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Ciência

A ciência está investigando por que pessoas vacinadas parecem ter menor risco de demência

Estudos com milhões de pessoas encontraram uma associação intrigante entre determinadas vacinas e um risco menor de demência. Agora, uma antiga ideia da imunologia voltou ao centro das atenções.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Vacinas foram criadas para uma tarefa bastante específica: preparar o organismo para reconhecer e combater determinadas infecções. Mas pesquisas realizadas nos últimos anos começaram a revelar um padrão que vai além desse objetivo original. Pessoas vacinadas contra diferentes doenças parecem apresentar, em alguns estudos, menor incidência de demência no futuro. A coincidência chamou a atenção dos pesquisadores porque pode apontar para um mecanismo biológico muito mais amplo do que se imaginava.

A pista que apareceu em doenças completamente diferentes

Os sinais mais interessantes surgiram em grandes estudos populacionais. Pessoas que receberam vacinas contra herpes-zóster, gripe, pneumococo, hepatite e tétano apresentaram, em determinados trabalhos, menor risco posterior de desenvolver demência.

A associação mais consistente até agora envolve a vacinação contra o herpes-zóster. Mas existe um detalhe que torna a descoberta muito mais intrigante: quando resultados semelhantes aparecem com vacinas destinadas a combater agentes infecciosos completamente diferentes, fica mais difícil explicar tudo apenas pela prevenção de uma doença específica.

Isso levou os pesquisadores a fazer uma pergunta diferente.

Será que algumas vacinas provocam mudanças mais amplas no funcionamento do sistema imunológico?

A hipótese não afirma que as vacinas sejam um tratamento comprovado ou uma forma de prevenir diretamente a demência. A maior parte dessas evidências vem de estudos observacionais, que conseguem identificar associações, mas não provar sozinhos uma relação de causa e efeito.

Ainda assim, existe uma pista biológica que pode ajudar a explicar o fenômeno.

Ela começa com uma parte do sistema imunológico que, durante muito tempo, foi considerada incapaz de desenvolver uma espécie de memória.

A parte do sistema imunológico que talvez aprenda

Tradicionalmente, a chamada imunidade adaptativa era considerada a grande responsável pela memória imunológica.

Linfócitos T e B conseguem reconhecer ameaças específicas e desenvolver respostas mais rápidas quando encontram novamente o mesmo agente. É justamente um dos princípios fundamentais por trás da vacinação.

A imunidade inata era vista de maneira diferente. Ela funciona como uma primeira linha de defesa, reagindo rapidamente a diferentes ameaças, mas sem a capacidade de guardar uma memória específica semelhante à das células T e B.

Essa visão começou a mudar em 2011, quando ganhou força o conceito de imunidade treinada.

Pesquisas passaram a indicar que determinadas células da imunidade inata também podem sofrer alterações duradouras depois de uma infecção ou vacinação. Essas mudanças não alteram a sequência do DNA, mas podem modificar a maneira como alguns genes são ativados.

O resultado seria uma espécie de “treinamento” celular. Depois de determinada exposição, o sistema imunológico poderia responder de maneira diferente quando encontrasse outros estímulos no futuro, mesmo que eles não tenham relação direta com o agente original.

Uma das vacinas mais importantes para essa linha de pesquisa é a BCG, utilizada principalmente contra a tuberculose.

Experimentos em animais e humanos indicaram que a vacina pode aumentar determinadas respostas imunológicas contra microrganismos diferentes daquele para o qual foi originalmente desenvolvida.

E então surgiu outra pista curiosa.

O herpes-zóster é apenas o começo do mistério

No caso do herpes-zóster, existe uma explicação relativamente intuitiva para uma possível relação com a demência.

O vírus varicela-zóster permanece no organismo após a infecção inicial e pode permanecer adormecido durante décadas dentro das células nervosas. Com o envelhecimento, ele pode voltar a se multiplicar e provocar o herpes-zóster.

Evitar essa reativação poderia, em teoria, reduzir episódios de inflamação que afetariam o sistema nervoso ao longo do tempo.

Mas essa explicação fica menos convincente quando observamos resultados envolvendo outras vacinas.

Um estudo sobre vacinação contra a gripe, por exemplo, encontrou uma associação entre a aplicação de doses altas em pessoas idosas e uma redução do risco de demência maior do que a observada com doses convencionais.

Se diferentes vacinas, contra diferentes infecções, apresentam padrões semelhantes, talvez exista algo além da simples prevenção de cada doença.

É nesse ponto que a imunidade treinada ganha importância.

A inflamação pode ser a peça que conecta tudo

Uma das possibilidades investigadas pelos pesquisadores é que determinadas vacinas possam modificar a maneira como o sistema imunológico controla microrganismos e regula processos inflamatórios.

Essa hipótese é relevante porque a inflamação crônica e a chamada neuroinflamação estão associadas a diferentes doenças neurodegenerativas.

Em teoria, um sistema imunológico mais bem regulado poderia limitar determinadas respostas inflamatórias e, consequentemente, reduzir alguns processos que contribuem para danos no cérebro ao longo do envelhecimento.

Mas é importante não transformar essa hipótese em uma conclusão que a ciência ainda não alcançou.

Os estudos disponíveis não demonstram que vacinas previnam diretamente a demência. Pessoas vacinadas podem diferir das não vacinadas em muitos outros aspectos — acesso à saúde, hábitos, condições socioeconômicas e acompanhamento médico, entre outros fatores.

São necessários estudos adicionais para determinar se existe realmente um efeito protetor, quais vacinas poderiam produzi-lo e quais mecanismos biológicos estariam envolvidos.

Mesmo assim, a possibilidade é fascinante.

Uma tecnologia criada para ensinar o organismo a reconhecer uma infecção específica talvez também esteja provocando mudanças mais amplas no sistema imunológico. E, se pesquisas futuras confirmarem essa conexão, poderemos descobrir que algumas vacinas não apenas treinam nossas defesas contra determinados vírus ou bactérias, mas também influenciam a maneira como o organismo lida com a inflamação durante o envelhecimento.

A grande questão agora não é apenas se existe uma associação, mas entender exatamente como ela acontece.

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