Quase todo mundo já passou uma noite tentando encontrar o mosquito que insiste em sobrevoar o quarto. Steven Cheng decidiu enfrentar o problema de uma maneira consideravelmente mais sofisticada. Em vez de inseticida ou repelente, o engenheiro chinês passou meses construindo uma máquina capaz de observar o ambiente, reconhecer pequenos insetos e apontar automaticamente para eles. A última etapa parece saída de um filme: um disparo de laser.
Primeiro, a inteligência artificial precisa encontrar um alvo minúsculo
O projeto de Steven Cheng funciona como uma pequena torre automatizada de defesa contra mosquitos.
Antes de disparar qualquer coisa, porém, existe um problema bastante complicado para resolver.
Um mosquito é pequeno, rápido e pode aparecer diante de fundos extremamente variados. Confundir uma sombra, poeira ou outro objeto com o inseto seria particularmente problemático em uma máquina equipada com laser.
Por isso, Cheng começou pela inteligência artificial.
O engenheiro reuniu imagens de mosquitos para criar um conjunto de dados e treinou seu próprio modelo de detecção. A intenção era ensinar o sistema a reconhecer visualmente o inseto antes de permitir qualquer ação.
Para capturar imagens com detalhes suficientes, utilizou uma câmera DSLR equipada com uma lente de grande ampliação.
Depois entra em cena o aprendizado profundo.
O software analisa aquilo que aparece diante da câmera e tenta diferenciar o mosquito dos demais elementos presentes no ambiente.
Quando identifica o alvo, envia sua posição ao mecanismo responsável pela próxima etapa.
É justamente nesse momento que o projeto deixa de parecer apenas um experimento convencional de visão computacional.
Uma plataforma de precisão acompanha o mosquito antes do disparo

O laser está instalado sobre um sistema móvel de alta precisão.
Quando a IA reconhece um mosquito, o mecanismo orienta o feixe na direção correspondente e acompanha o inseto enquanto ele se movimenta.
O resultado mostrado pelo engenheiro nas redes sociais lembra uma torre automática em miniatura.
Câmera e software funcionam como os olhos. O modelo de inteligência artificial decide aquilo que está observando. A plataforma mecânica orienta o sistema. Finalmente, o laser realiza o disparo.
Segundo Cheng, a máquina foi construída durante vários meses e passou por sucessivas modificações até atingir o funcionamento atual.
O objetivo era extremamente específico: eliminar mosquitos dentro de uma residência sem depender dos métodos tradicionais.
Em demonstrações compartilhadas pelo próprio criador, o sistema consegue detectar e atingir os insetos.
Cheng afirma ainda que, ao deixá-lo funcionando durante uma noite, conseguiu eliminar os mosquitos presentes no ambiente.
Essa afirmação, entretanto, vem do próprio inventor e não equivale a um teste independente de eficácia.
Existe também uma questão ainda mais importante que simplesmente saber se a máquina consegue acertar um mosquito.
O maior desafio não é acertar o inseto, mas garantir que o laser nunca erre
Transformar o protótipo em um equipamento doméstico seria consideravelmente mais complicado.
Um sistema capaz de disparar lasers automaticamente dentro de uma residência precisa oferecer garantias extremamente robustas de segurança.
Pessoas podem atravessar a área de funcionamento. Crianças e animais domésticos podem aparecer inesperadamente. Superfícies refletoras podem alterar a trajetória da luz.
Um erro de identificação também poderia fazer o sistema mirar em algo que não deveria.
Por isso, uma eventual versão comercial precisaria incorporar mecanismos capazes de bloquear imediatamente o disparo diante de qualquer situação de risco.
Essa é uma diferença fundamental entre demonstrar que determinada tecnologia funciona em condições controladas e transformá-la em um produto que possa ser vendido para milhares de pessoas.
Cheng ainda enfrenta outro problema: custo e complexidade.
Uma câmera sofisticada, lente de grande alcance, plataforma mecânica de precisão e hardware para executar inteligência artificial podem resultar em um equipamento caro para resolver um problema normalmente enfrentado com repelentes, telas e inseticidas.
Mesmo assim, ele não é o único tentando transformar lasers em armas contra mosquitos.
A ideia de derrubar mosquitos com laser já está chegando ao mercado
Outros projetos seguem uma filosofia semelhante.
O Photon Matrix, desenvolvido por uma startup chinesa, utiliza LiDAR e sistemas inteligentes de detecção para identificar insetos em movimento e direcionar um laser contra eles.
A empresa afirma que seu equipamento mede continuamente a distância até o fundo do ambiente. Quando algo interrompe esse padrão, o sistema verifica tamanho e características do objeto antes de autorizar o disparo.
Existem versões com laser azul visível e infravermelho.
A proposta chamou tanta atenção que o projeto arrecadou aproximadamente US$ 2,7 milhões em financiamento coletivo, embora sua produção tenha enfrentado atrasos relacionados à calibração dos sensores e às exigências de segurança.
A existência desses projetos mostra que a ideia deixou de ser apenas uma curiosidade de laboratório.
E existe uma razão para tanto interesse.
Mosquitos não são apenas visitantes irritantes durante noites quentes. Diferentes espécies podem transmitir doenças como dengue, malária, febre amarela e zika, tornando seu controle um importante problema de saúde pública em diversas regiões do planeta.
A guerra contra mosquitos pode ganhar armas muito mais sofisticadas
Durante décadas, grande parte das estratégias domésticas contra esses insetos permaneceu relativamente simples: telas, repelentes, inseticidas, mosquiteiros e armadilhas.
Inteligência artificial e sensores começam a abrir outra possibilidade.
Em vez de espalhar uma substância pelo ambiente ou esperar que o inseto entre voluntariamente em uma armadilha, máquinas poderiam procurar individualmente cada mosquito e agir somente depois de identificá-lo.
Ainda existem enormes obstáculos antes que uma pequena torre laser ao lado da cama se torne algo normal.
Segurança, preço, confiabilidade e eficácia fora das demonstrações precisam ser comprovados.
Mas o experimento de Steven Cheng mostra como tecnologias originalmente desenvolvidas para problemas muito mais complexos estão chegando a situações absolutamente cotidianas.
No passado, alguém incomodado por um mosquito no quarto poderia pegar um chinelo.
Agora existe pelo menos um engenheiro que olhou para o mesmo problema e pensou em uma solução completamente diferente: treinar uma inteligência artificial, construir um sistema automático de pontaria e entregar a ele um laser.
[Fonte: OK Diario]