Durante décadas, diferenças entre homens e mulheres diante da dor foram registradas sem que a medicina conseguisse explicar exatamente o que acontecia. Agora, esse quebra-cabeça começa a ganhar peças importantes. Pesquisadores estão descobrindo que hormônios, células imunológicas, cromossomos e até mecanismos naturais de analgesia podem funcionar de maneiras distintas, abrindo caminho para tratamentos mais personalizados.
A diferença aparece nos números, mas eles não contam toda a história
Dizer simplesmente que “mulheres sentem mais dor” seria uma simplificação. Ainda assim, existe uma diferença consistente que aparece em diversos estudos.
A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) aponta que mulheres apresentam, em média, maior vulnerabilidade a diversas condições dolorosas e tendem a experimentar mais dor ao longo da vida. Entre os exemplos estão fibromialgia, osteoartrite, dor temporomandibular, cefaleias e dores musculoesqueléticas.
Dados dos Estados Unidos ajudam a dimensionar essa diferença. Em 2023, 25,4% das mulheres adultas relataram dor crônica, contra 23,2% dos homens. Para dor crônica de alto impacto, capaz de limitar atividades cotidianas, os percentuais foram de 9,6% e 7,3%, respectivamente.
Uma revisão publicada em outubro de 2026 na revista Science reforça que condições como síndrome do intestino irritável, endometriose, enxaqueca menstrual, fibromialgia, osteoartrite e algumas dores neuropáticas atingem desproporcionalmente as mulheres.
A questão que intriga os cientistas é: por quê?
A resposta parece ir muito além dos hormônios

Durante muito tempo, estrógeno, progesterona e testosterona concentraram boa parte das explicações. Eles realmente importam, mas o cenário que está surgindo é consideravelmente mais complexo.
Hormônios sexuais podem modificar processos inflamatórios, circuitos nervosos e mecanismos pelos quais o próprio organismo reduz a dor. As oscilações hormonais ao longo do ciclo menstrual, gravidez, pós-parto e menopausa acrescentam outras variáveis.
Mas estudos recentes estão direcionando atenção para uma interação muito mais ampla entre sistema nervoso, sistema endócrino e sistema imunológico.
Em 2025, por exemplo, pesquisadores descobriram em camundongos que células T reguladoras, componentes importantes do sistema imunológico, conseguem suprimir determinados tipos de dor de maneira dependente do sexo. Hormônios femininos participaram desse mecanismo. O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos detalhou os resultados, destacando seu potencial para compreender diferenças na sensibilidade à dor.
É importante, porém, não extrapolar: experimentos em animais ajudam a revelar mecanismos biológicos, mas seus resultados não significam automaticamente que o mesmo processo funcione de forma idêntica em humanos.
O sistema imunológico trouxe outra surpresa
Outro estudo financiado pelo NIH e publicado em 2026 trouxe uma peça adicional para o quebra-cabeça.
Trabalhando novamente com camundongos, cientistas investigaram por que determinadas dores persistiam por mais tempo nas fêmeas. Os resultados apontaram para diferenças na atuação de células imunológicas envolvidas na recuperação da dor.
A descoberta é particularmente interessante porque muda a pergunta. Em vez de investigar apenas por que uma pessoa sente determinada intensidade de dor, pesquisadores estão tentando compreender por que o organismo de algumas pessoas consegue desligar esse sinal enquanto, em outras, ele se transforma em um problema crônico.
Essa distinção pode ser fundamental para desenvolver medicamentos específicos.
Também há indícios de diferenças nos sistemas naturais de analgesia. Pesquisas resumidas pelo NIH mostraram que mecanismos opioides internos do organismo podem participar de maneira diferente da redução da dor em homens e mulheres.
Nada disso significa que exista uma única “dor feminina”. Idade, genética, condição clínica, ambiente, experiências anteriores, saúde mental e fatores sociais também interferem profundamente na experiência individual.
Cromossomos também entraram na investigação

Outra mudança importante está acontecendo longe dos hormônios.
Os cromossomos X e Y carregam genes capazes de influenciar diferentes processos biológicos, incluindo a resposta imunológica. Isso significa que algumas diferenças entre os sexos podem começar em mecanismos celulares que não dependem exclusivamente da quantidade de estrógeno ou testosterona circulando no organismo.
Esse campo ganhou impulso depois que o NIH passou a exigir, em 2016, que pesquisadores considerassem o sexo como variável biológica em estudos financiados pela instituição quando pertinente.
Historicamente, animais machos e participantes homens foram frequentemente utilizados como referência em pesquisas biomédicas. Isso deixou lacunas importantes justamente em doenças nas quais existem diferenças significativas entre os sexos.
Hoje, o cenário está mudando.
A Associação Internacional para o Estudo da Dor ressalta que fatores biológicos e aspectos relacionados a gênero precisam ser considerados conjuntamente para compreender a experiência da dor. Não existe uma fronteira simples entre biologia e ambiente.
A descoberta mais importante pode estar no tratamento
Entender essas diferenças não é apenas uma curiosidade científica.
Se determinadas vias moleculares participam mais da dor em um grupo do que em outro, um mesmo medicamento pode não apresentar exatamente a mesma eficácia para todos. No futuro, conhecer esses mecanismos pode ajudar médicos a selecionar tratamentos de acordo com características biológicas mais específicas do paciente.
Isso também pode ajudar a combater um problema histórico: a subestimação da dor feminina.
O objetivo, porém, não é substituir um erro por outro e presumir que toda mulher sente mais dor ou precisa de um tratamento diferente. As pesquisas mostram justamente que a experiência dolorosa resulta de uma combinação extraordinariamente complexa de mecanismos.
A grande mudança está em reconhecer que sexo biológico não deveria ser tratado como detalhe irrelevante nos estudos.
Depois de décadas observando diferenças, a ciência finalmente começa a compreender alguns dos mecanismos que existem por trás delas. E essa nova perspectiva pode transformar não apenas como entendemos a dor, mas também como tentamos fazê-la desaparecer.