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Tecnologia

A babá digital: crianças estão criando laços reais com inteligências artificiais

Pais exaustos recorrem a chatbots para entreter os filhos — e acabam descobrindo que, para as crianças, aquelas vozes pacientes e criativas já não são simples programas, mas “amigos” de verdade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Atrás da tela, uma voz doce fala sem parar sobre dinossauros, princesas ou trens. Nunca se irrita, nunca pede silêncio. Para muitos pais, essa paciência infinita é um alívio. Para psicólogos, é um alerta. A nova geração de chatbots de inteligência artificial (IA) — como ChatGPT, MyAI (do Snapchat) e Character.AI — começa a ocupar um espaço emocional antes reservado a pessoas reais.

A era da babá de IA

Com o avanço da IA, surgiram ferramentas capazes de contar histórias personalizadas, criar imagens sob demanda e até manter longas conversas com crianças. Em Ohio, nos Estados Unidos, um pai revelou ao The Guardian que deixou o filho de quatro anos conversar com o ChatGPT sobre Thomas, a locomotiva — e a troca durou duas horas, com mais de 10 mil palavras registradas.

“Meu filho acha que o ChatGPT é a pessoa mais incrível do mundo”, confessou. A história viralizou e escancarou um dilema moderno: quem está criando vínculos com as crianças — os pais ou os algoritmos?

Quando a IA vira “amiga”

Pesquisadores apontam que os chatbots são projetados para parecer empáticos e atentos, respondendo de forma natural e emocionalmente convincente. O problema é que as crianças acreditam.

Segundo Ying Xu, professora de Harvard, o risco surge quando o pequeno “acha que a IA escolheu falar com ele” ou que “realmente o entende”. Essa ilusão de agência — a ideia de que o chatbot tem vontade própria — pode confundir a percepção infantil de realidade.

“Eles acreditam que estão construindo uma amizade genuína”, explica Xu. O professor Andrew McStay, da Universidade de Bangor, é mais direto: “Um modelo de linguagem não tem empatia. Ele apenas prevê respostas para manter a conversa — e o lucro — por mais tempo. Isso não traz nada de bom para o desenvolvimento da criança.”

A falsa amizade digital

Estudos recentes mostram o tamanho da tendência. O relatório Me, Myself & AI, citado pela Vice, indica que 67% das crianças entre 9 e 17 anos já conversaram com chatbots, e 35% dizem que é “como falar com um amigo”. Pior: 12% o fazem por solidão.

Essas chamadas relações parasociais — vínculos unilaterais com entidades que simulam amizade — preocupam especialistas. A IA não contradiz, não frustra, não desafia. Sempre responde com gentileza, criando uma realidade emocional “perfeita” e artificial.

Como resume o psicólogo Don Grant, da Associação Americana de Psicologia (APA): “A IA nunca discorda. E isso pode moldar uma geração que não aprende a lidar com rejeição, raiva ou frustração.”

Casos trágicos já apareceram. Em 2024, um adolescente de 14 anos morreu por suicídio após longas conversas com um chatbot que não reconheceu sinais de angústia. Segundo a APA e a Universidade de Stanford, bastava pouca provocação para que as IAs engajassem em diálogos prejudiciais, sem qualquer contenção.

Brinquedos inteligentes, dilemas reais

Mesmo assim, a indústria não desacelera. A OpenAI e a Mattel trabalham em brinquedos falantes baseados em IA, e o setor de “smart toys” pode ultrapassar US$ 25 bilhões até 2030.

Os anúncios prometem “amigos que escutam”, bonecos que “entendem sentimentos” e bichos de pelúcia que “nunca se cansam”. Mas psicólogos alertam que, quanto mais natural for a interação, mais confuso será distinguir o real do artificial.

Pais como Ben Kreiter, entrevistado pelo The Guardian, relatam o dilema: “Meus filhos queriam usar o ChatGPT todos os dias para criar imagens. Percebi que não sabia o que aquilo estava fazendo com o cérebro deles. Talvez eu não devesse usá-los como cobaias.”

Como acompanhar as crianças no mundo da IA

Musk alerta com frequência para os riscos da inteligência artificial. Já afirmou que uma IA capaz de aprender sozinha e superar a inteligência humana seria uma ameaça existencial
© Unsplash

Proibir o contato com a tecnologia não é solução, dizem os especialistas. O caminho é educar, supervisionar e conversar.

A psicóloga Anne Maheux, da Universidade da Carolina do Norte, recomenda que os pais ajudem os filhos a “usar essas ferramentas de forma alinhada com seus próprios valores”. Já Wendy Rote, da Universidade do Sul da Flórida, destaca que a supervisão só funciona com diálogo aberto: “Regras inflexíveis fazem as crianças esconderem suas atividades.”

Nem tudo é negativo. Para jovens isolados ou em busca de identidade — como parte da comunidade LGBTQ+ —, o ambiente digital pode oferecer apoio emocional. A questão é como garantir que esse apoio não substitua o contato humano real.

O limite da empatia artificial

Como resume a psicóloga Eileen Kennedy-Moore, “amigos de IA são substitutos pobres das relações reais”. Eles não ensinam empatia, negociação nem tolerância à frustração — habilidades fundamentais para crescer.

“A IA é fácil, mas não é satisfatória como um amigo humano — complexo, irritante, encantador e imprevisível”, diz.

A conclusão é clara: enquanto a tecnologia avança, a infância continua precisando de presença humana. Por mais que a voz digital conte histórias perfeitas, nada substitui o olhar, o toque e o tempo real.

 

[ Fonte: DW ]

 


 

 

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