A inteligência artificial é apresentada como o motor do crescimento mundial, mas a lógica dos investimentos recentes gera dúvidas. Empresas de tecnologia fazem grandes acordos entre si, movimentando cifras astronômicas que aumentam o valor das ações, mas nem sempre se traduzem em resultados concretos. O que para alguns é um ciclo virtuoso de inovação, para outros pode ser o prenúncio de uma bolha prestes a estourar.
O dinheiro que gira em círculos
Nos últimos meses, Nvidia anunciou um investimento de US$ 100 bilhões em OpenAI. Pouco depois, a OpenAI revelou que pagaria US$ 300 milhões à Oracle por energia de computação, e a Oracle declarou que compraria US$ 40 bilhões em chips da Nvidia. O ciclo parece claro: recursos que circulam entre os mesmos atores, impulsionando as ações, mas sem geração imediata de valor real.
Analistas, como Rishi Jaluria da RBC Capital Markets, destacam que tais acordos podem ser positivos se acelerarem o desenvolvimento de modelos mais poderosos, capazes de trazer economia real e novos usos para a IA. Mas se isso não se confirmar, alerta, a engrenagem vira apenas uma “roda giratória” sem saída.
Entre a inovação e a ilusão
Os defensores desse fluxo apontam que melhorias contínuas podem destravar casos de uso ainda limitados pela capacidade técnica. No entanto, críticos lembram de práticas antigas conhecidas como “round-tripping”: transações feitas apenas para inflar artificialmente o valor de ativos ou empresas.
OpenAI mostrou avanços com o modelo de vídeos Sora 2, ainda que cercado de polêmicas por violação de direitos autorais. Já o lançamento do GPT-5, em agosto, não correspondeu às expectativas. O uso prático também parece tímido: segundo o MIT, 95% das companhias que tentaram integrar IA generativa não viram retorno.
O retorno que só aparece na bolsa
Enquanto isso, os números mais impressionantes aparecem nos mercados financeiros. As ações da Oracle, por exemplo, subiram fortemente apesar de a empresa não registrar crescimento real em seus lucros. O valor projetado de US$ 455 bilhões ainda não é tangível, mas fez o CEO Larry Ellison quase ultrapassar Elon Musk na lista de bilionários.
Essa desconexão lembra a bolha das empresas “.com” no início dos anos 2000, quando companhias valiam bilhões sem receita real, ou mesmo a crise imobiliária, em que fluxos financeiros circulavam em cadeia até que um elo frágil derrubasse todo o sistema.
Um castelo que pode ruir
O professor Peter Atwater, da universidade William and Mary, compara a situação a uma esteira de dinheiro: enquanto todos acreditam no crescimento infinito, empresas assumem compromissos cada vez maiores. Mas quando um dos “engrenagens” falha, a interconexão pode levar ao colapso geral.
No fim, a pergunta central permanece: a IA será o motor de uma nova revolução econômica ou apenas mais uma bolha inflada pelo excesso de expectativas? O tempo e a adoção prática dirão se esses bilhões são investimento sólido ou apenas vento dentro de um balão prestes a estourar.
Fonte: Gizmodo ES