A discussão sobre quem controla os dados dos cidadãos europeus vem se intensificando nos últimos anos. Em meio a preocupações com privacidade, dependência tecnológica e concentração de poder nas mãos de grandes empresas americanas, governos e instituições do continente começaram a buscar alternativas locais para serviços digitais estratégicos.
Nesse cenário, um nome vem aparecendo com frequência crescente: Qwant. O buscador francês acaba de dar um passo simbólico importante ao se tornar a ferramenta de pesquisa padrão do Parlamento Europeu, reforçando uma tendência que vai além da simples escolha de um motor de busca.
O que é o Qwant
Fundado em 2013, o Qwant nasceu com a proposta de oferecer uma experiência de busca semelhante à dos grandes concorrentes, mas sem rastrear o comportamento dos usuários.
Ao contrário dos mecanismos tradicionais, que utilizam o histórico de navegação para personalizar anúncios e resultados, o Qwant afirma não armazenar pesquisas individuais nem criar perfis publicitários baseados nos hábitos de seus usuários.
A empresa defende uma filosofia simples: a pessoa que utiliza o serviço não deve ser tratada como um produto comercial.
Essa abordagem ganhou relevância especialmente após a entrada em vigor das rígidas leis europeias de proteção de dados, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), que ampliou as exigências sobre o tratamento de informações pessoais.
Um projeto francês com ambições europeias
O buscador foi criado pelos empresários franceses Jean-Manuel Rozan, Éric Léandri e Patrick Constant.
Com sede em Paris, a empresa recebeu apoio de investidores e instituições interessadas em fortalecer o ecossistema tecnológico europeu diante da forte presença de gigantes norte-americanos como Google, Microsoft e Amazon.
Ao longo dos anos, o projeto expandiu sua atuação. Além do mecanismo de busca tradicional, a plataforma passou a oferecer aplicativos para dispositivos móveis, extensões para navegadores e ferramentas baseadas em inteligência artificial capazes de resumir páginas e fornecer respostas rápidas.
Por que o Parlamento Europeu adotou o Qwant
O movimento mais significativo aconteceu em junho de 2026, quando o Parlamento Europeu decidiu definir o Qwant como mecanismo de busca padrão nos navegadores utilizados internamente pela instituição.
A mudança afeta centenas de parlamentares e milhares de funcionários administrativos que utilizam computadores oficiais da entidade.
Embora os usuários continuem livres para escolher outros serviços, a decisão possui forte valor simbólico. Ela demonstra que a discussão sobre soberania digital deixou de ser apenas um tema político e passou a influenciar decisões práticas dentro das instituições públicas europeias.
O objetivo é incentivar o uso de tecnologias desenvolvidas dentro da União Europeia e reduzir a dependência de plataformas estrangeiras em áreas consideradas estratégicas.
A experiência é parecida com a do Google

Para quem utiliza o buscador pela primeira vez, as diferenças visuais não são tão grandes.
Assim como ocorre no Google, basta digitar uma consulta para acessar resultados relacionados a sites, notícias, imagens e outros conteúdos disponíveis na web.
A principal distinção está nos bastidores. Segundo a empresa, o sistema não utiliza cookies destinados ao rastreamento publicitário nem monitora o comportamento de navegação para criar perfis individuais.
Isso significa que duas pessoas realizando a mesma pesquisa tendem a receber resultados semelhantes, sem a forte personalização que caracteriza muitos dos grandes buscadores atuais.
Pode realmente competir com o Google?
Do ponto de vista de participação de mercado, o desafio é enorme. O Google continua dominando amplamente as buscas online em praticamente todas as regiões do planeta.
Ainda assim, o objetivo do Qwant parece ser diferente. Em vez de disputar diretamente cada usuário do líder global, a empresa aposta em um nicho crescente de pessoas, empresas e instituições preocupadas com privacidade, proteção de dados e independência tecnológica.
A adoção pelo Parlamento Europeu não muda imediatamente o equilíbrio do mercado, mas representa algo talvez mais importante: mostra que a busca por alternativas digitais europeias está deixando o campo das intenções e começando a se transformar em políticas concretas. Em uma era em que os dados se tornaram um dos ativos mais valiosos do mundo, essa pode ser uma mudança muito mais significativa do que parece à primeira vista.
[ Fonte: Infobae ]