interesses esportivos e agendas governamentais criou um ambiente de desconforto em um evento que tradicionalmente procura transmitir uma mensagem de integração global.
Restrições de entrada impediram milhares de torcedores de viajar

Outra fonte de críticas surgiu a partir das políticas migratórias adotadas pelos Estados Unidos.
Diversos torcedores enfrentaram dificuldades para obter autorização de entrada no país durante o Mundial. Em alguns casos, as restrições foram ainda mais severas.
Torcedores do Irã e do Haiti, por exemplo, ficaram impedidos de entrar nos Estados Unidos para acompanhar suas seleções, enquanto apenas jogadores e membros das delegações receberam autorização especial.
Em outras nações, como Senegal e Costa do Marfim, a emissão de vistos turísticos foi drasticamente reduzida, dificultando a presença de torcedores nos estádios.
A situação gerou preocupação adicional devido às dúvidas sobre possíveis operações de fiscalização migratória próximas aos locais das partidas. Organizações de defesa dos direitos civis e grupos de torcedores criticaram o clima de insegurança criado por essas medidas.
Para muitos fãs, a Copa do Mundo deveria ser um evento acessível a todos os países participantes, independentemente de questões políticas ou migratórias.
Ingressos caros provocaram revolta entre os torcedores
O sistema de venda de ingressos adotado pela FIFA também se tornou alvo de críticas.
A entidade utilizou um modelo conhecido como precificação dinâmica, no qual os valores variam conforme a procura. Na prática, isso fez com que torcedores pagassem preços muito diferentes por assentos semelhantes.
Os valores rapidamente chamaram atenção. Ingressos premium para a final chegaram a ser vendidos por cerca de US$ 11 mil. Em alguns momentos, determinados lugares foram anunciados por centenas de milhares de dólares.
Um dos casos mais comentados envolveu um assento localizado próximo a uma das bandeirinhas de escanteio que chegou a ser oferecido por US$ 690 mil.
Além dos preços elevados, consumidores relataram problemas relacionados à localização dos assentos recebidos. Alguns afirmaram que compraram ingressos para setores específicos e acabaram alocados em áreas consideradas inferiores.
Entidades de defesa do consumidor e associações de torcedores acusaram a FIFA de falta de transparência e abriram reclamações formais contra o sistema de vendas.
A expansão para 48 seleções também divide opiniões
A Copa de 2026 marcou uma mudança histórica ao ampliar o número de participantes de 32 para 48 seleções.
Com isso, o torneio passou de 64 para 104 partidas e ganhou uma fase eliminatória adicional.
Embora a expansão tenha permitido a participação de mais países, muitos especialistas questionam os impactos dessa mudança na qualidade técnica da competição.
Também ficou mais fácil avançar para o mata-mata. Além dos dois melhores colocados de cada grupo, várias equipes classificadas em terceiro lugar passaram a ter chances de seguir na disputa.
Alguns analistas enxergam a decisão como uma estratégia política dentro da própria FIFA, já que federações menores são as principais beneficiadas pelo aumento de vagas e possuem peso relevante nas eleições da entidade.
O impacto ambiental virou uma das maiores preocupações
As críticas não se limitaram ao campo esportivo.
Organizações ambientais apontam que a Copa de 2026 pode se tornar uma das mais poluentes da história. Estudos estimam que o evento poderá gerar mais de nove milhões de toneladas de dióxido de carbono, principalmente devido às longas distâncias entre as cidades-sede e ao intenso tráfego aéreo necessário para transportar equipes e torcedores.
Em alguns locais, a situação foi agravada pela dificuldade de acesso aos estádios por transporte público.
Muitos torcedores relataram custos elevados para chegar aos jogos, seja utilizando trens, ônibus especiais ou estacionamentos. Em determinadas cidades, os preços inicialmente divulgados para o transporte geraram forte reação popular, obrigando os organizadores a reduzir tarifas.
Os críticos argumentam que essas dificuldades acabam incentivando deslocamentos mais poluentes e aumentam os custos para os torcedores, criando um contraste com os compromissos de sustentabilidade frequentemente defendidos pela FIFA.
Enquanto milhões de pessoas acompanham os jogos ao redor do mundo, a Copa de 2026 também ficará marcada como uma das edições mais debatidas fora das quatro linhas. E, para muitos observadores, as discussões sobre política, acessibilidade e impacto ambiental podem deixar um legado tão significativo quanto os resultados dentro de campo.
[Fonte: DW]