Um mundo quente, possivelmente rico em água e localizado a cerca de 333 anos-luz da Terra está intrigando os astrônomos. O planeta foi encontrado no sistema HD 176071, na constelação do Cisne, orbitando a estrela KIC 9139163.
Os cálculos indicam que o exoplaneta possui aproximadamente 2,43 vezes o raio da Terra e uma massa cerca de 7,3 vezes maior que a do nosso planeta.
Essa combinação levou os pesquisadores a classificá-lo como um possível “mundo de água quente”, categoria particularmente interessante para compreender a enorme diversidade de planetas existentes fora do Sistema Solar.
Mas existe algo ainda mais curioso: o planeta está em uma região conhecida como deserto neptuniano, onde mundos com essas características são surpreendentemente raros.
Um planeta encontrado onde quase não deveria existir

O chamado deserto neptuniano corresponde a uma região próxima das estrelas onde são encontrados poucos planetas do tamanho aproximado de Netuno.
Uma das explicações é que a intensa radiação estelar pode remover progressivamente a atmosfera desses mundos.
Apesar das condições extremas, o novo exoplaneta parece ter conseguido preservar uma atmosfera significativa e dinâmica.
Para investigá-la, os cientistas compararam observações realizadas pelo telescópio espacial Kepler com dados coletados seis anos depois pelo TESS, da NASA.
As medições revelaram diferenças na quantidade de luz refletida pelo planeta que não poderiam ser facilmente explicadas por uma atmosfera completamente estática.
Nuvens gigantes podem estar mudando constantemente
Os modelos desenvolvidos pelos pesquisadores sugerem que o planeta pode possuir grandes formações de nuvens altamente reflexivas.
Essas nuvens poderiam surgir, evoluir e mudar de posição ao redor do mundo, alterando a quantidade de luz refletida em direção à Terra.
Isso ajudaria a explicar por que as observações feitas pelo Kepler e pelo TESS apresentaram diferenças mesmo analisando o mesmo planeta.
A proximidade extrema com a estrela também exerce uma enorme influência sobre esse mundo.
As forças de maré alteram lentamente sua órbita. Segundo os pesquisadores, esse processo pode fazer com que o planeta se aproxime progressivamente de sua estrela.
Em uma escala astronômica de tempo, seu destino pode ser inevitável: acabar engolido pelo próprio astro que orbita.
Planeta foi descoberto sem passar na frente da estrela

Outro aspecto interessante da descoberta está na maneira como os astrônomos conseguiram detectar o planeta.
Grande parte dos milhares de exoplanetas conhecidos foi descoberta pelo chamado método de trânsito.
Quando um planeta passa diante de sua estrela na perspectiva da Terra, ele bloqueia uma pequena quantidade da luz estelar. Telescópios conseguem detectar essa redução periódica no brilho e revelar a presença do mundo.
O novo planeta, entretanto, não passa na frente de sua estrela quando observado da Terra.
Isso significa que os pesquisadores precisaram utilizar outra estratégia.
Astrônomos observaram pequenas mudanças no brilho
Conforme o planeta completa sua órbita, diferentes partes de sua atmosfera refletem a luz da estrela em direção à Terra.
Os cientistas analisaram essas pequenas variações de brilho para identificar sua presença e estudar algumas de suas características.
As observações foram combinadas com dados do HARPS-N, instrumento instalado no Telescópio Nacional Galileo, nas Ilhas Canárias.
Com essas informações, os pesquisadores conseguiram estimar propriedades importantes, incluindo a massa do planeta, além de começar a reconstruir sua possível estrutura e atmosfera.
Técnica pode revelar muitos mundos escondidos
A descoberta também demonstra o potencial de métodos capazes de encontrar planetas que não transitam diante de suas estrelas.
Apenas uma parcela dos sistemas planetários possui a orientação necessária para que seus mundos cruzem a estrela na perspectiva da Terra.
Isso significa que inúmeros planetas da Via Láctea permanecem muito mais difíceis de detectar.
Analisar pequenas variações na luz refletida pode ajudar astrônomos a revelar parte dessa população escondida.
O novo mundo provavelmente está longe de ser parecido com a Terra. É maior, extremamente quente e vive perigosamente próximo de sua estrela.
Mesmo assim, justamente por existir em uma região onde planetas desse tipo são raros, ele pode ajudar os cientistas a entender melhor como mundos ricos em água surgem, evoluem e sobrevivem em alguns dos ambientes mais extremos da galáxia.
[ Fonte: TN ]