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Ciência

A anestesia não coloca o cérebro para dormir: cientista de Harvard afirma que o estado se parece mais com um coma reversível controlado

Durante décadas, pacientes ouviram que a anestesia geral funciona como um “sono profundo”. Mas, segundo um dos maiores especialistas do mundo na área, a realidade é muito diferente. Estudos recentes mostram que os anestésicos alteram profundamente a atividade cerebral, criando um estado mais próximo de um coma reversível do que do sono natural.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A anestesia geral está entre os avanços mais importantes da história da medicina moderna. Graças a ela, cirurgias complexas podem ser realizadas sem dor, sofrimento ou lembranças traumáticas para os pacientes. Apesar de ser utilizada diariamente em hospitais de todo o mundo há quase dois séculos, os cientistas ainda investigam em detalhes o que realmente acontece dentro do cérebro durante esse processo.

Um dos pesquisadores que lideram essa busca é Emery Brown. Professor da Harvard University, pesquisador do MIT e especialista do Massachusetts General Hospital, Brown dedica décadas ao estudo da atividade cerebral durante a anestesia.

Segundo ele, a comparação frequentemente usada pelos médicos — a ideia de que o paciente entra em um “sono profundo” — não descreve adequadamente o fenômeno.

Muito mais do que simplesmente dormir

Surpreendente: Como a anestesia geral funciona
© Pexels

Para Brown, a anestesia geral produz quatro efeitos fundamentais ao mesmo tempo: inconsciência, ausência de dor, ausência de memória e imobilidade.

O desafio dos anestesiologistas é manter esses estados durante toda a cirurgia sem comprometer as funções vitais do organismo e, posteriormente, revertê-los de forma segura.

Embora a comparação com o sono seja reconfortante para os pacientes, os exames cerebrais mostram uma realidade bastante diferente.

Enquanto o cérebro adormecido continua realizando processos complexos relacionados à memória, ao sonho e à regulação fisiológica, a anestesia altera profundamente a comunicação entre diferentes regiões cerebrais.

“O estado é mais parecido com um coma farmacologicamente reversível”, explica Brown.

A diferença é que, ao contrário de um coma provocado por lesões ou doenças, esse estado pode ser cuidadosamente controlado pelos médicos e revertido ao final do procedimento.

O que acontece dentro do cérebro anestesiado

Grande parte do trabalho de Brown utiliza a eletroencefalografia (EEG), exame que registra a atividade elétrica cerebral em tempo real.

Em uma pessoa acordada, as ondas cerebrais apresentam frequências rápidas e amplitudes relativamente baixas. Sob anestesia, esse padrão muda radicalmente.

As ondas tornam-se mais lentas e mais intensas, formando oscilações características que variam conforme o medicamento utilizado, a idade do paciente e seu estado geral de saúde.

Segundo o pesquisador, drogas amplamente utilizadas, como propofol, sevoflurano, isoflurano e desflurano, reduzem drasticamente a comunicação entre diferentes áreas cerebrais.

As neuronas, que normalmente disparam entre 10 e 12 vezes por segundo, podem passar a ativar-se apenas uma vez a cada um ou dois segundos.

Essa desaceleração interrompe a integração das informações necessárias para a consciência.

Os riscos da anestesia ainda estão sendo estudados

Os avanços científicos também ajudam a compreender por que alguns pacientes, especialmente idosos, podem apresentar confusão mental, delírio ou dificuldades cognitivas após cirurgias.

Brown acredita que parte desses problemas pode estar relacionada à administração de doses anestésicas maiores do que o necessário.

Segundo ele, muitos hospitais ainda utilizam monitores simplificados para acompanhar a profundidade anestésica, em vez de analisar diretamente os sinais completos do EEG.

Essa diferença pode influenciar a precisão com que a anestesia é ajustada durante o procedimento.

Por isso, uma das principais linhas de pesquisa atuais busca desenvolver sistemas inteligentes capazes de interpretar continuamente a atividade cerebral e adaptar automaticamente a dose dos medicamentos em tempo real.

O objetivo é aumentar a segurança e reduzir possíveis efeitos adversos.

O que a anestesia ensina sobre a consciência humana

Cientistas descobriram algo perturbador sobre o cérebro inconsciente: ele talvez nunca “desligue” de verdade
© Pexels

Além da aplicação médica, a anestesia oferece uma oportunidade rara para estudar um dos maiores mistérios da ciência: a consciência.

Para Brown, a experiência mostra que a consciência depende da comunicação eficiente entre diversas regiões cerebrais, incluindo o córtex cerebral, o tálamo e o tronco encefálico.

Quando essas conexões são interrompidas, a percepção consciente desaparece.

O mais interessante é que esse processo pode ser observado de maneira objetiva, através das mudanças registradas nos sinais elétricos do cérebro.

Isso transforma a anestesia em uma ferramenta valiosa para investigar como pensamentos, memórias e percepções emergem da atividade neural.

Uma inovação que mudou a medicina para sempre

A história da anestesia moderna começou em 1846, quando o dentista William Morton realizou uma demonstração pública utilizando éter no Massachusetts General Hospital.

Na ocasião, o paciente permaneceu inconsciente enquanto um tumor era removido sem sentir dor, um feito revolucionário para a época.

Quase 180 anos depois, os princípios básicos da anestesia continuam os mesmos, embora os medicamentos, os equipamentos e o monitoramento tenham evoluído enormemente.

Para Brown, a anestesia permanece uma das maiores conquistas da medicina.

E, ao mesmo tempo, uma das melhores janelas para entender o funcionamento do cérebro humano — um órgão que continua guardando alguns dos maiores segredos da ciência.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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