Uma pequena estrela vermelha, distante centenas de anos-luz da Terra, acaba de revelar um dos sistemas planetários mais curiosos já encontrados. Ao seu redor existem dois mundos que provavelmente nasceram no mesmo ambiente, mas hoje não poderiam ser mais diferentes. Enquanto um completa sua órbita em menos de um dia e pode ter uma superfície de rocha derretida, o outro permanece em uma região muito mais tranquila. A descoberta oferece aos astrônomos uma oportunidade rara de observar como mundos semelhantes podem tomar rumos tão diferentes.
Uma estrela, dois destinos completamente diferentes
O sistema foi identificado como TOI-1752 e fica a cerca de 337 anos-luz da Terra. Os dois planetas foram inicialmente detectados pelo satélite TESS, da NASA, que procura pequenas variações no brilho das estrelas provocadas pela passagem de planetas à sua frente.
Observações posteriores realizadas a partir do Havaí e do Observatório do Teide ajudaram a confirmar que os sinais realmente correspondiam a planetas. O resultado foi publicado no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e envolve uma equipe internacional liderada pelo Instituto de Astrofísica da Andaluzia.
O planeta mais próximo da estrela, TOI-1752 b, tem cerca de 1,69 vez o raio da Terra e completa uma volta ao redor de sua estrela em apenas 0,935 dia — aproximadamente 22 horas e 26 minutos.
A proximidade com sua estrela provavelmente teve consequências dramáticas. A intensa radiação pode ter eliminado grande parte de sua atmosfera original, deixando para trás um mundo predominantemente rochoso e extremamente quente.
As estimativas colocam sua temperatura de equilíbrio entre 1.000 e 1.300 kelvin. Em determinadas condições, isso seria suficiente para que parte da superfície voltada permanentemente para a estrela pudesse apresentar rocha fundida.
O outro planeta muda completamente a história
A surpresa aparece quando os astrônomos observam o planeta mais distante. TOI-1752 c possui aproximadamente 2,29 vezes o raio da Terra e leva 32,714 dias para completar uma órbita.
Sua distância em relação à estrela faz com que receba muito menos radiação. O planeta está dentro da chamada zona habitável otimista, uma região onde determinadas combinações de temperatura, pressão e composição atmosférica poderiam permitir a existência de água líquida.
Mas há uma ressalva importante: os famosos 18 °C associados ao planeta não significam que sua superfície tenha sido medida nessa temperatura.
Esse valor corresponde à temperatura de equilíbrio estimada a partir da energia recebida da estrela. O clima real dependeria de características ainda desconhecidas, incluindo sua atmosfera, pressão e capacidade de refletir a radiação.
Além disso, os pesquisadores ainda não detectaram água. Como se trata de um sub-Netuno, o planeta pode possuir uma espessa camada de hidrogênio e hélio e talvez nem sequer tenha uma superfície sólida semelhante à da Terra.
O detalhe que pode tornar esse sistema ainda mais valioso
A verdadeira importância de TOI-1752 está justamente no contraste entre seus dois planetas. Eles provavelmente se formaram no mesmo ambiente, mas um parece ter perdido grande parte de sua atmosfera enquanto o outro pode ter preservado uma envoltura gasosa muito mais extensa.
O planeta escaldante também pode ser mais fácil de estudar. Como completa uma órbita em poucas horas, os telescópios conseguem observar muitos trânsitos em um período relativamente curto.
Modelos apresentados no estudo indicam que o telescópio James Webb poderá ajudar a determinar se TOI-1752 b é praticamente uma superfície exposta ou se possui uma atmosfera secundária formada por gases liberados de seu interior. Entre as possibilidades estão atmosferas dominadas por dióxido de carbono ou vapor de água.
Já TOI-1752 c pode se transformar em um importante alvo para o estudo de atmosferas temperadas.
É justamente essa combinação que torna o sistema tão interessante: dois mundos que podem ter começado de maneira parecida, mas que parecem ter seguido caminhos radicalmente diferentes. Um pode guardar pistas sobre a perda de atmosferas; o outro pode ajudar a entender como mundos relativamente temperados conseguem preservar suas camadas gasosas.
E, a partir de agora, os telescópios terão uma nova oportunidade de descobrir o que realmente existe por trás desses dois destinos tão opostos.