O Discovery, uma das maiores joias da história aeroespacial americana, está no centro de uma batalha política inusitada. Senadores do Texas querem desmontar o ônibus espacial e levá-lo para Houston. O Smithsonian, que o abriga há mais de uma década, alega que isso destruiria o artefato — e violaria seu direito legal de posse.
Uma disputa digna de ficção científica
O ônibus espacial Discovery, em exibição no Museu Nacional do Ar e Espaço do Smithsonian, em Washington, D.C., há mais de dez anos, tornou-se o epicentro de um embate político que parece ter saído direto de um roteiro de House of Cards.
Dois senadores texanos, John Cornyn e Ted Cruz, lançaram uma verdadeira cruzada para transferir a nave para o Texas, alegando que ela deveria estar “em casa”, próxima do Centro Espacial Johnson, onde foi desenvolvida e monitorada durante décadas de missões.
O problema? O Smithsonian se recusa a abrir mão da peça histórica, argumentando que desmontar o Discovery seria caríssimo e arriscaria destruir parte de seu valor científico e patrimonial.
Um projeto de lei e um impasse de 150 milhões de dólares
A história começou em abril, quando Cornyn e Cruz apresentaram um projeto de lei para “trazer o Discovery de volta ao Texas”. A proposta acabou incorporada a uma gigantesca lei orçamentária aprovada em 4 de julho, apelidada de One Big Beautiful Bill.
A resposta do Smithsonian foi imediata. Em setembro, o museu enviou uma carta ao Comitê de Apropriações do Senado alertando que a remoção da nave custaria até 150 milhões de dólares — quase o dobro dos 85 milhões previstos no texto da lei — e que o processo poderia causar danos irreparáveis ao ônibus espacial.
NASA e Smithsonian concordam nesse ponto: o Discovery foi projetado para voar, não para ser desmontado. O museu afirma que “qualquer tentativa de separá-lo em módulos para transporte destruiria parte de sua integridade estrutural”.
Quando o patriotismo vira processo judicial
A pressão política aumentou depois que os senadores texanos pediram que o Departamento de Justiça (DOJ) investigasse o Smithsonian por suposta violação da Lei Antilobby, que proíbe instituições federais de usar fundos públicos para influenciar o Congresso.
Em uma carta enviada ao DOJ, Cornyn, Cruz e o deputado Randy Weber acusaram o museu de “lobby ilegal” ao divulgar estimativas de custo e riscos da transferência. Eles afirmam que “especialistas do setor privado” ofereceram orçamentos dez vezes menores que o do Smithsonian — algo que o museu classifica como “fantasia logística”.
Para Joe Stief, fundador da campanha Keep The Shuttle, o pedido de investigação é “uma tentativa absurda de silenciar o Smithsonian”.
“Eles já tentaram apelar até ao Chanceler do Smithsonian, o juiz-chefe John Roberts, e não conseguiram nada”, declarou Stief ao Gizmodo. “Agora tentam a sorte com o Departamento de Justiça.”
De quem é o Discovery, afinal?
O ponto central da disputa é jurídico: o Discovery pertence à NASA ou ao Smithsonian?
Desde 2012, a NASA transferiu todos os direitos, títulos e propriedade da nave para o Smithsonian, o que significa que o artefato é legalmente parte do acervo permanente do museu.
Os senadores texanos, porém, argumentam que o Smithsonian, apesar de ter autonomia administrativa, ainda é uma entidade pública financiada majoritariamente pelo Congresso — e, portanto, estaria sujeita às determinações federais.
Mas a história é mais complexa: o Smithsonian é classificado como uma “instrumentalidade fiduciária” — um tipo único de entidade pública reconhecida pelo Congresso, mas independente das agências federais. A jurisprudência americana é clara: artefatos doados ao Smithsonian não são propriedade do governo dos EUA, e sim do próprio museu.
O futuro incerto do ônibus espacial mais famoso do mundo
Por enquanto, o destino do Discovery segue indefinido. Com o orçamento federal de 2026 paralisado e um impasse entre as bancadas do Senado, nenhuma decisão oficial foi tomada.
Enquanto isso, o Smithsonian continua a exibir o ônibus espacial intacto em Washington — onde, todos os dias, milhares de visitantes se maravilham diante da nave que voou 39 vezes ao espaço, passou 365 dias em órbita e percorreu quase 240 milhões de quilômetros.
Mas, se depender dos políticos do Texas, a próxima viagem do Discovery pode não ser rumo às estrelas — e sim rumo a um armazém de transporte, desmontado peça por peça.