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Tecnologia

Do carro de F1 ao campo de futebol: como a nuvem virou peça essencial do esporte

Os maiores eventos esportivos do planeta estão ganhando uma camada invisível de tecnologia. Ela não aparece apenas nas placas: está nos dados, nas decisões e nas transmissões.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, a relação entre grandes empresas de tecnologia e o esporte parecia simples: colocar uma marca em uma camisa, uma placa ou um carro de corrida e associá-la ao espetáculo. Essa lógica está mudando rapidamente. Hoje, servidores, inteligência artificial, sensores e plataformas digitais trabalham nos bastidores de competições que movimentam milhões de pessoas. E algumas das maiores empresas do mundo já estão muito mais próximas do campo do que parece.

A Fórmula 1 transformou cada corrida em uma avalanche de dados

Poucos esportes mostram essa transformação de maneira tão evidente quanto a Fórmula 1. Um carro moderno não é apenas uma máquina de alta velocidade: é também uma plataforma móvel de coleta de dados.

Cada monoposto possui cerca de 300 sensores, capazes de produzir aproximadamente 1,1 milhão de pontos de telemetria por segundo. Essas informações permitem acompanhar o comportamento do carro, o desempenho de componentes mecânicos e diferentes aspectos da estratégia durante uma corrida.

A Amazon Web Services, por exemplo, trabalha com a Fórmula 1 desde 2018. Os dados coletados durante as provas são combinados com décadas de informações históricas para alimentar ferramentas analíticas que também chegam ao público durante as transmissões.

A tecnologia, portanto, deixou de ser apenas uma ferramenta utilizada pelas equipes. Ela passou a fazer parte da própria maneira como o espectador entende uma corrida.

A parceria entre tecnologia e automobilismo aparece também na McLaren. O time trabalha com o Google desde 2022, inicialmente com Android e Chrome, mas a colaboração foi ampliada para incluir serviços de nuvem e inteligência artificial. A equipe utiliza essas ferramentas para conectar operações realizadas no circuito ao centro tecnológico e explorar novas aplicações de IA, incluindo o Gemini.

O resultado é uma competição em que cada ultrapassagem pode gerar muito mais informação do que aquilo que aparece na televisão.

No futebol, a inteligência dos dados já aparece durante a partida

A transformação não ficou restrita aos motores.

Na Bundesliga, a parceria com a AWS deu origem aos chamados Bundesliga Match Facts. São estatísticas processadas durante as partidas que permitem apresentar ao público informações sobre velocidade dos chutes, recuperação da bola e mudanças no domínio do jogo.

Em vez de esperar o fim da partida para analisar os números, sistemas computacionais transformam os acontecimentos em estatísticas praticamente em tempo real.

No futebol europeu, entretanto, existe outra dimensão dessa aproximação tecnológica. O acordo entre o Spotify e o Barcelona transformou uma plataforma de música em parte importante da identidade comercial do clube. Desde 2022, a parceria também deu origem ao nome Spotify Camp Nou.

Nesse caso, a tecnologia não está necessariamente tentando decidir qual jogador deveria fazer determinado movimento. O objetivo é conectar esporte, entretenimento, música, artistas e torcedores em uma experiência digital que ultrapassa o estádio.

É uma mudança importante: o esporte passa a ser tratado não apenas como competição, mas como uma gigantesca plataforma de conteúdo e dados.

Na NFL, os jogadores também viraram fontes de informação

No futebol americano, a tecnologia chegou ainda mais perto da tomada de decisões.

A Microsoft mantém uma parceria de longa duração com a NFL e, a partir de 2025, os dispositivos utilizados por treinadores e jogadores passaram a incorporar equipamentos Surface Copilot+PC, com recursos de inteligência artificial capazes de ajudar a localizar rapidamente jogadas e momentos específicos das partidas.

A Amazon também participa desse ecossistema por meio do Next Gen Stats. O sistema utiliza etiquetas RFID instaladas nos equipamentos dos jogadores para acompanhar posição, velocidade e direção.

Esses dados podem ser processados por modelos de aprendizado de máquina e transformados em métricas capazes de analisar movimentos, placagens e desempenho individual com um nível de detalhe impossível de obter apenas observando a partida.

A lógica também chegou ao basquete. A Microsoft utiliza o Azure em plataformas digitais e sistemas de estatísticas avançadas da NBA, mostrando que o mesmo modelo pode ser aplicado a diferentes modalidades.

O verdadeiro negócio está acontecendo longe das câmeras

É justamente aí que está a parte mais interessante dessa transformação.

Durante muito tempo, uma empresa de tecnologia entrava no esporte principalmente como anunciante. Seu nome aparecia em uma camisa, em uma placa ou associado a um evento.

Agora, a situação é diferente.

Uma companhia pode fornecer os servidores que processam os dados de uma corrida, desenvolver a inteligência artificial utilizada por uma equipe, acompanhar os movimentos dos atletas ou transformar informações complexas em gráficos exibidos durante uma transmissão.

Isso cria uma relação muito mais profunda entre esporte e tecnologia. O público pode nem perceber qual empresa está por trás de determinada estatística, mas sua infraestrutura pode estar trabalhando continuamente para que aquela informação exista.

Google, Amazon, Microsoft, Oracle e outras gigantes continuam sendo patrocinadoras. Mas o patrocínio já não conta toda a história.

O esporte moderno está se tornando cada vez mais dependente de uma infraestrutura digital invisível. A grande mudança é que as empresas de tecnologia deixaram de apenas pagar para aparecer no espetáculo: em muitos casos, agora ajudam a construir o próprio sistema que faz o espetáculo funcionar.

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