Errar diante de outras pessoas, tropeçar nas próprias palavras ou simplesmente parecer ridículo costuma despertar uma vontade imediata de desaparecer. Mas existe uma linguagem artística que faz exatamente o contrário: coloca a falha no centro da experiência. É nesse território que trabalha Luján Reggi, psicóloga, professora de teatro e pesquisadora de doutorado que investiga o que o clown pode revelar sobre emoções, vulnerabilidade e saúde mental.
Quando o ridículo deixa de ser algo a esconder

Antes da psicologia, veio o teatro. Foi durante sua formação artística que Luján Reggi conheceu o clown, justamente em um período bastante particular de sua vida, entre o puerpério da segunda filha e a gravidez da terceira.
O que despertou sua curiosidade não estava apenas no palco ou na possibilidade de provocar risadas. Havia algo acontecendo internamente, sobretudo através do corpo. O jogo, a presença e a vulnerabilidade pareciam alcançar lugares que nem sempre respondiam às palavras.
Essa percepção acabou abrindo caminho para outra pergunta: seria possível compreender esses efeitos pela psicologia?
Com o passar do tempo, Reggi começou a observar fenômenos semelhantes nas pessoas que participavam dos treinamentos. Algumas pareciam desenvolver uma relação diferente consigo mesmas. Tornavam-se mais flexíveis, mais presentes e menos dominadas pela vergonha ou pela cobrança constante de acertar.
Aquilo que havia começado como uma experiência artística passou, então, a despertar interesse científico.
Atualmente, Reggi desenvolve sua tese de doutorado em Psicologia, com orientação em Neurociência Cognitiva Aplicada, sob direção da doutora Paula Salamone. Seu objetivo é investigar o que pode acontecer psicologicamente quando alguém treina presença, jogo e vulnerabilidade por meio do clown.
O que acontece quando o erro vira parte do jogo
Existe uma contradição interessante por trás dessa pesquisa. Vivemos em uma cultura que frequentemente recompensa controle, desempenho e perfeição. Nas redes sociais, no trabalho e até nas relações pessoais, mostrar fragilidade pode parecer quase um risco.
O clown segue pela direção oposta.
Nesse universo, a falha não precisa ser escondida. Um tropeço, uma hesitação ou uma situação constrangedora podem se transformar justamente no ponto mais interessante da experiência.
A torpeza deixa de funcionar apenas como motivo de vergonha e passa a criar conexão.
Esse mecanismo interessa especialmente à psicologia porque compreender racionalmente uma experiência nem sempre é suficiente para transformá-la. Uma pessoa pode saber exatamente por que sente medo, vergonha ou insegurança e, ainda assim, continuar reagindo da mesma maneira.
A experiência artística acrescenta outra dimensão.
Em vez de apenas falar sobre determinada emoção, o participante precisa atravessá-la com o corpo, diante de outras pessoas e dentro de uma situação de jogo. Existe uma diferença enorme entre entender intelectualmente que errar é permitido e experimentar um erro publicamente sem que o mundo desmorone.
É justamente aí que o clown pode oferecer um território particularmente fértil para investigação.
Do palco para a saúde mental

A grande questão agora é descobrir se essas experiências podem produzir benefícios mensuráveis e, principalmente, se podem ser utilizadas de maneira responsável em outros contextos.
Reggi investiga a possibilidade de o clown funcionar como uma ferramenta não farmacológica de promoção da saúde mental em grupos. Para isso, porém, é necessário ultrapassar relatos pessoais e demonstrar seus possíveis efeitos com rigor científico.
Caso esse potencial seja confirmado, as aplicações poderiam ultrapassar os espaços tradicionalmente ligados ao teatro.
Hospitais, escolas e projetos comunitários aparecem entre os ambientes nos quais práticas artísticas podem ganhar relevância. A proposta não seria substituir tratamentos psicológicos ou médicos, mas ampliar as possibilidades de prevenção, cuidado e promoção do bem-estar.
Essa perspectiva também convida a repensar o papel da arte.
Em uma rotina marcada por telas, produtividade, comparação e estímulos permanentes, experiências artísticas podem criar algo cada vez mais raro: presença verdadeira, encontro e emoção compartilhada.
Talvez rir seja mais sério do que parece
Pensar em saúde mental apenas como ausência de sintomas pode ser limitado. Bem-estar também envolve sentir curiosidade, conexão, espontaneidade e a sensação de estar verdadeiramente presente na própria vida.
É nesse ponto que o humor ganha outra camada.
Rir não seria apenas uma resposta divertida a alguma coisa engraçada. Em determinadas experiências, pode funcionar como uma maneira de reconhecer fragilidades, compartilhar desconfortos e descobrir que não precisamos sustentar uma versão perfeita de nós mesmos o tempo inteiro.
O clown transforma justamente essa imperfeição em matéria-prima.
Em uma sociedade onde tantas pessoas tentam controlar cuidadosamente a imagem que apresentam aos outros, assumir a própria vulnerabilidade pode parecer um gesto pequeno. Mas talvez exista algo profundamente humano, e até transformador, nesse movimento.
A ciência ainda precisa investigar até onde esses efeitos chegam. Mas a pergunta já está colocada: e se fazer papel de bobo, em determinadas circunstâncias, for uma coisa muito mais séria do que imaginávamos?
[Fonte: Noticias]