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Ciência

A história por trás de uma das áreas naturais mais surpreendentes de Buenos Aires

Durante anos, aquele pedaço da costa parecia apenas um enorme terreno abandonado. Até que algo inesperado começou a transformar completamente a paisagem.
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Tempo de leitura: 4 minutos

À primeira vista, seria fácil confundir o local com mais uma área degradada às margens de uma grande cidade. O terreno nasceu de uma intervenção humana, passou anos sem cumprir a função para a qual havia sido criado e parecia destinado ao esquecimento. Mas o abandono abriu espaço para um processo surpreendente. Aos poucos, água, plantas e animais começaram a ocupar aquele cenário, criando uma paisagem que hoje é difícil imaginar que tenha surgido de uma obra urbana inacabada.

De balneário movimentado a terreno abandonado

Antes de se tornar uma das áreas naturais mais interessantes de Buenos Aires, esse trecho da costa tinha uma relação muito diferente com os moradores da cidade.

Entre 1918 e 1950, a região da Costanera Sur abrigava o Balneário Municipal, um ponto bastante frequentado pelos porteños. O passeio reunia milhares de pessoas e também ficava próximo de La Munich, uma tradicional cervejaria que ajudava a movimentar a região.

Com o passar dos anos, porém, a qualidade da água do Rio da Prata se deteriorou e o balneário perdeu importância. Décadas depois, em 1978, surgiu outro plano para aquela área: ampliar artificialmente a margem do rio utilizando escombros e materiais de construção.

A ideia era criar uma nova superfície de terra onde seria instalado o Centro Administrativo da Cidade de Buenos Aires. O projeto previa uma grande transformação urbana, mas acabou tendo uma vida muito mais curta do que seus idealizadores imaginavam.

Em 1984, a obra foi abandonada. No local ficaram toneladas de cimento, tijolos e outros materiais, formando um terreno irregular, baixo e sujeito a alagamentos.

Parecia o cenário perfeito para o abandono definitivo. Só que a história estava apenas começando.

Quando a natureza começou a ocupar o espaço

Sem um grande projeto de recuperação ambiental, o terreno começou lentamente a mudar.

As inundações periódicas do Rio da Prata levavam água para diferentes pontos da área. Ventos e animais transportavam sementes, enquanto os camalotes trazidos pelo próprio rio ajudavam a introduzir novas formas de vida.

Com o passar dos anos, aquilo que parecia apenas um enorme aterro começou a adquirir características de um verdadeiro mosaico de ambientes naturais.

Surgiram áreas alagadas, lagoas, campos, arbustos e setores de vegetação mais densa. O espaço passou a reunir características de três grandes ecorregiões argentinas: Delta e Ilhas do Paraná, Pastagens Pampeanas e Espinal.

A transformação chamou a atenção de organizações ambientalistas ainda na década de 1980. Em 1986, Fundação Vida Silvestre Argentina, Aves Argentinas e Amigos de la Tierra apresentaram uma proposta para proteger oficialmente a área.

A iniciativa prosperou. Naquele mesmo ano, o local foi declarado Parque Natural e Zona de Reserva Ecológica. Em 1989, recebeu definitivamente a categoria de Reserva Ecológica.

O que começou como uma intervenção para conquistar território do rio havia adquirido uma função completamente diferente.

De projeto urbano fracassado a patrimônio natural

O reconhecimento da importância ambiental da área continuou crescendo nas décadas seguintes.

Em 1994, a reserva foi declarada de Interesse Nacional pela Secretaria de Turismo da Argentina, enquanto a administração municipal também reconheceu seu valor turístico.

O reconhecimento internacional veio em 2005, quando a área foi incluída pela Convenção Ramsar na lista de Zonas Úmidas de Importância Internacional. O local também foi reconhecido como Área Importante para a Conservação das Aves, em uma iniciativa associada à BirdLife International e à Aves Argentinas.

Hoje, a Reserva Ecológica Costanera Sur ocupa aproximadamente 350 hectares entre Puerto Madero e o Rio da Prata. Sua localização é especialmente curiosa: ela está ao lado de uma das áreas imobiliárias mais valorizadas de Buenos Aires.

Levantamentos oficiais apontam mais de 2 mil espécies de flora e fauna na reserva, incluindo mais de 300 espécies de aves. Mamíferos, répteis, anfíbios e inúmeros insetos também encontram abrigo nos diferentes ambientes existentes.

Mas existe um detalhe importante nessa história. A reserva não surgiu porque alguém decidiu criar um grande projeto de restauração ecológica. O descarte de escombros provocou, originalmente, uma forte alteração ambiental na região.

A recuperação foi lenta e não estava garantida. Primeiro veio a colonização espontânea da natureza; depois, décadas de proteção, manejo e conservação ajudaram a consolidar o espaço.

Uma das histórias mais curiosas de Buenos Aires

A Reserva Ecológica Costanera Sur representa hoje uma das maiores contradições ambientais da capital argentina.

Um espaço criado para receber edifícios públicos acabou se tornando um refúgio para milhares de espécies. Um terreno formado por materiais de uma obra abandonada passou a abrigar lagoas, áreas alagadas, vegetação e animais.

A área também se transformou em um espaço de lazer para moradores e visitantes, com trilhas utilizadas para caminhadas e passeios de bicicleta.

Sua importância, porém, vai muito além da recreação. Em uma cidade que perdeu grande parte de seus ambientes naturais originais para o crescimento urbano, a reserva preserva uma pequena amostra dos ecossistemas que existiam na região.

A história também mostra que a natureza pode ocupar espaços de maneiras inesperadas. Mas não significa que qualquer área degradada vá automaticamente se transformar em um ecossistema saudável. Neste caso, a combinação entre características do terreno, dinâmica do rio, colonização biológica e proteção posterior foi fundamental.

O resultado é uma paisagem que hoje parece planejada para estar ali. Mas sua origem conta uma história completamente diferente.

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