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Tecnologia

Uma civilização perdida sob a Amazônia surpreende cientistas: milhares de estruturas revelam um passado que ninguém imaginava

Escondidas durante séculos pela floresta, construções monumentais começam a revelar uma Amazônia muito diferente daquela imaginada. Cientistas acreditam que o que encontraram pode ser apenas uma pequena amostra.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Vista de cima, a floresta amazônica parece esconder qualquer vestígio do que existiu antes dela. Mas uma tecnologia capaz de atravessar virtualmente a cobertura das árvores está revelando outra paisagem. Sob a vegetação, pesquisadores identificaram estradas, figuras geométricas e centenas de construções feitas de terra. As estimativas são ainda mais impressionantes: milhares de estruturas podem continuar invisíveis, deixadas por sociedades que transformaram profundamente essa região há quase dois mil anos.

Um laser revelou o que a floresta escondeu durante séculos

Uma civilização perdida sob a Amazônia surpreende cientistas: milhares de estruturas revelam um passado que ninguém imaginava
© U.S. National Park Service, U.S. Geological Survey – https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=37307642

A descoberta aconteceu no estado do Acre, no sudoeste da Amazônia brasileira, onde pesquisadores utilizaram uma tecnologia conhecida como LiDAR para observar o terreno escondido sob a vegetação.

O método funciona emitindo enormes quantidades de pulsos de laser a partir do ar. Parte deles atravessa os pequenos espaços entre as copas das árvores e alcança o solo. Com esses dados, computadores conseguem reconstruir digitalmente o relevo, praticamente removendo a floresta da imagem.

O resultado surpreendeu os pesquisadores.

Os levantamentos identificaram cerca de 400 estruturas de terra que permaneciam invisíveis aos métodos tradicionais de observação. Muitas formam desenhos geométricos gigantescos, incluindo círculos, quadrados, retângulos e octógonos com centenas de metros de extensão.

Para construí-las, seus habitantes escavavam grandes quantidades de solo e utilizavam a terra retirada para levantar terraplenos.

A descoberta, porém, ganhou outra dimensão quando modelos computacionais foram utilizados para estimar quantas construções semelhantes poderiam existir em áreas ainda não analisadas.

A projeção aponta para algo próximo de 20 mil estruturas distribuídas por aproximadamente 400 mil quilômetros quadrados.

E não eram monumentos completamente isolados.

Estradas perfeitamente planejadas conectavam diferentes assentamentos

Os levantamentos identificaram caminhos extremamente retos e vias construídas para conectar diferentes centros.

Essa infraestrutura sugere uma organização territorial muito mais sofisticada do que aquela tradicionalmente associada às populações pré-colombianas dessa parte da Amazônia.

Algumas estruturas aparentemente não eram residências nem fortificações. Suas características indicam que poderiam funcionar como centros políticos e cerimoniais utilizados por diferentes comunidades.

Esses locais teriam servido para reuniões, trocas comerciais, celebrações, atividades rituais e decisões coletivas.

Tradições orais indígenas da região também descrevem espaços utilizados para fortalecer relações entre comunidades, com cerimônias, música, dança, banquetes, competições e demonstrações de prestígio por parte de lideranças.

Isso ajuda a formar a imagem de uma Amazônia que estava longe de ser um enorme território praticamente vazio antes da chegada dos europeus.

O estudo, desenvolvido com participação de pesquisadores da Universidade de Helsinque, sugere justamente o contrário: sociedades numerosas teriam modificado extensas áreas da floresta e criado redes de assentamentos conectados.

A escala populacional estimada torna essa conclusão ainda mais surpreendente.

Milhões de pessoas podem ter vivido nessa região da Amazônia

Os pesquisadores associam as estruturas à chamada civilização Aquiry, formada por comunidades que ocuparam a região do atual Acre durante o primeiro milênio de nossa era.

Seu período de maior crescimento populacional teria ocorrido aproximadamente entre os anos 100 e 300 d.C.

As estimativas apresentadas pelo estudo indicam que entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas podem ter habitado essa ampla região, formando uma das maiores concentrações populacionais pré-colombianas identificadas na Amazônia.

Não se trataria necessariamente de um grande reino centralizado.

O cenário apontado pelas evidências é o de diferentes comunidades integradas por estradas, centros cerimoniais e redes de interação espalhadas pelo território.

Essas populações também transformavam o ambiente.

Evidências arqueológicas indicam o cultivo de alimentos como milho, mandioca e abóbora, além da prática de horticultura e do manejo de árvores consideradas importantes para alimentação e outros usos.

Partes da floresta eram abertas para agricultura e atividades cerimoniais, inclusive com o emprego controlado do fogo. Isso significa que a paisagem encontrada séculos depois pelos europeus já carregava marcas profundas de ocupação humana.

Ainda assim, grandes extensões florestais continuavam preservadas.

A descoberta reforça uma mudança importante na arqueologia amazônica: a separação rígida entre uma floresta supostamente intocada e populações humanas que apenas se adaptavam a ela está se tornando cada vez mais difícil de sustentar.

Ainda existem perguntas que a floresta não respondeu

Apesar da escala das descobertas, grande parte da história dessas comunidades permanece desconhecida.

Os pesquisadores ainda não sabem exatamente quais línguas eram faladas, como esses povos chamavam a si próprios ou de que maneira funcionavam todas as relações políticas entre diferentes assentamentos.

Outro mistério envolve seu declínio.

Por volta do ano 850, essa organização social teria sofrido uma rápida transformação ou colapso, mas as causas ainda não estão completamente esclarecidas.

Talvez a maior incógnita, entretanto, esteja relacionada ao tamanho real de tudo aquilo que permanece escondido.

Apenas uma pequena parcela da Amazônia foi analisada com LiDAR em alta resolução. Isso significa que inúmeros geoglifos, estradas, assentamentos e outras estruturas podem continuar cobertos pela vegetação.

Os pesquisadores argumentam que somente a área cultural analisada pode conter uma quantidade de construções de terra comparável às estimativas que anteriormente eram feitas para toda a Amazônia.

Se novos levantamentos confirmarem esse padrão em outras regiões, será necessário revisar de maneira ainda mais profunda a história da ocupação humana da maior floresta tropical do planeta.

Durante muito tempo, as árvores fizeram parecer que quase nada existia ali.

Agora, lasers estão atravessando essa cobertura e mostrando que, sob uma das florestas mais densas do mundo, pode permanecer escondido um enorme capítulo da história das Américas.

[Fonte: Perfil]

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