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Ciência

A constante que define a gravidade continua desafiando a ciência: após dez anos de testes, físicos falham novamente em medir com precisão a misteriosa “Grande G”

Mesmo depois de mais de dois séculos de tentativas, a constante gravitacional de Newton continua cercada de incertezas. Agora, um dos experimentos mais ambiciosos já realizados para medir essa força fundamental terminou com um resultado inesperado — e aprofundou ainda mais um dos maiores mistérios da física moderna.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A gravidade parece simples no cotidiano. É ela que mantém nossos pés no chão, controla as marés e mantém planetas presos às estrelas. Mas medir exatamente a intensidade dessa força continua sendo um enorme desafio para a ciência.

Um novo experimento conduzido ao longo de quase uma década por pesquisadores do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) voltou a demonstrar isso. O estudo, publicado na revista Metrologia, tentou determinar com extrema precisão o valor da chamada constante gravitacional universal, conhecida como “Grande G”. O problema é que o resultado obtido não bate com medições anteriores — nem mesmo com o experimento que a equipe tentava reproduzir.

A descoberta reacende um velho desconforto da física: talvez ainda não entendamos completamente uma das forças mais fundamentais do universo.

O que é a “Grande G”

A constante gravitacional foi introduzida a partir dos estudos de Isaac Newton sobre a gravidade. Ela representa matematicamente a intensidade da atração entre duas massas em qualquer ponto do universo.

Em termos práticos, ela aparece na famosa equação da gravitação universal de Newton:

F=Gm1m2r2F = G\frac{m_1 m_2}{r^2}F=Gr2m1​m2​​

Nela, a letra G define o “peso” da interação gravitacional. Sem essa constante, não seria possível calcular órbitas planetárias, trajetórias espaciais ou até prever como galáxias se comportam.

O curioso é que, apesar de sua importância, a Grande G continua sendo uma das constantes fundamentais menos precisas da ciência moderna. Enquanto valores como a velocidade da luz ou a constante de Planck são conhecidos com enorme precisão, a gravidade segue produzindo medições conflitantes.

Por que medir a gravidade é tão complicado

Gravidade
© NASA

Segundo os pesquisadores, o grande problema é que a gravidade é extremamente fraca quando comparada às outras forças fundamentais da natureza.

Embora pareça poderosa no dia a dia, ela é muito menos intensa que as forças eletromagnéticas e nucleares. Um pequeno ímã de geladeira, por exemplo, consegue vencer facilmente a atração gravitacional da Terra ao prender um objeto metálico na superfície.

Além disso, qualquer objeto ao redor interfere minimamente nas medições gravitacionais. Temperatura, pressão atmosférica, vibrações e até pequenas imperfeições nos equipamentos podem alterar os resultados.

Para tentar minimizar essas interferências, a equipe liderada pelo físico Stephan Schlamminger utilizou uma balança de torção extremamente sensível. O equipamento mede forças minúsculas observando o grau de torção de massas metálicas suspensas por fibras muito finas em ambiente de vácuo.

O projeto começou em 2016 e exigiu anos de calibração e ajustes delicados.

O “envelope secreto” que evitava vieses

Os cientistas também decidiram adotar uma estratégia incomum para evitar qualquer influência psicológica sobre os resultados.

Um pesquisador que não participava diretamente do experimento adicionou um valor aleatório às medições reais. Esse número foi escondido em um envelope secreto, inacessível para Schlamminger durante todo o trabalho.

A ideia era impedir que expectativas pessoais afetassem a análise dos dados, mesmo de forma inconsciente.

O envelope só foi aberto em julho de 2024, durante uma conferência científica. Naquele momento, a equipe finalmente descobriu o valor final calculado para a Grande G.

Inicialmente houve comemoração. O número parecia plausível. Mas o entusiasmo logo deu lugar à frustração.

Um resultado que não fecha

A equipe encontrou o seguinte valor para a constante gravitacional:

G=6.67387×10−11 m3 kg−1 s−2G = 6.67387\times10^{-11}\ \mathrm{m^3\ kg^{-1}\ s^{-2}}G=6.67387×10−11 m3 kg−1 s−2

O problema é que esse número ficou cerca de 0,0235% abaixo do experimento francês que tentavam replicar e também não coincide com o valor recomendado pelo CODATA, o comitê internacional responsável por padronizar constantes físicas.

Pode parecer uma diferença pequena, mas, para a física de precisão, ela é significativa. Schlamminger comparou o erro a medir a altura de uma pessoa e errar por milímetros.

“É pequeno na escala geral das coisas, mas bastante constrangedor quando falamos de conceitos fundamentais”, afirmou o pesquisador.

Existe uma física desconhecida por trás disso?

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© pexels

A hipótese mais fascinante seria imaginar que existe alguma física ainda desconhecida afetando as medições gravitacionais. Mas os próprios cientistas consideram essa possibilidade improvável.

Para a maioria dos especialistas, o mais provável é que existam efeitos extremamente pequenos e difíceis de detectar contaminando os experimentos.

Mesmo assim, o estudo não é visto como um fracasso completo. Pelo contrário: ele revelou limitações importantes e pode ajudar no desenvolvimento de instrumentos mais precisos para outras áreas da física.

Schlamminger também acredita que o verdadeiro papel da metrologia — a ciência das medições — não é apenas encontrar números perfeitos, mas expor aquilo que ainda não compreendemos totalmente.

Depois de dez anos tentando decifrar a Grande G, ele ainda não perdeu o fascínio pelo problema. Mas admite que jamais tatuaria essa constante no braço.

“Ela é delicada demais”, brincou.

 

[ Fonte: CNN ]

 

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