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Ciência

A gigantesca estrutura escondida sob nossos pés pode ser uma das mais importantes da Terra

Cientistas finalmente mapearam uma rede subterrânea que sustenta ecossistemas inteiros há centenas de milhões de anos. O que descobriram superou até as estimativas mais ambiciosas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Muito do que mantém a vida na Terra acontece longe dos nossos olhos. Debaixo de florestas, campos e até áreas agrícolas existe uma infraestrutura natural tão vasta que desafia a imaginação. Durante décadas, cientistas souberam que ela existia, mas nunca conseguiram medir sua verdadeira dimensão. Agora, um estudo sem precedentes revelou a escala impressionante dessa rede subterrânea e acendeu um alerta sobre as ameaças que ela enfrenta.

A descoberta que revelou uma rede quase inimaginável

Pesquisadores conseguiram criar o primeiro mapa global das chamadas redes de fungos micorrízicos arbusculares, organismos que vivem no solo e estabelecem uma relação vital com a maioria das plantas do planeta.

Esses fungos formam estruturas microscópicas compostas por filamentos tubulares conhecidos como hifas. Embora invisíveis a olho nu, eles desempenham um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas terrestres. Em troca dos açúcares produzidos pelas plantas durante a fotossíntese, os fungos fornecem nutrientes e água retirados do solo, criando uma parceria que existe há cerca de 475 milhões de anos.

Para entender a dimensão desse sistema, pesquisadores da organização Society for the Protection of Underground Networks (Spun) utilizaram modelos de aprendizado de máquina combinados com informações coletadas em mais de 16 mil amostras de solo distribuídas por diferentes continentes.

O resultado impressionou até os especialistas envolvidos no projeto. Segundo os cálculos, se todas as redes fúngicas identificadas fossem colocadas em linha reta, elas alcançariam cerca de 110 quatrilhões de quilômetros de extensão.

A distância é tão gigantesca que equivale a quase 750 milhões de viagens entre a Terra e o Sol.

Para ajudar a visualizar essa escala, os pesquisadores destacam que uma simples colher de chá de solo saudável pode conter até 10 metros de rede fúngica subterrânea.

A descoberta representa um marco para a ciência, pois oferece pela primeira vez uma visão global de uma das estruturas biológicas mais importantes do planeta.

Os engenheiros invisíveis que ajudam a regular o clima

Muito além de sustentar o crescimento das plantas, essas redes subterrâneas desempenham funções essenciais para o equilíbrio ambiental.

Ao interagir com as raízes, os fungos ajudam a capturar e armazenar carbono no solo, reduzindo parte do dióxido de carbono presente na atmosfera. Esse processo transforma os ecossistemas subterrâneos em aliados importantes no combate às mudanças climáticas.

As redes também atuam como canais naturais de distribuição de nutrientes, aumentando a eficiência dos ecossistemas e contribuindo para a fertilidade do solo. Além disso, ajudam a impedir que substâncias como nitrogênio, fósforo e outros compostos químicos sejam transportados para rios e lagos.

Os novos mapas permitiram identificar quais regiões apresentam as maiores concentrações dessas estruturas. Entre os ambientes mais ricos estão extensas áreas de campos naturais e pradarias espalhadas pelo planeta.

Locais como os Everglades, nos Estados Unidos, as áreas alagadas de Sudd, no Sudão do Sul, e diversas regiões de estepes e pradarias foram apontados como verdadeiros pontos de concentração dessas redes subterrâneas.

Paradoxalmente, muitos desses ambientes estão entre os menos protegidos do mundo e enfrentam níveis crescentes de degradação ambiental.

A agricultura moderna pode estar enfraquecendo uma infraestrutura vital

A gigantesca estrutura escondida sob nossos pés pode ser uma das mais importantes da Terra
© pexels

O estudo também revelou um dado que preocupa pesquisadores. Em áreas agrícolas, a densidade média das redes fúngicas é aproximadamente 47% menor do que a observada em ecossistemas naturais.

Segundo os cientistas, algumas práticas agrícolas modernas estão entre as principais responsáveis por esse declínio. O preparo intensivo do solo, por exemplo, pode literalmente romper as conexões formadas pelas hifas ao longo de décadas ou até séculos.

O uso excessivo de fertilizantes e determinados fungicidas também pode prejudicar a relação simbiótica entre plantas e fungos, reduzindo a capacidade natural dos solos de reciclar nutrientes.

As consequências podem ser amplas. Solos com menos fungos tendem a armazenar menos carbono, apresentar menor fertilidade natural e permitir maior contaminação de corpos d’água por produtos químicos.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem uma aproximação maior entre agricultura e conservação dos ecossistemas subterrâneos. A ideia é estimular práticas capazes de proteger os fungos e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos.

Segundo os autores, fortalecer essas redes poderia ajudar as plantas a obter nutrientes de maneira mais eficiente, melhorar a retenção de carbono no solo e aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas diante das mudanças climáticas.

Uma nova fronteira para a conservação ambiental

Nos últimos anos, movimentos de restauração ecológica têm concentrado esforços na recuperação de florestas, animais e habitats visíveis. Agora, cresce entre os cientistas a percepção de que a recuperação dos ecossistemas subterrâneos é igualmente importante.

O novo mapa global oferece uma espécie de referência para identificar quais regiões possuem comunidades microbianas saudáveis e quais apresentam sinais de degradação.

Para os pesquisadores, compreender melhor essas redes pode ajudar a enfrentar alguns dos maiores desafios do século XXI, incluindo segurança alimentar, preservação da biodiversidade e combate às mudanças climáticas.

A descoberta reforça uma ideia cada vez mais presente na ciência moderna: parte das soluções para os problemas ambientais do futuro pode estar escondida exatamente onde quase ninguém costuma olhar.

[Fonte: The Guardian]

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