Observar as primeiras galáxias é como tentar compreender uma cidade distante enxergando apenas seus edifícios mais iluminados. Durante décadas, astrônomos precisaram trabalhar justamente com essa limitação. Agora, o Telescópio Espacial James Webb conseguiu detectar sinais de objetos que permaneciam praticamente escondidos pelo brilho de seus vizinhos. A descoberta sugere que algumas das primeiras estruturas do Universo eram bem mais complexas e massivas do que os modelos anteriores indicavam.
Era como observar uma cidade enxergando apenas seus arranha-céus

Quando cientistas estudam uma galáxia extremamente distante, não conseguem identificar suas estrelas individualmente como fariam em regiões próximas da Via Láctea. Em vez disso, analisam a luz combinada produzida por enormes populações estelares e utilizam essas informações para calcular características como idade e massa.
O problema é que estrelas muito grandes e luminosas podem dominar essa luz. É como observar uma metrópole durante a noite a milhares de quilômetros de distância e concluir que ela é formada apenas pelos prédios mais altos e iluminados.
Os pequenos edifícios continuam lá, mas permanecem praticamente invisíveis.
Foi justamente essa comparação com cidades que ajudou pesquisadores a explicar uma descoberta feita com dados do Telescópio Espacial James Webb (JWST). Astrônomos encontraram evidências de que nove galáxias do Universo primitivo possuíam uma quantidade muito maior de estrelas pequenas e pouco luminosas do que se acreditava anteriormente.
Essas estrelas estavam escondidas pela luminosidade das gigantes, mas representam uma quantidade significativa de matéria. Quando entram nos cálculos, a imagem dessas galáxias começa a mudar.
Não se trata, portanto, da descoberta literal de “cidades cósmicas”. A expressão funciona como uma analogia para explicar populações estelares que estavam presentes, mas que os métodos tradicionais tinham dificuldade para enxergar.
O James Webb conseguiu encontrar aquilo que permanecia no escuro
A pesquisa analisou nove galáxias antigas que já haviam atravessado uma fase intensa de formação estelar. Para investigar suas populações, os cientistas combinaram observações do James Webb com informações obtidas pelo Very Large Telescope, no Chile
A enorme sensibilidade infravermelha do Webb foi fundamental para avançar nesse trabalho.
Quando observamos objetos extremamente distantes, também estamos olhando para o passado. A luz dessas galáxias viajou pelo espaço durante bilhões de anos antes de alcançar os telescópios. Por causa da expansão do Universo, grande parte dessa radiação chega até nós deslocada para comprimentos de onda infravermelhos, justamente uma região na qual o James Webb foi projetado para trabalhar.
A análise permitiu aos astrônomos procurar características específicas na luz dessas galáxias que denunciam a presença de estrelas menores.
E o resultado surpreendeu.
Em uma das galáxias estudadas com maior detalhe, a população de estrelas pequenas indicou que sua massa total poderia ser até quatro vezes superior às estimativas anteriores.
Isso significa que aquilo que parecia uma galáxia relativamente modesta poderia esconder uma quantidade enorme de matéria simplesmente porque boa parte de suas estrelas produzia pouca luz.
É como finalmente enxergar todos aqueles pequenos edifícios entre os arranha-céus de uma cidade distante e perceber que a metrópole era muito maior do que aparentava.
As primeiras galáxias podem ter crescido de maneira diferente
A descoberta vai além de corrigir alguns números em uma tabela. Saber quantas estrelas pequenas existiam nas primeiras galáxias ajuda os cientistas a compreender como o Universo transformava enormes nuvens de gás em estrelas.
Astrônomos utilizam um conceito chamado função de massa inicial, que descreve a distribuição das massas das estrelas formadas em determinada população. No Universo atual, estrelas pequenas são muito mais numerosas do que gigantes extremamente massivas.
A grande dúvida era se essa proporção também valia para as primeiras épocas cósmicas.
Os novos resultados indicam que determinadas galáxias antigas podem ter produzido uma proporção surpreendentemente elevada de estrelas pequenas. Isso modifica as estimativas de sua massa e pode obrigar os pesquisadores a revisar alguns modelos sobre a evolução galáctica.
A descoberta também acrescenta uma nova peça ao quebra-cabeça criado pelo próprio Webb. Desde que começou suas observações científicas, em 2022, o telescópio vem encontrando galáxias brilhantes e desenvolvidas em épocas muito próximas do início do Universo. Em janeiro de 2026, por exemplo, o observatório confirmou uma galáxia que já existia apenas 280 milhões de anos depois do Big Bang.
O Universo jovem continua desafiando nossas expectativas
A presença de tantas estrelas pequenas também levanta outras possibilidades intrigantes.
Estrelas de baixa massa consomem seu combustível muito mais lentamente do que estrelas gigantes. Isso significa que podem permanecer ativas durante períodos extremamente longos. Uma população abundante desses objetos no Universo primitivo altera nossa compreensão sobre como essas galáxias evoluíram e acumularam matéria.
Também pode ter consequências para estudos futuros sobre a formação de sistemas planetários, embora seja cedo para transformar essa possibilidade em conclusões definitivas.
O mais interessante é que a descoberta mostra como nossa imagem do Universo primitivo ainda depende da capacidade de enxergar aquilo que permanece escondido.
Durante muito tempo, os astrônomos viram principalmente os “arranha-céus”: estrelas grandes, jovens e extraordinariamente brilhantes. O James Webb está começando a revelar os pequenos edifícios espalhados entre elas.
E quando essas estruturas invisíveis entram na conta, algumas das primeiras galáxias conhecidas deixam de parecer pequenos agrupamentos de estrelas para revelar algo muito maior.
Talvez as primeiras “cidades” do cosmos estivessem cheias muito antes do que imaginávamos.
[Fonte: Weekend]